T-Zero

Ressurreição

terça-feira, setembro 30, 2003

Breve VIII

Que dizia o Pacheco Pereira ao Mário Soares sobre o palão que levou à guerra, o inquérito Hutton e as diferenças entre os EU republicanos e o RU trabalhista? Veja agora se as encontra.
Ralo

Breve VII

Nunca pensei que fosse preciso um curso de História para perder a mania de imputar aos antigos qualidades morais que a posteridade, entretanto, desbaratou. O Renascimento teve o mérito de nos desenganar precocemente quanto ao cavalheirismo medieval, mas, ao mesmo tempo, plantou o devaneio de que as sociedades clássicas eram quase perfeitas. Esquecem-se aqueles por quem perpassa agora essa ideia que a liberalidade dos costumes e a fertilidade da cultura assentavam - sem querer soar marxista - no esclavagismo. Aliás, eu que sou mais anti-clerical que um cruzamento entre o Marquês de Pombal e o Afonso Costa, quanto a isso dou vigorosas palmadas nas costas da Igreja. Pode ter atolado boa parte da humanidade durante dezoito séculos, mas expurgou-a, por momentos, desse pecado fundamental.
Ralo

domingo, setembro 28, 2003

Breve VI

Marcelo Rebelo de Sousa acha que a coligação PSD/PP vai governar até 2010. Marcelo Rebelo de Sousa tinha a certeza absoluta que Schroeder não ganhava a Stoiber.
Ralo

Breve V

Enquanto se ameaça com o fim da União Europeia, para contentamento dos que passaram a euro-cépticos porque a Europa já não tem vergonha de ser anti-americana, é bom lavar a cara e esfregar os olhos com um pouco de realidade objectiva, lucidamente indicada pelo blogueiro de esquerda mais prolífico.
Ralo

sábado, setembro 27, 2003

Breve IV

Disse que não ia falar mais de futebol e mantenho. Assim como não falo de crime organizado, corrupção, tráfico de influências, extorsão, chantagem e outras matérias da competência exclusiva das autoridades judiciais.
Ralo

Breve III

Muito se fala da mais recente aquisição sentimental do Pinto da Costa. Porque é nova, bonita e loira, enquanto ele é velho, feio e careca. A insinuação é evidente, mas eu recuso subscrevê-la. Por uma questão de princípio - nunca comento as opções financeiras do ninguém.
Ralo

sexta-feira, setembro 26, 2003

Breve II

Paulo Portas, acabado de se inscrever na direita moderna e europeia, declarou ter respeito pelo que Portugal fez em África. Como não concebo que alguém possa orgulhar-se da escravatura, da exploração e da guerra, que soterram qualquer vestígio de filantropia, e como o 25 de Abril não revogou a nacionalidade, então só posso congratular o ministro da defesa por se ter reconciliado com a descolonização.
Ralo

quarta-feira, setembro 24, 2003

Breve

Uma vénia: é para isto que conta a democracia em Israel.

Dois desejos: que a atitude alastre e que os palestinianos a saibam reconhecer.
Ralo

Até já

Há quem tenha arrumado as botas, mas continue a escrever no blogue de pantufas. Ainda dá caneladas, mas já não doem. O T-Zero, ao contrário do Adelino Granja, não acabará tão cedo, mas vai sofrer meia suspensão. Em relação à tese, estou como o povo desiludido com a política - chega de promessas; enquanto não lhe outorgar o ponto final final (não é gralha), não me empenho muito nisto, o que, se pensarmos na mediocridade previsível do resultado, tem efeitos retroactivos até ao dia da inauguração. Entretanto, o A. contrai a obrigação de decuplicar as visitas e pageviews, comprometendo-se, porém, a jurar que o mérito será todo meu e das minhas brevíssimas contribuições. A todos os que têm comentado os meus posts, parabéns por não existirem, que a vida está difícil.
Ralo

Levanta-te e ri, meu filho

Será milagre que as visões alternativas da vida de Jesus produzam sempre boa comédia?
Ralo

segunda-feira, setembro 22, 2003

Dia europeu sem page views

Querem ver que a maioria dos leitores deste blogue era pais babados, militantes do PC, adpetos do FCP e fãs do Mattoso.
Ralo

domingo, setembro 21, 2003

Irresistível boçalidade

Este jogo do Benfica com o Porto, e todos os jogos do Benfica e do Sporting nas Antas nos últimos 10-15 anos lembram-me aquela história do condutor branco que atropelou dois pretos numa passadeira, na África do Sul do apartheid. O caso foi a julgamento e o juiz proferiu a seguinte sentença: Ao primeiro preto, que embateu no pára-brisas e ficou com meio corpo dentro do carro, cinco anos de prisão e mil contos de multa por invasão de propriedade alheia; ao segundo preto, que foi projectado a vinte metros, dez anos de prisão e dois mil contos de multa por fugir da cena do acidente; ao branco, dez contos de multa por ainda não ser época de caça.
Ralo

50 personalidades mais importantes da cultura portuguesa

(segundo a redacção do "Actual")

Não sabia que Vasco Graça Moura era nortenho e já ia jurar que não lhe faltava nenhum defeito (nortenho, bem entendido, é o Pinto da Costa, o Nuno Cardoso, o Filipe Meneses, o Narciso Miranda, o Valentim Loureiro, é a mania de declamar Eugénio de Andrade, é achar que uma cidade é tudo, é querer ver Lisboa a arder. É, resumindo, o pior do Porto. Não é o melhor nem o banal. Não é o Minho nem Trás-os-Montes).

