T-Zero

Ressurreição

quinta-feira, fevereiro 05, 2004

Sarajevo massacre remembered

É o título de um artigo a flutuar a meia página na BBC online, que me chamou a atenção, porque ando a ler compulsivamente Berlin, the Downfall, depois de me ter embrenhado com Stalingrad, o antecessor, no âmago mais sanguinário da história da Segunda Guerra Mundial. Queria, tão superficialmente quanto um artigo de circunstância permite, vislumbrar algum paralelo entre essa realidade já velha de 60 anos e as atrocidades mais recentes, partindo da impressão, carregada pela imagem fresca das monstruosidades nazis e soviéticas, que estas eram inimitáveis. Mas afinal Himmler e Beria tiveram dignos sucessores nos elementos do governo Bósnio, ao qual as próprias Nações Unidas, embora em segredo, imputaram o disparo do famigerado morteiro que atingiu o mercado de Sarajevo, matando 68 pessoas e fornecendo à Nato e às consciências ocidentais o estímulo moral para demonizar e castigar os sérvios. E não, não foi um acidente que o oportunismo ou sequer a vergonha impediram de denunciar - foi uma auto-mutilação premeditada para que a comunidade internacional contemplasse a maldade eslava e a inocência, no caso, muçulmana. Para não malbaratar o efeito mediático, operadores de câmara tinham sido mesmo expedidos com antecedência para filmar os cadáveres esquartejados e registar os uivos de dor que amaldiçoavam os bósnios-sérvios. Diga-se que a fórmula foi muito provavelmente repetida anos mais tarde ali perto, no Kosovo.

Ralo

segunda-feira, fevereiro 02, 2004

Super Bull...

Este pasquim de fundamentalistas islâmicos garante, ao contrário do que o próprio David Kay proclamou, que nem todo o aparato dos serviços de informação concordava que o Iraque tinha armas de destruição maciça. Este Avante! da capital americana declara que todas as asserções produzidas dramaticamente por Colin Powell no Conselho de Segurança sobre as capacidades genocidas de Saddam eram falsas. E este panfleto radical cita fontes da própria administração norte-americana para afirmar que os Estados Unidos sabiam desde Maio que o Iraque não possuía as famigeradas armas. Ou seja, o quarto poder funciona, mas é inconsequente perante opiniões públicas analfabetas, que continuam a aceitar como razão genuína para a guerra a ligação de Saddam Hussein ao 11 de Setembro. O poder legislativo, por muita dignidade que inspire, enche-se de pudor e medo de última hora quando lhe lembram a lealdade partidária. Quanto ao poder judicial, esse vai decaindo rapidamente, de Rui Teixera a Lord Hutton, na escala do respeito colectivo. Falta o executivo, onde, enfim, moram os culpados, os únicos que conhecem intimamente as reais motivações para a V Crusada. Ou seja, não sobra qualquer esperança.

Ou sim? Claro que sim! George W Bush, ele próprio, acometido, certamente, de um golpe de consciência, ainda que indiferente à pressão jornalística e ao calendário eleitoral, decidiu, numa lucubração como aquela em que se abstraiu tanto nas altitudes intelectuais que não reparou que um pretzel recém-deglutido se enganava no caminho, nomear uma comissão independente para averiguar as falhas dos serviços secretos e de informação na construção na recolha e tratamento de dados que "levaram" à invasão do Iraque. Meus amigos, não interessa que Donald Rumsfeld, Paul Wolfowitz, Dick Cheney, Tony Blair, Durão Barroso e Paulo Portas já tenham sido convidados; não interessa que o escopo da comissão encerre em si a identificação dos arguidos e a imunidade dos verdadeiros culpados. O que interessa é que até que as respectivas conclusões, aprazadas lá para 2005, sejam conhecidas, nós, os esquerdalhos amigos dos terroristas e abominadores da liberdade, mas também a comunicação social, salva da sua própria credulidade, e as forças políticas que insistem em desafiar os dogmas pôdres da segurança nacional, das alianças especiais e das infalibilidades governativas, todos temos de ficar de bico calado, porque o presidente do Mundo e, nos tempos livres, dos Estados Unidos da América, esse ungido por Deus, ainda que não pela Natureza, está a tratar de tudo.

Desafiando o Luís Delgado a dizer melhor, Ralo

domingo, fevereiro 01, 2004

Conferência de imprensa

Ao arrepio de tudo o que defendo e sinto, hoje concordo com o Mourinho. Só tenho duas objecções. Primeiro, ainda que um jogador que recomeça o jogo depois de o árbitro o ordenar não mereça nada menos do que morrer em campo, nós, que não temos culpa nenhuma, é que tínhamos de aturar mais umas exéquias futebolísticas. Segundo, não percebo porque é que há-de ser o presidente do Porto a decidir se ele abandona ou não o exíguo futebol português no fim da época - isto é uma democracia, caramba! Faça-se um referendo!

Ralo