Breve VIII
Que dizia o Pacheco Pereira ao Mário Soares sobre o palão que levou à guerra, o inquérito Hutton e as diferenças entre os EU republicanos e o RU trabalhista? Veja agora se as encontra.
Ralo
Ressurreição
Que dizia o Pacheco Pereira ao Mário Soares sobre o palão que levou à guerra, o inquérito Hutton e as diferenças entre os EU republicanos e o RU trabalhista? Veja agora se as encontra.
Nunca pensei que fosse preciso um curso de História para perder a mania de imputar aos antigos qualidades morais que a posteridade, entretanto, desbaratou. O Renascimento teve o mérito de nos desenganar precocemente quanto ao cavalheirismo medieval, mas, ao mesmo tempo, plantou o devaneio de que as sociedades clássicas eram quase perfeitas. Esquecem-se aqueles por quem perpassa agora essa ideia que a liberalidade dos costumes e a fertilidade da cultura assentavam - sem querer soar marxista - no esclavagismo. Aliás, eu que sou mais anti-clerical que um cruzamento entre o Marquês de Pombal e o Afonso Costa, quanto a isso dou vigorosas palmadas nas costas da Igreja. Pode ter atolado boa parte da humanidade durante dezoito séculos, mas expurgou-a, por momentos, desse pecado fundamental.
Marcelo Rebelo de Sousa acha que a coligação PSD/PP vai governar até 2010. Marcelo Rebelo de Sousa tinha a certeza absoluta que Schroeder não ganhava a Stoiber.
Enquanto se ameaça com o fim da União Europeia, para contentamento dos que passaram a euro-cépticos porque a Europa já não tem vergonha de ser anti-americana, é bom lavar a cara e esfregar os olhos com um pouco de realidade objectiva, lucidamente indicada pelo blogueiro de esquerda mais prolífico.
Disse que não ia falar mais de futebol e mantenho. Assim como não falo de crime organizado, corrupção, tráfico de influências, extorsão, chantagem e outras matérias da competência exclusiva das autoridades judiciais.
Muito se fala da mais recente aquisição sentimental do Pinto da Costa. Porque é nova, bonita e loira, enquanto ele é velho, feio e careca. A insinuação é evidente, mas eu recuso subscrevê-la. Por uma questão de princípio - nunca comento as opções financeiras do ninguém.
Paulo Portas, acabado de se inscrever na direita moderna e europeia, declarou ter respeito pelo que Portugal fez em África. Como não concebo que alguém possa orgulhar-se da escravatura, da exploração e da guerra, que soterram qualquer vestígio de filantropia, e como o 25 de Abril não revogou a nacionalidade, então só posso congratular o ministro da defesa por se ter reconciliado com a descolonização.
Uma vénia: é para isto que conta a democracia em Israel.
Há quem tenha arrumado as botas, mas continue a escrever no blogue de pantufas. Ainda dá caneladas, mas já não doem. O T-Zero, ao contrário do Adelino Granja, não acabará tão cedo, mas vai sofrer meia suspensão. Em relação à tese, estou como o povo desiludido com a política - chega de promessas; enquanto não lhe outorgar o ponto final final (não é gralha), não me empenho muito nisto, o que, se pensarmos na mediocridade previsível do resultado, tem efeitos retroactivos até ao dia da inauguração. Entretanto, o A. contrai a obrigação de decuplicar as visitas e pageviews, comprometendo-se, porém, a jurar que o mérito será todo meu e das minhas brevíssimas contribuições. A todos os que têm comentado os meus posts, parabéns por não existirem, que a vida está difícil.
Querem ver que a maioria dos leitores deste blogue era pais babados, militantes do PC, adpetos do FCP e fãs do Mattoso.
Este jogo do Benfica com o Porto, e todos os jogos do Benfica e do Sporting nas Antas nos últimos 10-15 anos lembram-me aquela história do condutor branco que atropelou dois pretos numa passadeira, na África do Sul do apartheid. O caso foi a julgamento e o juiz proferiu a seguinte sentença: Ao primeiro preto, que embateu no pára-brisas e ficou com meio corpo dentro do carro, cinco anos de prisão e mil contos de multa por invasão de propriedade alheia; ao segundo preto, que foi projectado a vinte metros, dez anos de prisão e dois mil contos de multa por fugir da cena do acidente; ao branco, dez contos de multa por ainda não ser época de caça.
