(Dis)continued
Estimulado pela repreensão do A, que assim demonstra que é um dos incendiários fugidios que andam por aí (como a verdade, já dizia o teu querido Fox Mulder), já que ateou o fogo de hoje em Loures para cobrir Lisboa e o Parque Eduardo VII com uma cortina de fumo. Estimulado pelo seu insulto elogioso, dizia eu, decidi alinhavar à pressa uns pensamentos que medravam desde ontem, que constituiriam a segunda parte da agora chamada teoria da conspiração e que se resumem a duas penitências:
1º - Foi uma angústia proporcionada por facciosismo que me levou a redigir a primeira parte. De repente - e não só com base a notícia do Expresso - percebi que o PS também participava à grande da marosca (não digo "a esquerda", porque o PC só não participa em marosca quando não pode). O desenvolvimento da notícia, para lá da parangona - cuja espécie já havia jurado ignorar -, atenuou a percepção, mas não a eliminou, até porque a outra fonte da teoria continua vivinha. No entanto, o que me fode hoje e aquilo em que o A tem razão (tem, aliás, sempre razão), é ter ficado consternado não porque criancinhas andavam a ser sodomizadas em série limitada, nem por tal andar a ser escamoteado organizadamente, mas porque afinal o PS, em cujos actuais dirigentes deposito a minha esperança política, tem muitas responsabilidades - responsabilidades por apurar no primeiro facto, quase confirmadas no segundo. Ora isto é imbecil, e seria o último passo para a abjecta militância (de qualquer partido), se o A não me tivesse vindo salvar.
2º - Pelos vistos os arrebentas começam mesmo cedo, aos 10 e 11 em média, a acreditar nas fichas que se salvaram do lixo da PJ. Ora nesta idade não há vontade, tendências, personalidades que valham - não há consentimento possível -, por isso quem recorrer aos seus serviços estará sempre a abusar, como a lei diz e muitíssimo bem. O problema é que esse valoramento da lei - o único que devia ser admissível, apesar de algumas falhas - é transcendido pela moral popular, que por sua vez impele tanto os clientes desses miúdos, como dos maiores de 18, assim como os homossexuais que se engatam graciosamente na Cidade Universitária, para a clandestinidade e, no caso dos "famosos" ou "poderosos", para esquemas de encobrimento (desta não me demoves, A). Ou seja, entre o pedófilo que viola uma menina ou menino de 5 anos e o tipo que aluga os miúdos do Parque há um abismo moral de diferença. Este até pode ter pensado, fantasiado com o que o primeiro fez, mas teve o escrúpulo, o medo ou que fosse para não passar disso. Ou até pode nem ser pedófilo, mas apenas um homossexual que recorreu à prostituição - porque os heterossexuais fazem o mesmo, precisando até menos - e tomou o gosto à juventude (quem, de entre nós viris lésbicos, nunca admirou a pele firme de uma pita? ).
Com a droga acontece o mesmo, mas aqui o mal está sobretudo na lei, que obedece cegamente aos preconceitos sociais. O álcool e o tabaco são legalíssimos, excepto, no caso do primero, em associação com a condução. Porque são hábitos vetustos, normalizados. Já a cannabis é uma droga e, pior, quem a fuma é drógádo. Ora são já milhares os estudos científicos que demonstram os menores malefícios fisiológicos, psicológicos e sociais desta substância em relação às outras duas. À erva até se reconhecem genuínas propriedades medicinais, ao contrário das apócrifas do tabaco, sendo de longe o analgésico mais eficaz em vários tipos de cancro e no síndroma de dor crónica, por exemplo, e um tratamento insubstituível para o glaucoma. Mas quem fumar um charro podia ser preso, até há pouco tempo, e hoje ainda se sujeita a uma multa e a umas sessões psiquiátricas. Mais. Em vez de concentrar os meios no desmantelamento de redes de tráfico de drogas duras, a polícia anda a ridicularizar-se exibindo carregamentos de haxixe interceptada. Ora, com a pedofilia e a homossexualidade a sociedade faz o mesmo: em vez de misturar tudo na mesma nebulosa de imoralidade e indecência e obrigá-los assim a coligarem-se para disfarçarem os desvios e as tendências, esta púdica gente devia imitar, com maior vigor, os passos de uma Holanda, por exemplo, meter - preparem-se - a homofobia no cu, ensinar, descaradamente, que a homossexualidade é um equivalente moral e sentimental absoluto da heterossexualidade, escancarar ela própria as portas de todos os armários e concentrar o escândalo e a indignação naquilo que realmente é condenável, com a devida proporção e por ordem crescente de repugnância: a prostituição juvenil, homo ou hetero; a prostituição infantil; os abusos de menores em condições vulneráveis, como os de instituições como a Casa Pia claramente são; a violação pura de crianças; o lenocíncio (este fica em último porque nem sequer beneficia da desculpa patológica (e eu defendo que um pedófilo precisa tanto de um médico como de um carrasco), é o equivalente do dealer).
Com sorte, isto resultaria no isolamento dos verdadeiros criminosos, na dissuasão ou controlo dos tarados, na profilaxia do pedofilia e no linchamento dos que lucram com tudo isto. Pelo menos um bocadinho.
E pronto, A. A isto não retiro uma vírgula, nem sequer esta,. Se estiver assim a persistir nalgum disparate, já não me volto a defender tão prolixamente. Alego apenas - e é verdade - que ando com um défice de sono maior que o das contas públicas. Depois de finalmente dormir o que me falta, abrirei de certeza os olhos, com renovada indignação, para os verdadeiros problemas estruturais, como esse da Lisboa gigante. Posso, porém, adiantar já que a culpa é obviamente do PSD.

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