Hoje que a verdade está nua, de pernas abertas, espojada no meio da praça a gemer "Olhem para mim!", ficamos a saber que meio-mundo é homossexual, a começar por um lord inglês, que concluiu, com aquela solenidade enfatuada e caricatural, pela absoluta inocência do governo de Tony Blair na face da acusação de que apimentou os relatórios dos serviços secretos sobre a capacidade de destruição massiva do arsenal iraquiano. Ao mesmo tempo, um oceano ao lado, o insuspeitíssimo David Kay depunha perante a comissão dos assuntos militares do senado, infecta de republicanos tenebrosos, dilacerado entre a adesão inabalável ao partido da guerra e a asserção honesta e científica de que NÃO HÁ ARMAS DE DESTRUIÇÃO MASSIVA NO IRAQUE, mas consolado pela conclusão própria de que a culpa foi dos mesmos serviços secretos, que terão abusado do presidente (sic). E é enfim este - percebe-se agora - o último refúgio destes indisfarçáveis cobardes, presidente, primeiro-ministro e imitadores, que epigrafaram a sua opção militar com o pretexto viril de que estavam a defender as respectivas seguranças nacionais, perseguindo um tirano moribundo, sitiado, vigiado, inspeccionado e desarmado, e agora deixam que outros expiem o seu palão, a sua fraude sangrenta naqueles a quem exigiram, sob pressão e manipulação, os argumentos para a guerra.
Não me ocorre nada assim na história recente, uma transferência tão descarada de responsabilidades políticas para órgãos intermédios da administração, pelo menos sendo a matéria tão grave, e menos ainda tratando-se de serviços secretos ou de informações. Por isso não faço ideia do que acontecerá. Mas a própria natureza destes serviços, o apego ao silêncio, o peso institucional e operacional da lealdade e, enfim, o recurso banal e já utilizado nos últimos meses a mais pressões, ameaças, exoneraçãos, assassinatos de carácter, etc, fazem antever um funeral definitivo da verdade infinitamente mais discreto do que o do pobre Feher.
Ralo