(segundo a redacção do "Actual")
De um ronda sumária por meia-dúzia de comentadores insuspeitos (porque são descaradamente do FCP) resumo, sem mais palavra -porque não quero cair na boçalidade de falar de futebol todos os fins-de-semana - a verdadinha sobre este jogo: foda-se, que roubalheira! Mais serenamente, os meus parabéns ao sr. Pinto de Costa e ao seu culto peculiar do futebol total - trabalha-se não só para ganhar os próprios jogos, mas também para perder os dos outros.
Aqui.
Os comunistas, por quem adquiri uma desconfiança inabalável, trouxeram ao mundo contemporâneo, entre outras novidades estilísticas, o culto desavergonhado da personalidade (mais os estalinistas e os maoístas, que os trotsquistas são uma espécie de protestantes do marxismo). Das estátuas e murais ubíquos dos grandes líderes à t-shirt do Che, o comunista gosta de gabar a sabujice e tem aquele orgulho de soldado raso que sempre julguei inconciliável com a inteligência. Mas há uma atenuante. O comunista, hoje em dia, venera quase exclusivamente múmias, e tem conseguido, fora os paroxismos da Coreia do Norte e o mais compreensível de Cuba, abjurar a ideia de homens infalíveis e providenciais, que, aliás, sempre lhe devia ter sido ideologicamente repugnante.
A quem tiver achado estranha a raiva do Ralo à Drª Dulce Rocha, quero assegurar que ela não se deve a nenhum temor inconfessável da senhora, que tem sido uma das almas da cruzada anti-pedófilos em Portugal. Ou seja, o Ralo não é um pedófilo com medo. Pelo contrário. Nós, no T-Zero, somos, mais do que ninguém, os anti-Bibis deste país: nunca tocaríamos numa criança, nem com um dedo. O nojo, simplesmente, não nos deixaria. Detestamos violentamente crianças e chegámos a pensar chamar a este blog Herodes. Não somos pedófilos, somos pedófobos.
Os Estados Unidos vetaram uma proposta de resolução do Conselho de Segurança que visava proteger a integridade de Arafat, presidente eleito legitimamente da Autoridade Palestiniana, a instituição que o mundo reconhece com única representante do povo palestiniano. Hoje, Bush declarou que essa liderança, a de Arafat, falhou. Agora será previsivelmente papagueado, sem ponta de crítica ou reserva, pelos mesmos que usam como argumento essencial para defender a política de Israel o facto de ser a única democracia da região. O T-Zero oferece um post laudatório ao primeiro que perceber a ironia.
Tudo bem, proiba-se que a mão lhes chegue ao pêlo. Eu também não encontro, no meu cadastro infantil, qualquer conduta que tenha merecido o respectivo tabefe. Pelo contrário, os que sofri amiúde ainda me revoltam e hão-de me ajudar a justificar em tribunal um qualquer homicídio desvairado. Por exemplo de um fedelho que desata aos berros num restaurante, ou de outro com tendência precoce para agredir o próximo, ou de outro ainda que gosta de seviciar animais. Ou então, em qualquer dos casos, dos pais, que, perante todas estes abusos, continuam impávidos, no restaurante, na esplanada, no centro comercial, no cinema, no meio da rua, como se não fosse nada com eles.
Toda a gente com idade para isso se lembra de que nos anos 80 houve Herman José e Miguel Esteves Cardoso. Alguns recordarão também as páginas humorísticas do Independente e da sua menos bem sucedida irmã, a extinta revista K, onde avultava Rui Zink. Nos anos 90, apareceram as Produções Fictícias, uma das melhores invenções portuguesas da década. Tudo o que se fez de bom desde então no campo do humor nacional teve a sua marca, com a importante excepção de Pedro Santana Lopes. Ou porque foi obra da casa (a Contra-Informação; a ressurreição temporária de Herman; Maria Ruef), ou porque veio de gente que passou por lá (Nuno Markl; o prometedor gang do Gato Fedorento). Isso é um motivo extra de curiosidade quanto à identidade do Pipi, o único génio autêntico da blogosfera, de quem alguns rumores já disseram que também vinha de lá. Se for verdade, confirmar-se-ão as tendências monopolizantes dos últimos anos e teremos razão para dizer, preocupados, que as Produções Fictícias são a Microsoft do humor português.
Só para preservar a fidelidade dos nossos leitores. Faça sempre as suas compras no T-Zero, onde encontrará sempre insultos ao governo ao melhor preço.