Bem mais inquietante, porém, é a eleição de José Mattoso, sob a sugestão de ser o maior historiador português vivo. Trata-se de um grosseiro erro de casting e de uma injustiça visceral contra o seu Némesis, Oliveira Marques. O primeiro é muito competente, muito lúcido, mas tem apenas um mérito monográfico; nem sequer se pode dizer que domina a Idade Média, já que versa, quase exclusivamente, sobre a nobreza e as questões senhoriais, incorrendo em alguns equívocos embaraçosos quando daí diverge. Já o segundo é um génio eclético, dono de uma capacidade de síntese e de expressão únicas, e totalmente desassombrado na análise. É, de resto, o responsável pelo novo modelo bibliográfico de histórias de Portugal, a que o José Mattoso aderiu com um certo descaramento comercial. As duas grandes obras que ambos coordenaram são comparáveis por causa da disparidade de colaboradores, a produção e a qualidade de cada um vivem em universos diferentes. É preciso que se saiba.

Then again, o Saramago lá está na lista, a inquiná-la (o que não deve prejudicar o previsível pedido de audiência do Santana Lopes ao Presidente da República para protestar a sua omissão).
Ralo

sábado, setembro 20, 2003

112

De um ronda sumária por meia-dúzia de comentadores insuspeitos (porque são descaradamente do FCP) resumo, sem mais palavra -porque não quero cair na boçalidade de falar de futebol todos os fins-de-semana - a verdadinha sobre este jogo: foda-se, que roubalheira! Mais serenamente, os meus parabéns ao sr. Pinto de Costa e ao seu culto peculiar do futebol total - trabalha-se não só para ganhar os próprios jogos, mas também para perder os dos outros.
Ralo

Choque de civilizações

Aqui.

A alternativa antropofóbica é exprimida, com eloquência texana, por outro GI:

""They're throwing grenades into our vehicles and blowing our fucking limbs off and we're handing fucking footballs out," says another trooper. "We ought to be going house-to-house and killing a few of them."" (aqui).

Tigres, leões, comensais a celebrar casamentos, merceeiros que cometem o infortúnio de deixar cair uma caixa à passagem de um Humvee, repórteres com câmaras anti-tanque, crianças que chocam com balas, intérpretes de diplomatas estrangeiros, polícias iraquianos, etc, etc, etc. Eis a guerra de libertação. Mas bem que podiam ter avisado que era para libertá-los do fardo da vida.
Ralo

sexta-feira, setembro 19, 2003

Idolatria

Os comunistas, por quem adquiri uma desconfiança inabalável, trouxeram ao mundo contemporâneo, entre outras novidades estilísticas, o culto desavergonhado da personalidade (mais os estalinistas e os maoístas, que os trotsquistas são uma espécie de protestantes do marxismo). Das estátuas e murais ubíquos dos grandes líderes à t-shirt do Che, o comunista gosta de gabar a sabujice e tem aquele orgulho de soldado raso que sempre julguei inconciliável com a inteligência. Mas há uma atenuante. O comunista, hoje em dia, venera quase exclusivamente múmias, e tem conseguido, fora os paroxismos da Coreia do Norte e o mais compreensível de Cuba, abjurar a ideia de homens infalíveis e providenciais, que, aliás, sempre lhe devia ter sido ideologicamente repugnante.

O fenómeno equivalente à direita é diferente. Desde logo, como vantagem, circunscreve-se, originalmente, a meia-dúzia de genuínos saudosistas e a outros tantos imbecis oportunistas. Os primeiros não contam; estão, antes ainda que os comunistas, em processo de extinção em curso. Os segundos, neste momento, contam demasiado e ameaçam contar ainda mais. Não usam t-shirts e as festas são em Vilamoura, longe da Atalaia, mas não é difícil detectá-los. São aqueles que dizem: "PPD-PSD" ou "Eu sempre fui sá-carneirista"; são aqueles que têm uma fotografia ou, pior ainda, um retrato mórbido do Sá Carneiro na parede do gabinete; são aqueles que cometem a proeza de citar em discursos, compungidos, o intelectualmente sequíssimo Amaro da Costa. Mas sobretudo - e é aqui que reside a diferença - são eles próprios objectos de seguidismo e de pequenos cultos políticos. Sejam as miríades de secretárias, da Figueira da Foz a Lisboa, a inqualificável clique política que açambarca cargos municipais, ou, sobretudo, o adorável pelotão de acessores jovens e queques, com fatos, penteados e sorrisos iguais, esta espécie de idolatria é a mais perigosa, porque passa da admiração intelectual (ou nem isso) à devoção e daí à entrega total, para lá de qualquer escrúpulo. Mas é também a mais gordurosa. Senão digam-me qual é o militante do PCP que tem a cara do Carvalhas como wallpaper do seu computador (para esclarecimento da piada, consultar Visão desta semana).
Ralo

Ó que querido II

A quem tiver achado estranha a raiva do Ralo à Drª Dulce Rocha, quero assegurar que ela não se deve a nenhum temor inconfessável da senhora, que tem sido uma das almas da cruzada anti-pedófilos em Portugal. Ou seja, o Ralo não é um pedófilo com medo. Pelo contrário. Nós, no T-Zero, somos, mais do que ninguém, os anti-Bibis deste país: nunca tocaríamos numa criança, nem com um dedo. O nojo, simplesmente, não nos deixaria. Detestamos violentamente crianças e chegámos a pensar chamar a este blog Herodes. Não somos pedófilos, somos pedófobos.
A.

quinta-feira, setembro 18, 2003

Passatempo

Os Estados Unidos vetaram uma proposta de resolução do Conselho de Segurança que visava proteger a integridade de Arafat, presidente eleito legitimamente da Autoridade Palestiniana, a instituição que o mundo reconhece com única representante do povo palestiniano. Hoje, Bush declarou que essa liderança, a de Arafat, falhou. Agora será previsivelmente papagueado, sem ponta de crítica ou reserva, pelos mesmos que usam como argumento essencial para defender a política de Israel o facto de ser a única democracia da região. O T-Zero oferece um post laudatório ao primeiro que perceber a ironia.
Ralo

Fealdade











Eis aqui o cão de Ferro Rodrigues, cuja fuga e posterior regresso ao lar tanto deram que falar nos últimos dias. Como se vê, não é lá muito bonito. Mas temos de ser justos e reconher que podia ser pior. Afinal de contas, nem é sequer a criatura mais feia da casa.
A.

