Suécia
A vitória do Não no referendo sueco sobre o euro veio confirmar o eurocepticismo escandinavo. Não sei o suficiente da Suécia para saber como votaria se fosse sueco. Mas, ao contrário de muitos europeístas, acho o eurocepticismo dos escandinavos, como o dos ingleses, um sentimento totalmente respeitável. Há muitas coisas na UE que me inspiram reservas: o voluntarismo das ideias europeístas, que produz nos seus adeptos um desejo muito perigoso de forçar a realidade; o pouco escrutínio a que estão sujeitos o Conselho e a Comissão Europeia, que gera um “défice democrático” preocupante, etc. Por isso, compreendo a relutância de cidadãos de países como a Grã-Bretanha e os estados nórdicos em embarcarem em projectos mais "federalistas". Eles pertencem a países que são das democracias mais avançadas do mundo. A perda de poder dos seus governos para Bruxelas significa a perda do controlo que eles têm sobre quem os governa, o que é uma coisa que eu próprio, se a tivesse, não gostaria de perder. Ainda mais importante, a independência dos seus países é algo que eles têm, historicamente, toda a razão para estimar e querer conservar. São todos estados independentes antigos dos quais se pode dizer que a história lhes correu bem. E se a independência os serviu bem, é natural que não queiram abdicar dela metendo-se em aventuras "federalistas" de futuro incerto.
Nada poderia ser mais diferente do caso de Portugal, o eterno lanterna vermelha da Europa Ocidental. A miséria e o atraso em que viveu nos últimos séculos provam à saciedade que foi uma experiência histórica mal sucedida. Ou seja, a sua tão antiga independência política não produziu frutos que se vissem e não merece por isso a estima de ninguém. Sobre a qualidade da democracia portuguesa, por sua vez, não há muito a dizer. Nestas condições, o eurocepticismo parece muito mais difícil de sustentar do que no Reino Unido ou nos países escandinavos. Os defeitos da UE podem ser evidentes, assim como os riscos da sua cada vez maior "federalização”. Mas o facto é que a alternativa – a continuação do país tal como ele é – parece sempre muito pior. Vasco Pulido Valente conta que Sá Carneiro dizia que seria conservador se em Portugal houvesse alguma coisa para conservar, o que não era o caso. Acho impossível definir melhor o problema.
A.

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