Quase toda a gente já terá visto, mas há que dar o link e repisá-lo, porque noutros tempos ou noutros lugares seria, cotejado com recentes declarações ministeriais, motivo de demissões. Pode ser que ao menos empreste algum pudor a esses ministros para não virem dizer que a gasolina que falta em algumas corporações de bombeiros foi roubada.
Lanterna vermelha? Portugal também consegue ser dos primeiros nessa actividade progressista de quebrar barreiras. Talvez seja a nossa peculiar maneira de aderir ao programa espacial, talvez seja a nossa vontade católica de estar mais perto de Deus. Certo é que o céu já não é o limite.
A vitória do Não no referendo sueco sobre o euro veio confirmar o eurocepticismo escandinavo. Não sei o suficiente da Suécia para saber como votaria se fosse sueco. Mas, ao contrário de muitos europeístas, acho o eurocepticismo dos escandinavos, como o dos ingleses, um sentimento totalmente respeitável. Há muitas coisas na UE que me inspiram reservas: o voluntarismo das ideias europeístas, que produz nos seus adeptos um desejo muito perigoso de forçar a realidade; o pouco escrutínio a que estão sujeitos o Conselho e a Comissão Europeia, que gera um “défice democrático” preocupante, etc. Por isso, compreendo a relutância de cidadãos de países como a Grã-Bretanha e os estados nórdicos em embarcarem em projectos mais "federalistas". Eles pertencem a países que são das democracias mais avançadas do mundo. A perda de poder dos seus governos para Bruxelas significa a perda do controlo que eles têm sobre quem os governa, o que é uma coisa que eu próprio, se a tivesse, não gostaria de perder. Ainda mais importante, a independência dos seus países é algo que eles têm, historicamente, toda a razão para estimar e querer conservar. São todos estados independentes antigos dos quais se pode dizer que a história lhes correu bem. E se a independência os serviu bem, é natural que não queiram abdicar dela metendo-se em aventuras "federalistas" de futuro incerto.
Sobre o Marcelo, quero dizer que não o quis criticar tanto a ele, como à vacuidade evidente da sua “cultura” (uma vacuidade infelizmente muito vulgar nos académicos portugueses). Até acho que, reduzido à sua verdadeira dimensão, a de comentarista da pequena política, é competente no que faz. E de momento desempenha uma função importantíssima: é, por estranho que pareça, a única oposição viva ao governo (pelo menos, a parte do governo), a única pessoa no país de quem os ministros têm medo. Quanto ao Pacheco, concordo contigo (mas cuidado com o complexo de superioridade intelectual da esquerda): o homem tem defeitos; é demasiado truculento, às vezes é sectário e está muito à nossa direita. Mas também é culto, brilhante e frontal, tudo coisas raras em Portugal. E eu, pelo menos, suspiro por alguém com a qualidade dele no centro-esquerda.
O Pacheco Pereira discordou de uma ideia do Paulo Portas e conseguiu compará-lo a Le Pen sem resmungar por a alternativa lá ser o Chirac anti-americano e cá o Ferro Rodrigues amigo dos neo-nazis. Mais. Garantiu que diria sim ao € se fosse sueco. De repente tornou-se mais europeísta que eu. É que quando nós formos realmente europeus e se tal chegar a ser proposto, eu votarei para aderir à Escandinávia.
Sobre o Marcelo Rebelo de Sousa, concordo, e por isso já não nem lhe anteponho o prof. Não é qualquer qualidade intrínseca, nem sequer a ligeira piada que me atraem aos seus comentários. É simplesmente a possibilidade permanente de ouvir dizer mal do Paulo Portas e do Santana Lopes, que neste blogue gozam de um desprezo unânime. Ora, o Pacheco Pereira podia beneficiar do mesmo, acrescendo à sua rara formação intelectual/cultural, sobretudo (cof, cof) para alguém de direita. Mas uma tendência relativamente recente para aderir acriticamente a todas as ideias que suscitem a oposição da esquerda (e não só da "esquerda neo-nazi") sufoca esse seu ódio menor à direita pirosa e à extrema direita "portiana". Até porque começa a ser um ódio insustentável, abandonado a uma dieta de razões pessoais (ainda que correctíssimas) pela cada vez maior coincidência de opiniões e ideais entre o Pacheco Pereira e essa direita. A sua posição sobre o Iraque não é mais do que um resumo elegante das ideias dos intelectuais neo-conservadores; o seu anti-europeísmo está a tornar-se emotivo, como demonstra um dos últimos posts no Abrupto; e o seu apoio ao governo parece apenas um reflexo do despeito raivoso pela oposição. O Pacheco Pereira não tem futuro político (o presente acaba nas eleições europeias), menos por ser um irritante para o próprio PSD, para mais agora que depende do Paulo Portas, do que por estar a cair num radicalismo que não tem claramente lugar na Europa de hoje e até - rezemos - nos Estados Unidos de amanhã. O Pacheco Pereira falha, porque deixa que a sua bagagem cultural e a sua estaleca intelectual sejam contaminadas pelas suas embirrações domésticas, tornando-se ridiculamente susceptível a qualquer acinte. E é pena. Porque em probidade, sinceridade e inteligência bruta, o Pacheco Pereira ainda é uma pérola atirada à porcaria da política.