Ó que querido

Tudo bem, proiba-se que a mão lhes chegue ao pêlo. Eu também não encontro, no meu cadastro infantil, qualquer conduta que tenha merecido o respectivo tabefe. Pelo contrário, os que sofri amiúde ainda me revoltam e hão-de me ajudar a justificar em tribunal um qualquer homicídio desvairado. Por exemplo de um fedelho que desata aos berros num restaurante, ou de outro com tendência precoce para agredir o próximo, ou de outro ainda que gosta de seviciar animais. Ou então, em qualquer dos casos, dos pais, que, perante todas estes abusos, continuam impávidos, no restaurante, na esplanada, no centro comercial, no cinema, no meio da rua, como se não fosse nada com eles.

Tudo bem, acabe-se com qualquer expediente físico de disciplina, não se distinga entre a palmada pedagógica e os espancamentos à portuguesa, regados com vinho tinto. Insista-se na ideia de que as criancinhas não mentem, não incomodam e não fazem mal a ninguém, ignorem a origem etária da perversão. Mas, em troca, permitam a acção directa sobre os pais incompetentes e instituam a tortura mandatória para estas beatas progressistas (quando soube que era magistrada, depois de a ver num debate sobre o processo Casa Pia... Meu Deus).
Ralo

quarta-feira, setembro 17, 2003

Humor português

Toda a gente com idade para isso se lembra de que nos anos 80 houve Herman José e Miguel Esteves Cardoso. Alguns recordarão também as páginas humorísticas do Independente e da sua menos bem sucedida irmã, a extinta revista K, onde avultava Rui Zink. Nos anos 90, apareceram as Produções Fictícias, uma das melhores invenções portuguesas da década. Tudo o que se fez de bom desde então no campo do humor nacional teve a sua marca, com a importante excepção de Pedro Santana Lopes. Ou porque foi obra da casa (a Contra-Informação; a ressurreição temporária de Herman; Maria Ruef), ou porque veio de gente que passou por lá (Nuno Markl; o prometedor gang do Gato Fedorento). Isso é um motivo extra de curiosidade quanto à identidade do Pipi, o único génio autêntico da blogosfera, de quem alguns rumores já disseram que também vinha de lá. Se for verdade, confirmar-se-ão as tendências monopolizantes dos últimos anos e teremos razão para dizer, preocupados, que as Produções Fictícias são a Microsoft do humor português.
A.

Marketing

Só para preservar a fidelidade dos nossos leitores. Faça sempre as suas compras no T-Zero, onde encontrará sempre insultos ao governo ao melhor preço.
Ralo

terça-feira, setembro 16, 2003

Adenda à questão dos fogos

Quase toda a gente já terá visto, mas há que dar o link e repisá-lo, porque noutros tempos ou noutros lugares seria, cotejado com recentes declarações ministeriais, motivo de demissões. Pode ser que ao menos empreste algum pudor a esses ministros para não virem dizer que a gasolina que falta em algumas corporações de bombeiros foi roubada.
Ralo

Up, up and away

Lanterna vermelha? Portugal também consegue ser dos primeiros nessa actividade progressista de quebrar barreiras. Talvez seja a nossa peculiar maneira de aderir ao programa espacial, talvez seja a nossa vontade católica de estar mais perto de Deus. Certo é que o céu já não é o limite.
Ralo

Suécia

A vitória do Não no referendo sueco sobre o euro veio confirmar o eurocepticismo escandinavo. Não sei o suficiente da Suécia para saber como votaria se fosse sueco. Mas, ao contrário de muitos europeístas, acho o eurocepticismo dos escandinavos, como o dos ingleses, um sentimento totalmente respeitável. Há muitas coisas na UE que me inspiram reservas: o voluntarismo das ideias europeístas, que produz nos seus adeptos um desejo muito perigoso de forçar a realidade; o pouco escrutínio a que estão sujeitos o Conselho e a Comissão Europeia, que gera um “défice democrático” preocupante, etc. Por isso, compreendo a relutância de cidadãos de países como a Grã-Bretanha e os estados nórdicos em embarcarem em projectos mais "federalistas". Eles pertencem a países que são das democracias mais avançadas do mundo. A perda de poder dos seus governos para Bruxelas significa a perda do controlo que eles têm sobre quem os governa, o que é uma coisa que eu próprio, se a tivesse, não gostaria de perder. Ainda mais importante, a independência dos seus países é algo que eles têm, historicamente, toda a razão para estimar e querer conservar. São todos estados independentes antigos dos quais se pode dizer que a história lhes correu bem. E se a independência os serviu bem, é natural que não queiram abdicar dela metendo-se em aventuras "federalistas" de futuro incerto.

Nada poderia ser mais diferente do caso de Portugal, o eterno lanterna vermelha da Europa Ocidental. A miséria e o atraso em que viveu nos últimos séculos provam à saciedade que foi uma experiência histórica mal sucedida. Ou seja, a sua tão antiga independência política não produziu frutos que se vissem e não merece por isso a estima de ninguém. Sobre a qualidade da democracia portuguesa, por sua vez, não há muito a dizer. Nestas condições, o eurocepticismo parece muito mais difícil de sustentar do que no Reino Unido ou nos países escandinavos. Os defeitos da UE podem ser evidentes, assim como os riscos da sua cada vez maior "federalização”. Mas o facto é que a alternativa – a continuação do país tal como ele é – parece sempre muito pior. Vasco Pulido Valente conta que Sá Carneiro dizia que seria conservador se em Portugal houvesse alguma coisa para conservar, o que não era o caso. Acho impossível definir melhor o problema.
A.

