O pacto
O pedófilo de escol pode encomendar a criancinha, molestá-la num recôndito chique e devolvê-la ao fornecedor, que a matará ou recauchetará se tiver sido raptada à família, ou a deixará aos portões do orfanato. O pedófilo comum tem de se contentar com a enteada, a sobrinha ou a filha, ou então dedicar-se a caçar nos percursos escolares até ser preso, numa notícia evanescente de um jornal regional. Mais abundantes, porém, são os outros, aqueles que estão entre a pedofilia light e uma homossexualidade requintada. Estes recorrem, aparentemente sem distinção, a serviços como o do Parque Eduardo VII. Aqui já não há vítimas, a não ser sociológicas, e a ilegalidade é menor, desde que os miúdos sejam maiores de 18. A diferença agora é a dimensão do que tem a perder o "poderoso" e o homem comum. Este arrisca a família e uma reputação banal, mas arrisca pouco, já que é - perdoem-me - um paneleiro anónimo que facilmente dissimula uma noite na prisão. Ao "poderoso" exige-se outra circunspecção: o risco é enorme, qualquer erro degenera em escândalo, a reputação é tudo e nunca lhe faltam inimigos. Por isso o "poderoso" protege-se em conformidade, transversalmente. Forma uma espécie de sindicato secreto dos dissolutos famosos aberto a todas as origens ideológicas que tem como função garantir que as flutuações políticas não os desguarnecem, fazendo com que nenhum governo, nenhuma judiciária, nenhum ministério público ousem mexer na matéria a não ser para a ocultar.
É este o pacto. Pacto que agora foi quebrado por alguém que, pertencendo ao sindicato, tendo beneficiado da sua protecção recentemente, não admitiu que, noutra matéria, ousassem confrontá-lo. Alguém que desafia a teoria da relatividade moral ao demonstrar uma omissão absoluta de escrúpulos. Alguém que possui uma ambição desmesurada pelo poder e uma disponibilidade total para os meios que a possam servir. Alguém que escalou a encosta democrática - que afinal não é suficientemente íngreme - à força de traições pessoais e políticas e de um populismo escabroso. Daí que os outros, o partido dos "poderosos" ou "poderoso" que assim, inusitadamente, foram ou foi parar às mãos de uma justiça claramente impreparada para o(s) receber, daí que esses tenham ficado abespinhados, incrédulos - ele quebrou o pacto! E agora?
Para já, como se perceberá amanhã, seguem-se mais duas décadas de direita, em parte "bem feito", em geral trágico, como se vê pela amostra de ano e meio. Depois, como na Bélgica, em Espanha, na França, na Alemanha, etc, etc, etc, a montanha vai parir um rato pedófilo, cuja imolação, justa ou injusta, vai ter de chegar para aplacar a populaça homofóbica. Os outros vão tendo mais cuidado por estes dias; alguns, aqueles que chegaram perto demais da revelação e que já pouco interessam, afastam-se, como já outros se afastaram antes; mas novos chegarão, para continuar a tradição, aprender o esquema, reforçar, aqui e ali, a malha e, finalmente, restabelecer o pacto. A menos que...
To be continued

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