Escrevo o post que se segue para inverter duas tendências recentes deste blog: a de dizer mal de Pacheco Pereira e a de dizer bem de Marcelo Rebelo de Sousa (Ralo, Ralo, Ralo...). O assunto são as famosas longas listas de livros que o Professor jura ser capaz de ler porque, ao que parece, o seu organismo não gosta de dormir. Eu acho que a melhor maneira de saber se ele diz a verdade é ouvir com atenção as suas palestras dominicais. Que impressão dão os comentários de Marcelo na TVI da pessoa que os emite? Que é um homem excepcionalmente inteligente e fluente, sem dúvida, com um conhecimento e uma compreensão ímpares da vida política nacional. Que é um jurista brilhante que sabe tudo o que há a saber sobre leis. E que é alguém que sabe pouco de outras coisas. O contraste com Pacheco Pereira – a quem as listas do Professor tanto irritam – é, neste aspecto, elucidativo. Pacheco tem uma cultura histórica, filosófica e literária que é patente e que, o que é mais importante, determina claramente a sua visão das coisas. As suas análises políticas não seriam o que são sem toda essa bagagem intelectual. Por outras palavras, sem ler os livros que leu, não diria as coisas que diz. Marcelo não. Para dizer o essencial do que diz não precisa de ler livros (a não ser quando fala de Direito). Precisa apenas de conhecer a fundo a política nacional, como conhece, e de estar bem informado sobre tudo o que se passa nela, o que está sempre. A sua visão não é a do intelectual, mas a do político profissional e do jurista. É por isso que, sempre que sai do campo da política imediata e se aventura por campos mais “reflexivos”, se transforma com tanta facilidade numa fábrica de banalidades. E o facto é que nunca é mais banal do que quando fala de livros. Leia-os ou não.
Vítor Damas morreu, com 55 anos e o inevitável cancro. Lembro-me de vê-lo jogar nos anos 80. Era um veterano competente, mas já não tinha idade para maravilhar ninguém. Pessoas mais velhas cuja opinião respeito asseguram-me que quando novo, no Sporting, era um fenómeno: um caso de talento puro, comparável, na posição contrária, a Eusébio, com quem teve grandes duelos. Acredito e lamento não ter nascido a tempo de o ver então. Até porque vi os seus sucessores, de Bento para a frente, e sei que nenhum deles foi, de facto, um grande guarda-redes. Havia mais uma coisa que me fazia simpatizar com ele: o facto de ter conseguido ter uma carreira bem sucedida lá fora (seis anos em Espanha, onde ganhou um ano o prémio de melhor jogador estrangeiro; ouvi-o uma vez dizer em entrevista que tinham sido esses os anos em que fora melhor e não o tempo no Sporting, pelo qual toda a gente o lembrava cá). Isto faz dele uma excepção para a sua época. As pessoas esquecem-se, mas, antes de Futre e dos seus sucessores nos anos 90, os jogadores portugueses que tentavam a sorte no estrangeiro costumavam sair-se mal, mesmo os melhores. Nos anos 70 e 80, Humberto Coelho, Jordão, Oliveira, Gomes e Chalana tiveram todos passagens curtas e discretas por clubes espanhóis e franceses, apesar de serem do melhor que cá havia. Damas vingou onde eles falharam. Só por essa capacidade precoce de internacionalização merece ser lembrado.