Ralo:

Sobre o Marcelo, quero dizer que não o quis criticar tanto a ele, como à vacuidade evidente da sua “cultura” (uma vacuidade infelizmente muito vulgar nos académicos portugueses). Até acho que, reduzido à sua verdadeira dimensão, a de comentarista da pequena política, é competente no que faz. E de momento desempenha uma função importantíssima: é, por estranho que pareça, a única oposição viva ao governo (pelo menos, a parte do governo), a única pessoa no país de quem os ministros têm medo. Quanto ao Pacheco, concordo contigo (mas cuidado com o complexo de superioridade intelectual da esquerda): o homem tem defeitos; é demasiado truculento, às vezes é sectário e está muito à nossa direita. Mas também é culto, brilhante e frontal, tudo coisas raras em Portugal. E eu, pelo menos, suspiro por alguém com a qualidade dele no centro-esquerda.
A.

Correcção

O Pacheco Pereira discordou de uma ideia do Paulo Portas e conseguiu compará-lo a Le Pen sem resmungar por a alternativa lá ser o Chirac anti-americano e cá o Ferro Rodrigues amigo dos neo-nazis. Mais. Garantiu que diria sim ao € se fosse sueco. De repente tornou-se mais europeísta que eu. É que quando nós formos realmente europeus e se tal chegar a ser proposto, eu votarei para aderir à Escandinávia.
Ralo

segunda-feira, setembro 15, 2003

A:

Sobre o Marcelo Rebelo de Sousa, concordo, e por isso já não nem lhe anteponho o prof. Não é qualquer qualidade intrínseca, nem sequer a ligeira piada que me atraem aos seus comentários. É simplesmente a possibilidade permanente de ouvir dizer mal do Paulo Portas e do Santana Lopes, que neste blogue gozam de um desprezo unânime. Ora, o Pacheco Pereira podia beneficiar do mesmo, acrescendo à sua rara formação intelectual/cultural, sobretudo (cof, cof) para alguém de direita. Mas uma tendência relativamente recente para aderir acriticamente a todas as ideias que suscitem a oposição da esquerda (e não só da "esquerda neo-nazi") sufoca esse seu ódio menor à direita pirosa e à extrema direita "portiana". Até porque começa a ser um ódio insustentável, abandonado a uma dieta de razões pessoais (ainda que correctíssimas) pela cada vez maior coincidência de opiniões e ideais entre o Pacheco Pereira e essa direita. A sua posição sobre o Iraque não é mais do que um resumo elegante das ideias dos intelectuais neo-conservadores; o seu anti-europeísmo está a tornar-se emotivo, como demonstra um dos últimos posts no Abrupto; e o seu apoio ao governo parece apenas um reflexo do despeito raivoso pela oposição. O Pacheco Pereira não tem futuro político (o presente acaba nas eleições europeias), menos por ser um irritante para o próprio PSD, para mais agora que depende do Paulo Portas, do que por estar a cair num radicalismo que não tem claramente lugar na Europa de hoje e até - rezemos - nos Estados Unidos de amanhã. O Pacheco Pereira falha, porque deixa que a sua bagagem cultural e a sua estaleca intelectual sejam contaminadas pelas suas embirrações domésticas, tornando-se ridiculamente susceptível a qualquer acinte. E é pena. Porque em probidade, sinceridade e inteligência bruta, o Pacheco Pereira ainda é uma pérola atirada à porcaria da política.
Ralo

Marcelo-Pacheco

Escrevo o post que se segue para inverter duas tendências recentes deste blog: a de dizer mal de Pacheco Pereira e a de dizer bem de Marcelo Rebelo de Sousa (Ralo, Ralo, Ralo...). O assunto são as famosas longas listas de livros que o Professor jura ser capaz de ler porque, ao que parece, o seu organismo não gosta de dormir. Eu acho que a melhor maneira de saber se ele diz a verdade é ouvir com atenção as suas palestras dominicais. Que impressão dão os comentários de Marcelo na TVI da pessoa que os emite? Que é um homem excepcionalmente inteligente e fluente, sem dúvida, com um conhecimento e uma compreensão ímpares da vida política nacional. Que é um jurista brilhante que sabe tudo o que há a saber sobre leis. E que é alguém que sabe pouco de outras coisas. O contraste com Pacheco Pereira – a quem as listas do Professor tanto irritam – é, neste aspecto, elucidativo. Pacheco tem uma cultura histórica, filosófica e literária que é patente e que, o que é mais importante, determina claramente a sua visão das coisas. As suas análises políticas não seriam o que são sem toda essa bagagem intelectual. Por outras palavras, sem ler os livros que leu, não diria as coisas que diz. Marcelo não. Para dizer o essencial do que diz não precisa de ler livros (a não ser quando fala de Direito). Precisa apenas de conhecer a fundo a política nacional, como conhece, e de estar bem informado sobre tudo o que se passa nela, o que está sempre. A sua visão não é a do intelectual, mas a do político profissional e do jurista. É por isso que, sempre que sai do campo da política imediata e se aventura por campos mais “reflexivos”, se transforma com tanta facilidade numa fábrica de banalidades. E o facto é que nunca é mais banal do que quando fala de livros. Leia-os ou não.
A.

domingo, setembro 14, 2003

Damas

Vítor Damas morreu, com 55 anos e o inevitável cancro. Lembro-me de vê-lo jogar nos anos 80. Era um veterano competente, mas já não tinha idade para maravilhar ninguém. Pessoas mais velhas cuja opinião respeito asseguram-me que quando novo, no Sporting, era um fenómeno: um caso de talento puro, comparável, na posição contrária, a Eusébio, com quem teve grandes duelos. Acredito e lamento não ter nascido a tempo de o ver então. Até porque vi os seus sucessores, de Bento para a frente, e sei que nenhum deles foi, de facto, um grande guarda-redes. Havia mais uma coisa que me fazia simpatizar com ele: o facto de ter conseguido ter uma carreira bem sucedida lá fora (seis anos em Espanha, onde ganhou um ano o prémio de melhor jogador estrangeiro; ouvi-o uma vez dizer em entrevista que tinham sido esses os anos em que fora melhor e não o tempo no Sporting, pelo qual toda a gente o lembrava cá). Isto faz dele uma excepção para a sua época. As pessoas esquecem-se, mas, antes de Futre e dos seus sucessores nos anos 90, os jogadores portugueses que tentavam a sorte no estrangeiro costumavam sair-se mal, mesmo os melhores. Nos anos 70 e 80, Humberto Coelho, Jordão, Oliveira, Gomes e Chalana tiveram todos passagens curtas e discretas por clubes espanhóis e franceses, apesar de serem do melhor que cá havia. Damas vingou onde eles falharam. Só por essa capacidade precoce de internacionalização merece ser lembrado.
A.

