T-Zero

Ressurreição

domingo, setembro 14, 2003

Sete colinas

O Expresso de hoje cita um estudo da ONU que afirma que em 2015 a Grande Lisboa terá cerca de quatro milhões e meio de habitantes e será a terceira maior área metropolitana da Europa, a seguir a Londres e a Paris. Esses quatro milhões e meio equivalerão a 45% da população nacional, uma proporção inigualada por qualquer outra cidade europeia (no Grande Porto, por sua vez, ficarão 24%, o que também não é pouco). A notícia confirma uma tendência já verificável há algum tempo: as duas grandes cidades portuguesas estão a crescer demais, sobretudo a capital. E se uma grande cidade gera sempre muitos problemas, uma grande cidade portuguesa é uma receita certa para a degradação e para o caos urbanos. Londres e Paris já têm os problemas que se conhece, mesmo sendo as capitais de dois dos países mais ricos e eficientes da Europa. No sempre pobre e incompetente Portugal, uma Lisboa de dimensões aproximáveis será de certeza uma coisa medonha, a fazer lembrar a América Latina. Tal como está hoje, já assusta. A desordem urbanística vigente fez com que quase todas as zonas novas da cidade e dos seus subúrbios sejam sítios sufocantes onde a “qualidade de vida” das pessoas é nula. Note-se que não são só os pobres que vivem em bairros feios e deprimentes. A classe média lisboeta e dos arredores aceita habitar zonas onde muitos pobres de outros países europeus recusariam pôr os pés (quando se vê isso percebe-se como as diferenças sociais em Portugal são relativas; para europeus, nós somos todos pobres, embora, dentro da pobreza, haja uns de nós menos pobres que outros). O crescimento continuado da urbe até aos níveis previstos para 2015 vai de certeza piorar ainda mais a situação. Arrisco dizer que nessa altura teremos os tais 45% da população a viver numa cidade muito parecida com Istambul.
A.