Eu jurei que não subscreveria algo que o prof. Marcelo Rebelo de Sousa dissesse, nem que Cristo descesse à terra. Mas não resisti. Por isso, sobre o regreso dos incêndios, a descarada falta de meios e a palhaçada da mão criminosa, veja-se o seu comentário de há pouco.
Sonhei que o governo israelita estava a pensar assassinar o líder legitimamente eleito e internacionalmente reconhecido da Autoridade Palestiniana.
Estimulado pela repreensão do A, que assim demonstra que é um dos incendiários fugidios que andam por aí (como a verdade, já dizia o teu querido Fox Mulder), já que ateou o fogo de hoje em Loures para cobrir Lisboa e o Parque Eduardo VII com uma cortina de fumo. Estimulado pelo seu insulto elogioso, dizia eu, decidi alinhavar à pressa uns pensamentos que medravam desde ontem, que constituiriam a segunda parte da agora chamada teoria da conspiração e que se resumem a duas penitências:
Estas coisas acontecem. Partilho com o Ralo o espaço confinado deste T-zero, mas nunca me tinha apercebido de que ele era o Homem da Conspiração, que tanto gosto de ver na Sic Radical. Nuno Markl, é uma honra coabitar consigo, sempre fui um grande fã.
O Expresso de hoje cita um estudo da ONU que afirma que em 2015 a Grande Lisboa terá cerca de quatro milhões e meio de habitantes e será a terceira maior área metropolitana da Europa, a seguir a Londres e a Paris. Esses quatro milhões e meio equivalerão a 45% da população nacional, uma proporção inigualada por qualquer outra cidade europeia (no Grande Porto, por sua vez, ficarão 24%, o que também não é pouco). A notícia confirma uma tendência já verificável há algum tempo: as duas grandes cidades portuguesas estão a crescer demais, sobretudo a capital. E se uma grande cidade gera sempre muitos problemas, uma grande cidade portuguesa é uma receita certa para a degradação e para o caos urbanos. Londres e Paris já têm os problemas que se conhece, mesmo sendo as capitais de dois dos países mais ricos e eficientes da Europa. No sempre pobre e incompetente Portugal, uma Lisboa de dimensões aproximáveis será de certeza uma coisa medonha, a fazer lembrar a América Latina. Tal como está hoje, já assusta. A desordem urbanística vigente fez com que quase todas as zonas novas da cidade e dos seus subúrbios sejam sítios sufocantes onde a “qualidade de vida” das pessoas é nula. Note-se que não são só os pobres que vivem em bairros feios e deprimentes. A classe média lisboeta e dos arredores aceita habitar zonas onde muitos pobres de outros países europeus recusariam pôr os pés (quando se vê isso percebe-se como as diferenças sociais em Portugal são relativas; para europeus, nós somos todos pobres, embora, dentro da pobreza, haja uns de nós menos pobres que outros). O crescimento continuado da urbe até aos níveis previstos para 2015 vai de certeza piorar ainda mais a situação. Arrisco dizer que nessa altura teremos os tais 45% da população a viver numa cidade muito parecida com Istambul.
Consegui negociar uma trégua com esta sensação de que é tudo a mesma merda, que está à beira de me devolver ao abstencionismo, para agradecer ao JPH do Glória Fácil o elogio e a subsequente enxurrada de visitas e page views que inflacionaram este blogue muito para lá do seu valor real. Até porque a ideia de invocar Antero de Quental não foi minha.
O pedófilo de escol pode encomendar a criancinha, molestá-la num recôndito chique e devolvê-la ao fornecedor, que a matará ou recauchetará se tiver sido raptada à família, ou a deixará aos portões do orfanato. O pedófilo comum tem de se contentar com a enteada, a sobrinha ou a filha, ou então dedicar-se a caçar nos percursos escolares até ser preso, numa notícia evanescente de um jornal regional. Mais abundantes, porém, são os outros, aqueles que estão entre a pedofilia light e uma homossexualidade requintada. Estes recorrem, aparentemente sem distinção, a serviços como o do Parque Eduardo VII. Aqui já não há vítimas, a não ser sociológicas, e a ilegalidade é menor, desde que os miúdos sejam maiores de 18. A diferença agora é a dimensão do que tem a perder o "poderoso" e o homem comum. Este arrisca a família e uma reputação banal, mas arrisca pouco, já que é - perdoem-me - um paneleiro anónimo que facilmente dissimula uma noite na prisão. Ao "poderoso" exige-se outra circunspecção: o risco é enorme, qualquer erro degenera em escândalo, a reputação é tudo e nunca lhe faltam inimigos. Por isso o "poderoso" protege-se em conformidade, transversalmente. Forma uma espécie de sindicato secreto dos dissolutos famosos aberto a todas as origens ideológicas que tem como função garantir que as flutuações políticas não os desguarnecem, fazendo com que nenhum governo, nenhuma judiciária, nenhum ministério público ousem mexer na matéria a não ser para a ocultar.
