T-Zero

Ressurreição

quinta-feira, março 18, 2004

A ignorância

Já faltava chegar ao imaginário intelectual português a ideia, já prontamente rebatida por tudo o que é especialista europeu de boa-fé, de que a Europa, antes das bombas madrilenas, era virgem em atentados terroristas e que agora se ataranta inexperientemente em reuniões e comissões para se defender antes de lá ir suplicar mais uma vez ajuda aos EUA, essa vítima secular do fundamentalismo islâmico. Deve ter sido por isso que a ETA serviu imediatamente como bode expiatório, por ser uma organização humanitária. E os franceses nunca lidaram com o terrorismo argelino. E a Alemanha e a Itália com o vermelho. E o Reino Unido com o católico. E, enfim, Portugal com o dos dois extremos políticos. Deve ser por isso também que as investigações mais eficazes ao 11 de Setembro decorrem na Europa, assim como foi da Europa que partiram avisos de que algo de catastrófico se cozinhava para e nos Estados Unidos.

Deve ser finalmente por isso que a velha Europa aprendeu a manifestar-se na rua contra o terrorismo e não abdicar de direitos e liberdades, trancar fronteiras e invadir países. Foram precisos séculos de colonialismo e duas guerras apocalípticas para que a maioria dos europeus abjurasse o complexo de superioridade sobre a cercania bárbara da Europa ocidental, que, no auge dos impérios, perfazia três quartos do mundo e se convertesse, ainda que com muitas reincidências, ao universalismo desinteressado de que todos esperamos que a União Europeia seja o instrumento. O que se pergunta, a questão que afinal encerra o futuro da humanidade é se a maioria dos americanos é mais inteligente e chega lá com menos lições.
Ralo