T-Zero

Ressurreição

terça-feira, março 30, 2004

Quem é que se pei...?

Terá sido a pergunta, em termos pudicamente binários, que a sonda europeia Mars Express enviou à Terra depois de detectar metano na atmosfera de Marte. A resposta, já que os rovers americanos não são orgânicos, é que só pode ter sido um marciano.

Não bastava a paisagem extra-terrestre, macroscopicamente tão onírica, ter sido reduzida a um acervo insípido de calhaus e poeira, agora ficamos a saber que é pelo rabo que vive o marciano. Mais irritante ainda, e por falar em sondas, tornam-se assim credíveis todos os testemunhos sobre ovnis que mencionam sondas anais.
Ralo

Não nos passa pela cabeça

"Arnaut espera que não haja «aproveitamentos» do Euro 2004"

domingo, março 28, 2004

Esses anormais

Agora que está composto o quadro mental do suado dr. Luís Vilas-Boas e, por associação, da quadrilha defensora das criancinhas (normais), os advogados de defesa dos arguidos da Casa Pia apressaram-se a alterar a estratégia: vão admitir a culpa dos clientes, mas pedir a absolvição com base no facto das vítimas serem homossexuais, deficientes ou seropositivas.
Ralo

segunda-feira, março 22, 2004

Patologia colectiva

Ao lado do repúdio por um Estado institucionalmente racista e que joga, com o árbitro comprado, uma espécie de prolongamento do colonialismo, convive em mim a admiração pela eficiência oficial israelita, do génio diplomático, que permitiu ao país beneficiar sempre do melhor apoio estratégico, à eficácia militar e securitária, objecto de inveja e imitação de todo o mundo. Ao assassinar, com o brinquedo bélico oferecido pelo protector americano, um velho tetraplégico e semi-cego que saía de uma mesquita para regressar à prisão domiciliária, depois de já ter frequentado uma prisão judaica, Israel confirma-me o primeiro sentimento e faz-me ter vergonha pelo segundo. Definitivamente, ou o país todo vai ao psiquiatra para curar o pavor mesquinho da revanche demográfica árabe e substitui os complexos bíblicos pelos princípios cosmopolitas das nações civilizadas, ou bem pode juntar o choradinho pelos atentados suicidas à indústria do holocausto, que não tarda ninguém se comove.
Ralo

sábado, março 20, 2004

O corajoso pensador

Quando já achava seguro refluir para o silêncio, agora que o país parecia regressar à sensatez depois de um paroxismo de disparates (coroado com o de Mário Soares), eis que Pacheco Pereira, decidido a cristalizar as ideias, mesmo as mais imbecis, a todo o custo, talvez pelo trauma da célebre mutação ideológica, se sai com esta pérola:

"Os EUA e os seus aliados mentiram sobre as razões da guerra por causa da pressão das opiniões públicas e das organizações internacionais".

E remata, do fundo da sua candura intelectual que tanto o envaidece:

"A verdadeira pretensão dos EUA depois do 11 de Setembro - e eu acho correcto - era alterar o statu quo no Médio Oriente".

Da invenção e manipulação de razões e provas ao casus belli minimalista, eis a evolução que Pacheco propõe aos inocentes falcões da coligação, a aplicar numa próxima oportunidade, que o próprio obviamente deseja que chegue cedo. Mas não se surpreenda se alguns violadores de domicílio comuns aproveitarem o conselho, e quando o juiz lhes perguntar a razão para terem invadido e destruído propriedade alheia eles responderem: "Porque não gostava da decoração".
Ralo

quinta-feira, março 18, 2004

O rombo

Mais um terrorista, dois terroristas, três terroristas, cinco terroristas que surdem da multidão dos firmes e autoritários que nos mantêm seguros e os mantêm livres.

