Descolonização
Com o atraso que me é habitual, venho aqui falar da descolonização, muito discutida nos últimos tempos. Devo dizer que a acho o tema mais delicado e difícil da história do chamado PREC. Dentre os produtos consensualmente nefastos da revolução, ela constitui aquele que é de certeza o mais trágico. Mas também é verdade que parece o mais difícil de julgar. A direita ataca-a dizendo que foi uma debandada em que, por anti-colonialismo ou por simples desinteresse e cobardia, se abdicou de tentar garantir uma transmissão ordeira do poder, deixando as ex-colónias entregues ao caos. A esquerda defende-a afirmando que o 25 de Abril e a agitação subsequente quebraram de tal modo a disciplina militar que as tropas ficaram inoperacionais, tornando a debandada inevitável. Segundo ela, a responsabilidade do desastre caberia, sim, ao regime anterior, que não teria querido dar a independência às colónias quando era possível fazê-lo em muito melhores condições. Em que ficamos, afinal?
Ao contrário do que sucede em relação a muitas das desculpas tradicionais da esquerda sobre o PREC, a sua defesa da descolonização é, pelo menos em parte, convincente. Parece que, de facto, a disciplina militar em África se degradou bastante. E é evidente que a instabilidade do período revolucionário nunca seria propícia a uma condução eficiente de um processo tão difícil. É comum os descolonizadores invocarem em seu favor o exemplo de outras descolonizações, mais ou menos parecidas e mais ou menos mal sucedidas. A França e a Bélgica, por exemplo, não teriam feito muito melhor que nós na Argélia e no Congo, apesar de serem países muito mais capazes e de não terem tido de lidar com o problema enquanto tinham uma revolução em casa. Com precedentes assim, como poderia o sempre incompetente Portugal ter-se superado a si próprio, quando estava quase em guerra civil? É um argumento de monta, como o é a ideia, também defendida, de que as desgraças da África pós-colonial se deveriam mais aos descolonizados que aos descolonizadores. A prová-lo estaria, por exemplo, a péssima situação actual de ex-colónias britânicas como a Serra Leoa, apesar de ser relativamente consensual que as descolonizações britânicas até foram as melhores. O inferno vivido em Moçambique e Angola depois de 74 não teria sido um fenómeno isolado, mas parte de um colapso mais geral vivido em muitas partes de África depois da retirada dos europeus.
Tudo isto é verdade, tudo isto faz sentido, mas suspeito que todas estas desculpas, por coerentes que sejam, nem sempre serão sinceras. E uma das coisas que me faz duvidar é a ideia que tenho de que a esquerda em 74 respeitava os chamados “movimentos de libertação” africanos duma maneira que eles, pelo seu comportamento posterior, mostraram claramente não merecer. Mesmo a esquerda moderada de Soares e Melo Antunes, dois dos pais da descolonização. Isto aponta para que tivesse, toda ela, uma visão fortemente idealizada da situação das colónias. Julgo que as suas ideias sobre África seriam determinadas sobretudo pelo anti-colonialismo, que era, afinal de contas, o fundamento ético inevitável da oposição à guerra. Parece ter acreditado, em conformidade, que o problema essencial do “Ultramar” era a existência de um poder colonial indigno, com cuja remoção as coisas não poderiam deixar de melhorar. E tudo leva a crer que as possibilidades destrutivas abertas pelo fim desse poder colonial não a terão preocupado tanto como deviam. Em Portugal e lá fora, a esquerda dos anos 70, mesmo a mais moderada, estava muito radicalizada e não primava pela prudência e pelo realismo.
Não sei até que ponto este tipo de preconceitos ideológicos contribuiu para o desenrolar desastroso de um processo que, como já disse, teve desde o princípio muito de incontrolável. Acredito que o pouco ideológico cansaço das tropas e do país com a guerra tenha contribuído mais. Mas não acho absurdo pensar que as ilusões da esquerda da época sobre os “movimentos de libertação” e sobre a realidade colonial em geral possam ter piorado as coisas. Não sei se tenho razão, mas gostaria, pelo menos, de não ver a esquerda discutir sempre o problema tão defensivamente. Até porque sei que ele, pela sua complexidade, está muito para além do calibre intelectual de Paulo Portas, que nasceu apenas para ter certezas simples (não esqueço que na campanha para as últimas eleições europeias atacou Pacheco Pereira por escrever uma biografia de Cunhal, o que diz tudo sobre o que podemos esperar da qualidade das suas análises históricas). Mas isso não é consolação.

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