St. Bush
Não é de agora, a História sempre foi uma prostituta, um manancial de sustentações distorcidas ou simplesmente apócrifas para as piores ideologias e os argumentos mais tresvariados. O último caso é o do apaziguamento, que algum Karl Rove ou Richard Perle receitou ao sr. Bush para polir a estratégia do medo e demonizar a França, Alemanha, Rússia, etc antes da guerra do Iraque. Seguiu-se o sr. Sharon e a sugestão pouco original de confundir nazismo com resistência árabe. Agora são os acólitos, uma massa falante, mas pouco pensante, sem censura, sem crítica, apenas com adesão, a quem se deve perguntar, a propósito, o que pensam então da atitude norte-americana face às bravatas nucleares da Coreia do Norte. Mas adiante. O trágico nem é a qualidade desse seguidismo é a quantidade, leia-se, a quase totalidade da direita portuguesa, com solenes excepções. Muitos, miseravelmente, por disciplina militante, mas outros tantos por estranha convicção, porque estão sempre na praça, entusiasticamente, a olhar para o palanque neo-conservador e a apontar o que de lá se ouve, para mais tarde repetirem como se fossem ideias próprias, nascidas do seu âmago analítico. E depois, claro, indignam-se e chocam-se quando alguém, razoavelmente, lhes diz o contrário.
Caro Jaquinzinhos (a quem devia cobrar renda por morar há tanto tempo nos meus favorites): eu não imputei a alegria pelas vítimas dos terroristas aos soldados americanos. Primeiro, porque os acho, como aos portugueses, aos franceses ou aos argentinos, incapazes, em regra, de estabelecer nexos de causalidade tão complexos; segundo, porque entre os soldados americanos há muitos relutantes, fartos, desanimados, confusos, enfim, em certa medida, também vítimas. A minha acusação recaíu exclusivamente sobre o sr. Bush, o qual, não tendo igualmente agilidade sináptica suficiente para associar A a B, tem o ouvido encostado aos sinistros conselheiros, aqueles que estão por detrás da parte sinistra do sorriso. Mas já agora que fala do sr. Sharon, aproveito para lhe estender a mesma acusação, a ele e - prepare-se - ao Hamas, à Jihad Islâmica, e até, embora sob reserva, à Fatah dos últimos tempos. Porque se há aliança mais perversa e - tenho cá uma esperança - mais duradoura que a de Israel e os Estados Unidos, é o acordo tácito, assinado com sangue, entre a direita israelita e os radicais palestinianos e islâmicos que interferem no conflito. Basta reparar no que sucede sempre que se está à beira da paz, como após a morte de Rabin, quando Shimon Peres apressou as concessões à Autoridade Palestiniana e foi arrasado politicamente por atentados do Hamas, ou no final do governo de Ehud Barak, quando Sharon decidiu visitar os seus amigos árabes no pátio das mesquitas. Hoje é o mesmo. Aceita-se, com toneladas de hesitações e reservas, aquela espécie de rascunho de um esboço de um ante-plano de um plano provisório de paz, vão-se adiando reuniões e promessas e depois, como quem não quer a coisa, assassina-se um líder deste ou daquele grupo, faz-se uma emboscada a uns colonos, responde-se rebentando com um autocarro, replica-se reocupando os territórios autónomos. E lá se vão matando alegremente, porque o conflito aberto é a condição essencial ou mesmo única para existência de uns e outros. Lembre-se que o Likud começou por ser uma força menor em Israel e continua a ser um partido assinalavelmente medíocre, com um programa de governo de ponto único: a segurança, que, frequentemente, é apenas um disfarce para ideais expansionistas. Por outro lado, os exércitos radicais palestinianos precisam de um objectivo inatingível, de uma utopia que lhes garanta a sobrevivência perpétua e de um factor de vitimização constante que lhes assegure a base de apoio, ou seja, o fim de Israel. Resumindo, sem os atentados suicidas, o Likud é dispensável; com a paz, o Hamas, a Jihad, etc, são dissolúveis. É por isso que estes preferem matar inocentes, para banir qualquer possibilidade de compreensão da população israelita; é por isso também que os governos de Sharon e Bibi preferem atacar a Autoridade Palestiniana, para garantir a preponderância dos radicais.

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