Remissão

Eu jurei que não subscreveria algo que o prof. Marcelo Rebelo de Sousa dissesse, nem que Cristo descesse à terra. Mas não resisti. Por isso, sobre o regreso dos incêndios, a descarada falta de meios e a palhaçada da mão criminosa, veja-se o seu comentário de há pouco.

Só pode

Sonhei que o governo israelita estava a pensar assassinar o líder legitimamente eleito e internacionalmente reconhecido da Autoridade Palestiniana.

(Dis)continued

Estimulado pela repreensão do A, que assim demonstra que é um dos incendiários fugidios que andam por aí (como a verdade, já dizia o teu querido Fox Mulder), já que ateou o fogo de hoje em Loures para cobrir Lisboa e o Parque Eduardo VII com uma cortina de fumo. Estimulado pelo seu insulto elogioso, dizia eu, decidi alinhavar à pressa uns pensamentos que medravam desde ontem, que constituiriam a segunda parte da agora chamada teoria da conspiração e que se resumem a duas penitências:


1º - Foi uma angústia proporcionada por facciosismo que me levou a redigir a primeira parte. De repente - e não só com base a notícia do Expresso - percebi que o PS também participava à grande da marosca (não digo "a esquerda", porque o PC só não participa em marosca quando não pode). O desenvolvimento da notícia, para lá da parangona - cuja espécie já havia jurado ignorar -, atenuou a percepção, mas não a eliminou, até porque a outra fonte da teoria continua vivinha. No entanto, o que me fode hoje e aquilo em que o A tem razão (tem, aliás, sempre razão), é ter ficado consternado não porque criancinhas andavam a ser sodomizadas em série limitada, nem por tal andar a ser escamoteado organizadamente, mas porque afinal o PS, em cujos actuais dirigentes deposito a minha esperança política, tem muitas responsabilidades - responsabilidades por apurar no primeiro facto, quase confirmadas no segundo. Ora isto é imbecil, e seria o último passo para a abjecta militância (de qualquer partido), se o A não me tivesse vindo salvar.


2º - Pelos vistos os arrebentas começam mesmo cedo, aos 10 e 11 em média, a acreditar nas fichas que se salvaram do lixo da PJ. Ora nesta idade não há vontade, tendências, personalidades que valham - não há consentimento possível -, por isso quem recorrer aos seus serviços estará sempre a abusar, como a lei diz e muitíssimo bem. O problema é que esse valoramento da lei - o único que devia ser admissível, apesar de algumas falhas - é transcendido pela moral popular, que por sua vez impele tanto os clientes desses miúdos, como dos maiores de 18, assim como os homossexuais que se engatam graciosamente na Cidade Universitária, para a clandestinidade e, no caso dos "famosos" ou "poderosos", para esquemas de encobrimento (desta não me demoves, A). Ou seja, entre o pedófilo que viola uma menina ou menino de 5 anos e o tipo que aluga os miúdos do Parque há um abismo moral de diferença. Este até pode ter pensado, fantasiado com o que o primeiro fez, mas teve o escrúpulo, o medo ou que fosse para não passar disso. Ou até pode nem ser pedófilo, mas apenas um homossexual que recorreu à prostituição - porque os heterossexuais fazem o mesmo, precisando até menos - e tomou o gosto à juventude (quem, de entre nós viris lésbicos, nunca admirou a pele firme de uma pita? ).

Com a droga acontece o mesmo, mas aqui o mal está sobretudo na lei, que obedece cegamente aos preconceitos sociais. O álcool e o tabaco são legalíssimos, excepto, no caso do primero, em associação com a condução. Porque são hábitos vetustos, normalizados. Já a cannabis é uma droga e, pior, quem a fuma é drógádo. Ora são já milhares os estudos científicos que demonstram os menores malefícios fisiológicos, psicológicos e sociais desta substância em relação às outras duas. À erva até se reconhecem genuínas propriedades medicinais, ao contrário das apócrifas do tabaco, sendo de longe o analgésico mais eficaz em vários tipos de cancro e no síndroma de dor crónica, por exemplo, e um tratamento insubstituível para o glaucoma. Mas quem fumar um charro podia ser preso, até há pouco tempo, e hoje ainda se sujeita a uma multa e a umas sessões psiquiátricas. Mais. Em vez de concentrar os meios no desmantelamento de redes de tráfico de drogas duras, a polícia anda a ridicularizar-se exibindo carregamentos de haxixe interceptada. Ora, com a pedofilia e a homossexualidade a sociedade faz o mesmo: em vez de misturar tudo na mesma nebulosa de imoralidade e indecência e obrigá-los assim a coligarem-se para disfarçarem os desvios e as tendências, esta púdica gente devia imitar, com maior vigor, os passos de uma Holanda, por exemplo, meter - preparem-se - a homofobia no cu, ensinar, descaradamente, que a homossexualidade é um equivalente moral e sentimental absoluto da heterossexualidade, escancarar ela própria as portas de todos os armários e concentrar o escândalo e a indignação naquilo que realmente é condenável, com a devida proporção e por ordem crescente de repugnância: a prostituição juvenil, homo ou hetero; a prostituição infantil; os abusos de menores em condições vulneráveis, como os de instituições como a Casa Pia claramente são; a violação pura de crianças; o lenocíncio (este fica em último porque nem sequer beneficia da desculpa patológica (e eu defendo que um pedófilo precisa tanto de um médico como de um carrasco), é o equivalente do dealer).