Talvez a pureza matemática deste último facto - que a reacção norte-americana et al ao terrorismo já matou muitos mais inocentes do que o próprio terrorismo - lhes tenha inspirado a conversão.
Ralo

A ignorância

Já faltava chegar ao imaginário intelectual português a ideia, já prontamente rebatida por tudo o que é especialista europeu de boa-fé, de que a Europa, antes das bombas madrilenas, era virgem em atentados terroristas e que agora se ataranta inexperientemente em reuniões e comissões para se defender antes de lá ir suplicar mais uma vez ajuda aos EUA, essa vítima secular do fundamentalismo islâmico. Deve ter sido por isso que a ETA serviu imediatamente como bode expiatório, por ser uma organização humanitária. E os franceses nunca lidaram com o terrorismo argelino. E a Alemanha e a Itália com o vermelho. E o Reino Unido com o católico. E, enfim, Portugal com o dos dois extremos políticos. Deve ser por isso também que as investigações mais eficazes ao 11 de Setembro decorrem na Europa, assim como foi da Europa que partiram avisos de que algo de catastrófico se cozinhava para e nos Estados Unidos.

Deve ser finalmente por isso que a velha Europa aprendeu a manifestar-se na rua contra o terrorismo e não abdicar de direitos e liberdades, trancar fronteiras e invadir países. Foram precisos séculos de colonialismo e duas guerras apocalípticas para que a maioria dos europeus abjurasse o complexo de superioridade sobre a cercania bárbara da Europa ocidental, que, no auge dos impérios, perfazia três quartos do mundo e se convertesse, ainda que com muitas reincidências, ao universalismo desinteressado de que todos esperamos que a União Europeia seja o instrumento. O que se pergunta, a questão que afinal encerra o futuro da humanidade é se a maioria dos americanos é mais inteligente e chega lá com menos lições.
Ralo

quarta-feira, março 17, 2004

Medidas de segurança

Pensando que, neste momento, a exígua comunidade marroquina em Portugal está a vender relógios e óculos de sol no Algarve ou a treinar o Marítimo, de facto atentados entre nós não parecem muito verosímeis. Mas seja como for, já que o seguro morreu de velho, talvez fosse avisado juntar a fotografia do Bin Laden ao álbum da PJ. Bem sei que não cometeu acto tão ameaçador como ir duas vezes à Casa Pia. Mas até servia para apaziguar algumas vozes que agora estranham, contra a tendência dos últimos meses, a abundância de caras de direita, apondo-lhes a do líder da esquerda europeia.
Ralo

terça-feira, março 16, 2004

Não resisto

Evolução da reacção do já vetusto partido da guerra aos atentados e depois à consequência eleitoral:

Quinta-Feira: Foi a ETA! Claro que foi a ETA! Só esquerdalho de má-fé pode dizer que não foi!

Sexta-Feira: Indícios fortes a favor da Al-Qaeda? Isso são informações cirúrgicas dos órgãos de esquerda no âmbito de uma conspiração generalizada para levar - embora seja impossível - o PSOE ao poder.

Sábado: Se não foi a ETA podia ter sido.

Domingo: Ganharam os terroristas.
Ralo

Interregno

Só para informar que, como é óbvio, nunca como agora senti tanta vontade de regressar. Não, claro, por partilhar a súbita verborreia da "direita belicista", pateticamente contorcida entre o jacobinismo a que foi condenada pela redução dos argumentos a favor da invasão do Iraque e o anti popularismo que lhe inspiram as eleições espanholas. Sim, claro, para lhe responder; para apor a essa sucessão desesperada de posts ameaçadores uma declaração de profundo alívio pela rara (e aqui, como vêem, concordo em parte com esa direita) lucidez democrática que os nossos vizinhos demonstraram, da árabe Andaluzia à republicana Catalunha, passando pelo exemplo comovente de Madrid. Mas não o vou fazer, porque não é preciso. Basta remeter para esse voto consciente e corajoso e para as respectivas declarações, exaradas em tudo o que é imprensa europeia, que deixam claríssima a condenação retumbante tanto dos terroristas como dos seus concitadores.
Ralo