Foi Eça de Queiroz quem se lembrou de chamar a Antero de Quental "o génio que era um santo". Sabe-se que não era santo nenhum, pelo menos nos seus tempos de Coimbra, quando foi preso por excessos cometidos enquanto praxista de caloiros (em Portugal, até os intelectuais progressistas têm um fundo marialva). Também não era génio, claro, apesar de ter sido uma personagem interessante. Aqueles portugueses que os outros portugueses acham génios raramente são mais do que gente apenas interessante (às vezes nem isso). Reconheço, porém, que quem nos vendeu a patranha do génio e do santo era o produto genuíno. Um génio à séria, como diria este outro, até à data o único génio português verdadeiro do século XXI.
Fui, num ataque de pânico e revisionismo, reler qualquer coisa de Antero de Quental. Receei que fosse o meu preconceito prosaico a sustentar, sem outro fundamento, a diatribe. Mas encontrei alívio no Hino da Manhã. A melancolia piegas, as hipérboles, a arritmia, aqueles estranhíssimos assomos de beatice. Sinceramente, Antero de Quental está mais perto de um James Hetfield que de um Hamlet.
Matava-se Antero de Quental, num banco em S. Miguel, com dois tiros na cabeça. Um para a mania, outro para a depressão. Chegou finalmente a altura, agora que nada mais há no esquife que possa dar voltas, de insultar este poeta demente e inarticulado, dono indigente de um ou dois rasgos, que correspondem a outras tantas alucinações felizes, e que tornam, em conluio com a preguiça literária de muitos, toda a obra fashionable. Não foi um visionário, mas um mero escrivão elegante do seu cérebro errático. O seu grande feito foi acaudelar a geração de 70 e encorajar o verdadeiro monstro cultural do seu tempo a exarar o seu talento. Desculpem lá, mas Antero de Quental é uma lista de compras entalada num romance de Eça de Queirós.
Precipitei-me e fiz publicidade a um recém-chegado antes de saber que era apaparicado blogue sim, blogue não, violando assim grosseiramente a promessa de não linkar os famigerados. Que o respectivo post fique nos arquivos para sempre como monumento à minha ingenuidade, ignorância e mesquinhez.
À condição, cá vai, num golpe de corporativismo, o link de um propalado antro de historiadores. Ignotos, receio, enquanto o A não me responder, depois de ter apelado à sua memória onomástica, mas cá dos nossos (outro facto seriamente à condição) e por isso credores de alguma promoção.
Nem uma palavra, nem uma graçola, nem uma apara de talento para o blogue agora que só me falta rever a tese, dar-lhe uma escovadela, compor-lhe a figura, corrigir-lhe a franja e mandá-la, com um beijinho na testa, à vida. É como gastar dinheiro num Armani para vestir o homem elefante, mas os pais são todos assim, uns parolos.
Este senhor, que ameaçou parar, mas ainda mexe, elogiou ou reabilitou este outro, depois de descobrir que afinal não era marxista e que tinha votado contra a constituição do Bloco de Esquerda. O funeral, com honras de Estado e o ministro da defesa em ascese sobre o caixão, realiza-se amanhã.
Vamos lá esclarecer uma coisa:
O truque deste nosso representante de qualificar um partido por aquilo que uma facção foi há anos atrás choca de frente com a sua própria mutação ideológica como os camiões chocam com carros de emigrantes no IP5. Ao menos o BE evoluíu de uns grupelhos de jovens de barba rala e okupas para um partido de identidade transparente, que não dissimula os excessos de esquerdismo nem finge os sinais de maturidade. Já o senhor passou do maoísmo à direita laica e moderada, onde ainda pensa ou quer fazer pensar que se encontra, quando na verdade o anti-europeísmo e o pró-americanismo encarniçado, enfim, o despeito feroz por tudo o que cheira a esquerda, o colocam implacavelmente e cada vez mais na direita profunda, muito perto do PP que, apenas por razões morais, como declarou, tem a coragem de repudiar.