Com sorte, isto resultaria no isolamento dos verdadeiros criminosos, na dissuasão ou controlo dos tarados, na profilaxia do pedofilia e no linchamento dos que lucram com tudo isto. Pelo menos um bocadinho.

E pronto, A. A isto não retiro uma vírgula, nem sequer esta,. Se estiver assim a persistir nalgum disparate, já não me volto a defender tão prolixamente. Alego apenas - e é verdade - que ando com um défice de sono maior que o das contas públicas. Depois de finalmente dormir o que me falta, abrirei de certeza os olhos, com renovada indignação, para os verdadeiros problemas estruturais, como esse da Lisboa gigante. Posso, porém, adiantar já que a culpa é obviamente do PSD.

O pacto II

Estas coisas acontecem. Partilho com o Ralo o espaço confinado deste T-zero, mas nunca me tinha apercebido de que ele era o Homem da Conspiração, que tanto gosto de ver na Sic Radical. Nuno Markl, é uma honra coabitar consigo, sempre fui um grande fã.
A.

Sete colinas

O Expresso de hoje cita um estudo da ONU que afirma que em 2015 a Grande Lisboa terá cerca de quatro milhões e meio de habitantes e será a terceira maior área metropolitana da Europa, a seguir a Londres e a Paris. Esses quatro milhões e meio equivalerão a 45% da população nacional, uma proporção inigualada por qualquer outra cidade europeia (no Grande Porto, por sua vez, ficarão 24%, o que também não é pouco). A notícia confirma uma tendência já verificável há algum tempo: as duas grandes cidades portuguesas estão a crescer demais, sobretudo a capital. E se uma grande cidade gera sempre muitos problemas, uma grande cidade portuguesa é uma receita certa para a degradação e para o caos urbanos. Londres e Paris já têm os problemas que se conhece, mesmo sendo as capitais de dois dos países mais ricos e eficientes da Europa. No sempre pobre e incompetente Portugal, uma Lisboa de dimensões aproximáveis será de certeza uma coisa medonha, a fazer lembrar a América Latina. Tal como está hoje, já assusta. A desordem urbanística vigente fez com que quase todas as zonas novas da cidade e dos seus subúrbios sejam sítios sufocantes onde a “qualidade de vida” das pessoas é nula. Note-se que não são só os pobres que vivem em bairros feios e deprimentes. A classe média lisboeta e dos arredores aceita habitar zonas onde muitos pobres de outros países europeus recusariam pôr os pés (quando se vê isso percebe-se como as diferenças sociais em Portugal são relativas; para europeus, nós somos todos pobres, embora, dentro da pobreza, haja uns de nós menos pobres que outros). O crescimento continuado da urbe até aos níveis previstos para 2015 vai de certeza piorar ainda mais a situação. Arrisco dizer que nessa altura teremos os tais 45% da população a viver numa cidade muito parecida com Istambul.
A.

sábado, setembro 13, 2003

Obrigado

Consegui negociar uma trégua com esta sensação de que é tudo a mesma merda, que está à beira de me devolver ao abstencionismo, para agradecer ao JPH do Glória Fácil o elogio e a subsequente enxurrada de visitas e page views que inflacionaram este blogue muito para lá do seu valor real. Até porque a ideia de invocar Antero de Quental não foi minha.

sexta-feira, setembro 12, 2003

O pacto

O pedófilo de escol pode encomendar a criancinha, molestá-la num recôndito chique e devolvê-la ao fornecedor, que a matará ou recauchetará se tiver sido raptada à família, ou a deixará aos portões do orfanato. O pedófilo comum tem de se contentar com a enteada, a sobrinha ou a filha, ou então dedicar-se a caçar nos percursos escolares até ser preso, numa notícia evanescente de um jornal regional. Mais abundantes, porém, são os outros, aqueles que estão entre a pedofilia light e uma homossexualidade requintada. Estes recorrem, aparentemente sem distinção, a serviços como o do Parque Eduardo VII. Aqui já não há vítimas, a não ser sociológicas, e a ilegalidade é menor, desde que os miúdos sejam maiores de 18. A diferença agora é a dimensão do que tem a perder o "poderoso" e o homem comum. Este arrisca a família e uma reputação banal, mas arrisca pouco, já que é - perdoem-me - um paneleiro anónimo que facilmente dissimula uma noite na prisão. Ao "poderoso" exige-se outra circunspecção: o risco é enorme, qualquer erro degenera em escândalo, a reputação é tudo e nunca lhe faltam inimigos. Por isso o "poderoso" protege-se em conformidade, transversalmente. Forma uma espécie de sindicato secreto dos dissolutos famosos aberto a todas as origens ideológicas que tem como função garantir que as flutuações políticas não os desguarnecem, fazendo com que nenhum governo, nenhuma judiciária, nenhum ministério público ousem mexer na matéria a não ser para a ocultar.

É este o pacto. Pacto que agora foi quebrado por alguém que, pertencendo ao sindicato, tendo beneficiado da sua protecção recentemente, não admitiu que, noutra matéria, ousassem confrontá-lo. Alguém que desafia a teoria da relatividade moral ao demonstrar uma omissão absoluta de escrúpulos. Alguém que possui uma ambição desmesurada pelo poder e uma disponibilidade total para os meios que a possam servir. Alguém que escalou a encosta democrática - que afinal não é suficientemente íngreme - à força de traições pessoais e políticas e de um populismo escabroso. Daí que os outros, o partido dos "poderosos" ou "poderoso" que assim, inusitadamente, foram ou foi parar às mãos de uma justiça claramente impreparada para o(s) receber, daí que esses tenham ficado abespinhados, incrédulos - ele quebrou o pacto! E agora?

