Odeiem-se por favor
A actuação do juiz Rui Teixeira no processo Casa Pia tem sido considerada polémica por dar a impressão de que decide em quase tudo a favor da acusação (quando lhe nega qualquer coisa é apenas para lha dar mais tarde, como agora na história das videoconferências). Bem ou mal, não parece suficientemente imparcial. Por isso, para quem está de fora, o processo faz lembrar algumas vezes uma luta de dois contra um, acusação e juiz contra defesa. Se tal for, de facto, verdade, fica a incógnita de saber se é normal esse tipo de parcialidade por parte dos juízes. Uma das muitas coisas instrutivas que aprendi com o debate público sobre o caso é que, em Portugal, os juízes e o Ministério Público odeiam os advogados com um ódio verdadeiramente selvagem; e que os advogados lhes retribuem o sentimento com igual intensidade. Aquela gente comia-se toda viva, se pudesse. Serão antagonismos profissionais inevitáveis, talvez. Mas eu ficaria mais descansado sabendo que o Ministério Público e os juízes se detestam com a mesma violência. Neste debate da Casa Pia, têm estado, previsivelmente, do mesmo lado, não sei se por aliança de conveniência, se por solidariedades mais profundas. Sei que, se os juízes têm apenas aversão por advogados e se entendem melhor com quem acusa, é mau sinal, pois tal dará de certeza vantagens ao Ministério Público nos processos em geral. Se tem de haver ódios profissionais, então só o ódio universal, de todos por todos, poderá garantir o equilíbrio do sistema. É exactamente equilíbrio que dá a impressão de faltar no processo concreto da Casa Pia, gerando a desconfiança das pessoas. Dois contra um não vale. Ou, pelo menos, não devia valer.

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