Tinha por ela um amor gutural, infectado de ciúmes. Quando achava que ela chegava tarde do trabalho, desabava-lhe uma bofetada na fonte, como se fosse o acento tónico de puta a seguir a por onde andaste, sua.... O mesmo acontecia quando o Porto perdia, mas aí até podia chegar a horas. Um dia disseram-lhe que o presidente os tinha mandado a Guimarães, assobiar a selecção. Chegada a hora, pegou no cachecol dos Super Dragões, montou o boné azul na cabeça oleosa e disse-lhe que ia ao jogo, que se portasse. Três horas depois regressou a casa, onde ela o esperava, aterrorizada.
Com todas as letras, género read my lips, o governo tinha prometido acabar com as listas de espera do Serviço Nacional de Saúde. Está previsto que a última cópia seja destruída no fim deste ano.
Depois de um pequeno desvio ideológico a que o guterrismo compeliu muitos de nós, cá está ele, farto da Manuela Moura Guedes e mais eficaz que nunca.
Ó, Afonso Costa! Fosses tu um vampiro e bastava resgatar-te da cripta; derrotar os fuzileiros persignantes que o ministro da defesa te pusesse à porta; arrear os crucifixos e os cachos de alho das paredes; derreter o chumbo do caixão; ressuscitar-te com uma gota do meu sangue, pedir-te para não beberes o resto, que sou de esquerda; certificar-me de que não te acusavam de pedofilia; e finalmente reconduzir-te no poder! Em troca e como eu não gosto de ter trabalho, nomear-me-ias ministro de Estado e das Colónias e permitias-me assistir enquanto deixavas a direita católica exangue e rectificavas 50 anos de ditadura mais 30 de ditamole a golpes de Educação republicana. Depois, claro, antes que te passasse pela cabeça mandar um CEF para o Iraque, espetava-te uma estaca no coração e esperava, como há muito é devido, que uma sociedade com um nível de literacia europeu se desemerdasse sozinha.
Quem diria que Israel e a Palestina haviam de concitar mais comentários que o futebol. Ou a assistência deste blogue é de escol, ou o sitemeter padece da mesma inépcia matemática do instituto Ricardo Jorge.
Eu tinha o Aviz numa conta razoável - enfadonho, demasiado susceptível, mas extremamente cordato. Ensaiar, insónia após insónia, poesia sobre o aroma do café, do tabaco e da cerveja diga-se que é demais e que até eu, confesso imodestamente, tenho lucubrações bem mais interessantes. Seja como for, para isso há solução fácil. Não tanto para a susceptibilidade de quem se diz anti-sharonista e depois não resiste a considerar o povo palestiniano como o inimigo, com quem se recusa a dormir. Mas também aqui há redenção possível, nem que seja na fidelidade conjugal. Agora o resto, o que me levava a visitá-lo, para além do raro, mas inquinado, conhecimento da história do sionismo, foi-se. Evanesceu - quem diria - mais depressa que os aromas e deu lugar a um Aviz reduzido (com ajuda, é certo) à deficiência mais mesquinha do carácter humano - não saber ganhar. O seu post, por muito elaborado e criativo, não é mais que um "toma, toma!".
Três crimes agravados pelo resultado que foi o alarde em câmara lenta daquele insuportável peneirento. Há crianças que deviam ser casa-pianas, Deus (substituir por sucedâno ateu) me perdoe. O Custódio deixa o Derlei a dois metros na grande-área. O Miguel Garcia (mas só eu é que vejo que o Mário Sérgio é melhor?) oferece dois golos com embrulho e lacinho. Enfim, nem me consola a evidência de que o Porto está pior este ano e só vai ganhar o campeonato porque o Sporting não está muito melhor e o Luís Filipe Vieira continua no Benfica.
"Luís Duque foi vítima da admiração que tinha por mim" (José Mourinho, hoje no Público)
Não me venham com a inteligência emocional. Retirem o elemento colectivo do discurso do Mourinho e é isto que fica:
Por estes dias tenho sido como o Iraque na ilusão do fim da guerra, quando a imaginação dos falcões viu na meia-dúzia que ajudava a derrubar a estátua do Saddam uma praça cheia. Desde há uma semana que permito pacificamente que a tese me ocupe. E, como os americanos, só espero que o trabalho acabe depressa, antes da paciência.