Para já, como se perceberá amanhã, seguem-se mais duas décadas de direita, em parte "bem feito", em geral trágico, como se vê pela amostra de ano e meio. Depois, como na Bélgica, em Espanha, na França, na Alemanha, etc, etc, etc, a montanha vai parir um rato pedófilo, cuja imolação, justa ou injusta, vai ter de chegar para aplacar a populaça homofóbica. Os outros vão tendo mais cuidado por estes dias; alguns, aqueles que chegaram perto demais da revelação e que já pouco interessam, afastam-se, como já outros se afastaram antes; mas novos chegarão, para continuar a tradição, aprender o esquema, reforçar, aqui e ali, a malha e, finalmente, restabelecer o pacto. A menos que...

To be continued

Querem rir?

Imaginem o debate de hoje entre o Pacheco Pereira e o Mário Soares em 1975.

quinta-feira, setembro 11, 2003

Génios

Foi Eça de Queiroz quem se lembrou de chamar a Antero de Quental "o génio que era um santo". Sabe-se que não era santo nenhum, pelo menos nos seus tempos de Coimbra, quando foi preso por excessos cometidos enquanto praxista de caloiros (em Portugal, até os intelectuais progressistas têm um fundo marialva). Também não era génio, claro, apesar de ter sido uma personagem interessante. Aqueles portugueses que os outros portugueses acham génios raramente são mais do que gente apenas interessante (às vezes nem isso). Reconheço, porém, que quem nos vendeu a patranha do génio e do santo era o produto genuíno. Um génio à séria, como diria este outro, até à data o único génio português verdadeiro do século XXI.
A.

Outra vez o poeta

Fui, num ataque de pânico e revisionismo, reler qualquer coisa de Antero de Quental. Receei que fosse o meu preconceito prosaico a sustentar, sem outro fundamento, a diatribe. Mas encontrei alívio no Hino da Manhã. A melancolia piegas, as hipérboles, a arritmia, aqueles estranhíssimos assomos de beatice. Sinceramente, Antero de Quental está mais perto de um James Hetfield que de um Hamlet.

11 de Setembro

Matava-se Antero de Quental, num banco em S. Miguel, com dois tiros na cabeça. Um para a mania, outro para a depressão. Chegou finalmente a altura, agora que nada mais há no esquife que possa dar voltas, de insultar este poeta demente e inarticulado, dono indigente de um ou dois rasgos, que correspondem a outras tantas alucinações felizes, e que tornam, em conluio com a preguiça literária de muitos, toda a obra fashionable. Não foi um visionário, mas um mero escrivão elegante do seu cérebro errático. O seu grande feito foi acaudelar a geração de 70 e encorajar o verdadeiro monstro cultural do seu tempo a exarar o seu talento. Desculpem lá, mas Antero de Quental é uma lista de compras entalada num romance de Eça de Queirós.

Ó merda!

Precipitei-me e fiz publicidade a um recém-chegado antes de saber que era apaparicado blogue sim, blogue não, violando assim grosseiramente a promessa de não linkar os famigerados. Que o respectivo post fique nos arquivos para sempre como monumento à minha ingenuidade, ignorância e mesquinhez.

Regresso ao passado

À condição, cá vai, num golpe de corporativismo, o link de um propalado antro de historiadores. Ignotos, receio, enquanto o A não me responder, depois de ter apelado à sua memória onomástica, mas cá dos nossos (outro facto seriamente à condição) e por isso credores de alguma promoção.

quarta-feira, setembro 10, 2003

Monotasking

Nem uma palavra, nem uma graçola, nem uma apara de talento para o blogue agora que só me falta rever a tese, dar-lhe uma escovadela, compor-lhe a figura, corrigir-lhe a franja e mandá-la, com um beijinho na testa, à vida. É como gastar dinheiro num Armani para vestir o homem elefante, mas os pais são todos assim, uns parolos.

segunda-feira, setembro 08, 2003

Requiem

Este senhor, que ameaçou parar, mas ainda mexe, elogiou ou reabilitou este outro, depois de descobrir que afinal não era marxista e que tinha votado contra a constituição do Bloco de Esquerda. O funeral, com honras de Estado e o ministro da defesa em ascese sobre o caixão, realiza-se amanhã.

domingo, setembro 07, 2003

O 4º desportivo

Vamos lá esclarecer uma coisa:

A Espanha tem, neste momento, uma profusão parva de talentos. Portugal tem um pecúlio ridículo. Entre a geração, terminal, do Figo, Rui Costa e Pauleta e as esperancinhas, que não podiam ter jogado hoje, há um hiato confrangedor disfarçado pelo Ricardo, ameaçado pelo lobby canalha do Baía, pelo Deco, que está sem forma ou sem motivação, e pelo Simão, que insiste em lesionar-se antes dos estágios da selecção. O resto é palha, são as posições plebeias - os trincos e os laterais - que em Portugal só encontram candidatos sofríveis ou horríveis. Perante isto, perante a indigência do banco, perante a dependência absoluta das ditas vedetas, que queriam? Que o Scolari inventasse suplentes? Quem podia substituir o Pauleta? Quem mais, para além do anafado e sempre bruto Sérgio Conceição e do mediano Boa-Morte, havia para as alas? Que fazer ao meio-campo depois de se perceber que nem o Deco atinava? Queriam mais centrais do Porto para substituir os ex-centrais do Porto? Ou queriam que D. Afonso Henriques brotasse do relvado, exortado pela claque infame do clube local, e desatasse a decepar castelhanos? Ó meus amigos, já levámos 3-1 de Marrocos num Mundial e nem aí.

