T-Zero

Ressurreição

quinta-feira, agosto 21, 2003

os fogos

A grande comoção nacional das últimas semanas passou-me em boa parte ao lado. Lamento, como é evidente, os dramas humanos, ou seja as perdas de vidas e de bens, mas a destruição do campo português em si não me comove. Acho que nas últimas décadas foi desfigurado sem remissão pelas casas grotescas que foram alastrando pela paisagem, sobretudo nas áreas mais povoadas (de certeza que o Minho é hoje a província mais feia da Península Ibérica). A abundância, a desordem e a fealdade da construção destruíram em quase todo o lado a hipótese de sobrevivências bucólicas. A própria “floresta” existente deixa, com os seus extensos eucaliptais, bastante a desejar. Em suma, o campo português não merece que vertam lágrimas por ele.
Quando afirmo isto, costumam desmentir-me com listas dos sítios lindíssimos que ainda há em Portugal. Eu também conheço alguns sítios desses, mas eles são apenas isso: sítios. O campo português tem alguns sítios bonitos, mas não é bonito. Com a importante excepção do Alentejo, não há em Portugal regiões por onde alguém possa vaguear confiante na beleza continuada da paisagem. Acresce que as razões da excepção alentejana são as piores, pois foram apenas a baixíssima densidade populacional e a pobreza quase geral que impediram que a construção recente atingisse lá os níveis de outros lugares. È triste, mas a preservação da beleza natural de Portugal afigura-se incompatível com a existência de números significativos de portugueses e com o desenvolvimento económico. Entre a desertificação e a suburbanização da paisagem, parece que não temos mais por onde escolher.
Por tudo isto, este verão, como todos os verões, os incêndios deixaram-me indiferente. Na sua grande parte, não ardeu nada que valesse a pena ter ficado. Na paisagem, como noutras coisas, é preciso ser muito selectivo para gostar de Portugal. O jardim à beira-mar plantado é uma ficção.