Esclarecimento
Quando o Aviz, com extrema elegância, publicou o meu mail, tive consciência, não só, que isso adiaria a necessidade de dar uma parte dolorosa do corpo por uma page view, mas também que atrairia a este blogue muitos críticos de direita, sôfregos por me pintar de vermelho vivo. Fiquem então já a saber que declarei-me, aqui, de esquerda menos por afinidade ideológica do que por comiseração pelo estado diminuido da esquerda na blogosfera portuguesa. Por militância, então, nem pensar. Não venham com "o Guterres fez isto" ou, pior ainda, "o Estaline esfolou aquilo", porque é inútil, o que se comprova, de resto, por posts anteriores. Sou, hoje, de esquerda, sobretudo porque a direita portuguesa inclinou-se ou foi empurrada tanto para a extrema-direita, que acabou por lá cair. Foi empurrada pelos resultados eleitorais, não o nego, assim como o guterrismo sofreu até ao fim a angústia e os custos de lhe faltar um deputado para a maioria absoluta. Inclinou-se, desnecessariamente, ao aderir ao chamado partido da guerra. E é aqui que se situa a presente polémica.
Antes de ser de esquerda ou de dispender sequer qualquer comentário sobre política nacional, para além do inevitável "a culpa é do Cavaco", já possuía um interesse assinalável pelas relações internacionais e razoáveis conhecimentos a acompanhar (afinal tive a melhor nota que um homem podia ter a História Institucional e Política Contemporânea). Daqui surgiram dois axiomas: as italianas são as mais giras e os americanos os maiores hipócritas. Os americanos, entenda-se, a sua relação institucional com o outro além-fronteiras. Não falo do culto da bandeira e do hino nem da tradição cultural ensimesmada. O primeiro é-nos sobretudo alíegena e pouco mais que pitoresco, a segunda é mais profunda, mas compreensível e não faz contas com uma elite que frequentemente envergonha a europeia nem com esses pais fundadores, cuja memória é hoje um indiscutível atavio de reaccionários, mas que eram, na altura, uns extravagantes progressistas, que descobriam a eletctricidade ao mesmo tempo que a democracia e debatiam se a língua da União devia ser o Alemão, o Francês ou até o Grego clássico. Falo da política externa, sobretudo a partir de 1945. Falo de um poder ingente que serviu e foi servido por establishments tétricos, onde avultaram Truman e as bombas atómicas, McArthy e as listas negras, Kissinger e a Operação Condor, Reagan e o Irangate. Períodos insuficientemente intercalados por presidências insuficientemente liberais, como a de Kennedy ou, melhor ainda, de Lyndon Johnson e o Vietname ou a de Jimmy Carter e a agitação do Afeganistão. Mas falo acima de tudo desse dia lúgubre em que o Supremo Tribunal investiu esta administração, falo do seu proselitismo armado e declarado, da ideologia que renasceu, como um vampiro rançoso, do imaginário de 1930 e dos pântanos do Mississipi, da ausência da mais ínfima circunspecção ecológica. E pergunto à direita portuguesa, na grande maioria social-democrata, se é neste partido que se revêem e se vale por isso a pena virem dar traulitada num relativo moderado para os defenderem.

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