Despudor

O truque deste nosso representante de qualificar um partido por aquilo que uma facção foi há anos atrás choca de frente com a sua própria mutação ideológica como os camiões chocam com carros de emigrantes no IP5. Ao menos o BE evoluíu de uns grupelhos de jovens de barba rala e okupas para um partido de identidade transparente, que não dissimula os excessos de esquerdismo nem finge os sinais de maturidade. Já o senhor passou do maoísmo à direita laica e moderada, onde ainda pensa ou quer fazer pensar que se encontra, quando na verdade o anti-europeísmo e o pró-americanismo encarniçado, enfim, o despeito feroz por tudo o que cheira a esquerda, o colocam implacavelmente e cada vez mais na direita profunda, muito perto do PP que, apenas por razões morais, como declarou, tem a coragem de repudiar.

A derrota

Tinha por ela um amor gutural, infectado de ciúmes. Quando achava que ela chegava tarde do trabalho, desabava-lhe uma bofetada na fonte, como se fosse o acento tónico de puta a seguir a por onde andaste, sua.... O mesmo acontecia quando o Porto perdia, mas aí até podia chegar a horas. Um dia disseram-lhe que o presidente os tinha mandado a Guimarães, assobiar a selecção. Chegada a hora, pegou no cachecol dos Super Dragões, montou o boné azul na cabeça oleosa e disse-lhe que ia ao jogo, que se portasse. Três horas depois regressou a casa, onde ela o esperava, aterrorizada.
"Descansa que perdemos".

sexta-feira, setembro 05, 2003

A promessa

Com todas as letras, género read my lips, o governo tinha prometido acabar com as listas de espera do Serviço Nacional de Saúde. Está previsto que a última cópia seja destruída no fim deste ano.

Welcome back

Depois de um pequeno desvio ideológico a que o guterrismo compeliu muitos de nós, cá está ele, farto da Manuela Moura Guedes e mais eficaz que nunca.

E caro Portugal dos Pequeninos, permita-me discordar. Não é 1-0, é uma abada das antigas de que nem é possível recorrer para erros do árbitro ou má sorte.

O regresso

Ó, Afonso Costa! Fosses tu um vampiro e bastava resgatar-te da cripta; derrotar os fuzileiros persignantes que o ministro da defesa te pusesse à porta; arrear os crucifixos e os cachos de alho das paredes; derreter o chumbo do caixão; ressuscitar-te com uma gota do meu sangue, pedir-te para não beberes o resto, que sou de esquerda; certificar-me de que não te acusavam de pedofilia; e finalmente reconduzir-te no poder! Em troca e como eu não gosto de ter trabalho, nomear-me-ias ministro de Estado e das Colónias e permitias-me assistir enquanto deixavas a direita católica exangue e rectificavas 50 anos de ditadura mais 30 de ditamole a golpes de Educação republicana. Depois, claro, antes que te passasse pela cabeça mandar um CEF para o Iraque, espetava-te uma estaca no coração e esperava, como há muito é devido, que uma sociedade com um nível de literacia europeu se desemerdasse sozinha.

quinta-feira, setembro 04, 2003

Vítimas da bola

Quem diria que Israel e a Palestina haviam de concitar mais comentários que o futebol. Ou a assistência deste blogue é de escol, ou o sitemeter padece da mesma inépcia matemática do instituto Ricardo Jorge.

quarta-feira, setembro 03, 2003

A queda

Eu tinha o Aviz numa conta razoável - enfadonho, demasiado susceptível, mas extremamente cordato. Ensaiar, insónia após insónia, poesia sobre o aroma do café, do tabaco e da cerveja diga-se que é demais e que até eu, confesso imodestamente, tenho lucubrações bem mais interessantes. Seja como for, para isso há solução fácil. Não tanto para a susceptibilidade de quem se diz anti-sharonista e depois não resiste a considerar o povo palestiniano como o inimigo, com quem se recusa a dormir. Mas também aqui há redenção possível, nem que seja na fidelidade conjugal. Agora o resto, o que me levava a visitá-lo, para além do raro, mas inquinado, conhecimento da história do sionismo, foi-se. Evanesceu - quem diria - mais depressa que os aromas e deu lugar a um Aviz reduzido (com ajuda, é certo) à deficiência mais mesquinha do carácter humano - não saber ganhar. O seu post, por muito elaborado e criativo, não é mais que um "toma, toma!".

Três tristes tiros no pé

Três crimes agravados pelo resultado que foi o alarde em câmara lenta daquele insuportável peneirento. Há crianças que deviam ser casa-pianas, Deus (substituir por sucedâno ateu) me perdoe. O Custódio deixa o Derlei a dois metros na grande-área. O Miguel Garcia (mas só eu é que vejo que o Mário Sérgio é melhor?) oferece dois golos com embrulho e lacinho. Enfim, nem me consola a evidência de que o Porto está pior este ano e só vai ganhar o campeonato porque o Sporting não está muito melhor e o Luís Filipe Vieira continua no Benfica.

terça-feira, setembro 02, 2003

Narciso

"Luís Duque foi vítima da admiração que tinha por mim" (José Mourinho, hoje no Público)

Esperemos que a tendência continue e que a admiração por esta modesta pessoa continue a fazer vítimas. A começar pelo seu admirador principal. Acho que todos sabemos quem é.

Isqueiro das vaidades

Não me venham com a inteligência emocional. Retirem o elemento colectivo do discurso do Mourinho e é isto que fica:

"A minha pila é a maior".

"Não digo que vou comer mais gajas que vocês todos este ano, mas penso".

Depois de uma ejaculação precoce: "Alguém vai ter que pagar. A próxima vai por trás".

Isto só lhe passa quando os jornalistas desportivos pararem de fingir orgasmos.




segunda-feira, setembro 01, 2003

A minha guerrilha

Por estes dias tenho sido como o Iraque na ilusão do fim da guerra, quando a imaginação dos falcões viu na meia-dúzia que ajudava a derrubar a estátua do Saddam uma praça cheia. Desde há uma semana que permito pacificamente que a tese me ocupe. E, como os americanos, só espero que o trabalho acabe depressa, antes da paciência.