Ao Apolo
Que Deus exista só para te conceder a eternidade.
Ressurreição
Há tanto tempo que a televisão não passava um filme dessa época em que a cocaína tornava a decadência elitista, com as suas vítimas adolescentes filhas de yuppies, penteadas à rebelde-queque, que calcorreavam, em lamborghinis vermelhos, todas as discotecas com letreiros de néon rosa e azul. Que diferença para os filmes lúgubres da década seguinte, dos junkies de rua, das miúdas que se prostituem e dos traficantes que as chulam, dos narcs caídos em desgraça, da sida. E o que é mais fascinante é que a mudança foi real, sociológica e não artística.
Ainda há semanas se queixavam alguns que a TSF era incrivelmente esquerdista, e aqui está a excelente rádio a acudir aos pruridos dos seus ouvintes. Primeiro, despachando, de uma penada, um jornalista de barba insuspeita e dois programas irritantes - um deles porque cometia o escandaloso facciosismo de colocar frente a um moderado e solitário PP, um ex-comunista (oh, Magiollo Gouveia, não sobreviveste para os eliminar!) e um PSD heterodoxo! E agora, convidando para comentar o discurso do primeiro-ministro dois militantes do PSD de seguida: o inefável Guilherme Silva e o profissionalíssimo editor de política nacional do Expresso. Aliás, proponho à administração da TSF, para poupar na imaginação e no trabalho, que se deixem simplesmente infectar por esse jornal. E caso achem a fonte escassa, já que um semanário dificilmente poderá dar de beber a uma rádio de informação horária, então que acrescentem o Correio da Manhã às leituras, e, em caso de extrema necessidade, repitam discretamente os noticiáros da TVI.
A actuação do juiz Rui Teixeira no processo Casa Pia tem sido considerada polémica por dar a impressão de que decide em quase tudo a favor da acusação (quando lhe nega qualquer coisa é apenas para lha dar mais tarde, como agora na história das videoconferências). Bem ou mal, não parece suficientemente imparcial. Por isso, para quem está de fora, o processo faz lembrar algumas vezes uma luta de dois contra um, acusação e juiz contra defesa. Se tal for, de facto, verdade, fica a incógnita de saber se é normal esse tipo de parcialidade por parte dos juízes. Uma das muitas coisas instrutivas que aprendi com o debate público sobre o caso é que, em Portugal, os juízes e o Ministério Público odeiam os advogados com um ódio verdadeiramente selvagem; e que os advogados lhes retribuem o sentimento com igual intensidade. Aquela gente comia-se toda viva, se pudesse. Serão antagonismos profissionais inevitáveis, talvez. Mas eu ficaria mais descansado sabendo que o Ministério Público e os juízes se detestam com a mesma violência. Neste debate da Casa Pia, têm estado, previsivelmente, do mesmo lado, não sei se por aliança de conveniência, se por solidariedades mais profundas. Sei que, se os juízes têm apenas aversão por advogados e se entendem melhor com quem acusa, é mau sinal, pois tal dará de certeza vantagens ao Ministério Público nos processos em geral. Se tem de haver ódios profissionais, então só o ódio universal, de todos por todos, poderá garantir o equilíbrio do sistema. É exactamente equilíbrio que dá a impressão de faltar no processo concreto da Casa Pia, gerando a desconfiança das pessoas. Dois contra um não vale. Ou, pelo menos, não devia valer.
Em entrevista que se seguiu à da Sic Notícias, o Ministro de Estado e da Defesa falou amavelmente para este blogue. O que aqui se publica, porém, é o resultado de um profundo exercício de censura editorial depois de se verificar que a maioria das piadas não resistiam à tentação homofóbica e injuriosa. Se, por um lado, o corte me aflige, porque a minha criatividade é um bem escasso que dói desperdiçar, por outro não posso admitir, muito menos a mim próprio, a manipulação de verdades ou suposições íntimas para meros fins de gratificação própria e alheia e exibição de uma antipatia que nem sequer é original e assenta em razões totalmente distintas daquelas com que a parte da entrevista omitida brincaria. Fica assim justificada a grosseira falta de graça do pouquíssimo que restou, embora se salve o valor informativo, já que são questões que o jornalista da Sic se esqueceu escandalosamente de colocar ou em que devia ter insisto:
"BENFICA FORA DA 'CHAMPIONS'".
"A História não passa da história de uma espécie de seres vivos a procurar crescer e multiplicar-se. O único progresso genuíno que esta história registou desde sempre é o progresso das formas de adiar a morte, nada mais. As pessoas não são hoje mais felizes, mais cultas, mais interessantes do que eram há 10.000 anos. Vivem mais e têm menos doenças, é tudo". (Aqui).
Com o atraso que me é habitual, venho aqui falar da descolonização, muito discutida nos últimos tempos. Devo dizer que a acho o tema mais delicado e difícil da história do chamado PREC. Dentre os produtos consensualmente nefastos da revolução, ela constitui aquele que é de certeza o mais trágico. Mas também é verdade que parece o mais difícil de julgar. A direita ataca-a dizendo que foi uma debandada em que, por anti-colonialismo ou por simples desinteresse e cobardia, se abdicou de tentar garantir uma transmissão ordeira do poder, deixando as ex-colónias entregues ao caos. A esquerda defende-a afirmando que o 25 de Abril e a agitação subsequente quebraram de tal modo a disciplina militar que as tropas ficaram inoperacionais, tornando a debandada inevitável. Segundo ela, a responsabilidade do desastre caberia, sim, ao regime anterior, que não teria querido dar a independência às colónias quando era possível fazê-lo em muito melhores condições. Em que ficamos, afinal?
Fiquei, de olhos esgazeados na escuridão, à espera que isto me suscitasse um pesadelo. Mas foi bem pior. Sonhei que estava em cuecas na faculdade a perguntar a um colega porque é que tinha vindo toda a gente à aula. "Hoje há frequência, não me digas que não sabias".
Há minutos, caíu no endereço ofical deste blogue um mail da Assembleia da República com o subject "Parabéns". De repente pensei que tínhamos sido eleitos deputados. Estava já a preparar-me para pôr o sono em dia e reformar-me aos 36 anos, quando vejo, sem ponta de desilusão, que se tratava afinal de um elogio de quem anda a aterrorizar os consagrados da blogoesfera.
Boa noite, este é o Telejornal. O governo anunciou hoje um programa de apoio às vítimas dos fogos no valor de muitos euros, para além da prisão de mais vinte pastores surdo-mudos e dez septuagenárias com cataratas e osteoporose avançada responsáveis, juntamente com o clima, pelos mesmos. Na actualidade internacional há a confirmação de que o governo francês é pior, porque deixou morrer mais pessoas com o calor.
Intermitentemente, entre as 21 e as 23, andei a ver se desejava a derrota do Real Madrid. Não é pelo Queirós, por quem tenho a simpatia e a antipatia que um homossexual tem por uma mulher; é pela arrogância inerente a uma equipa que açambarca os jogadores com classe e ganha ligas dos campeões ao pé coxinho (o Figo, pelo menos), ao ponto de bocejar nos jogos da liga espanhola. E é sobretudo, a partir de agora, por causa do Beckham. O rapaz não tem culpa: desde a variedade dos penteados, que duram, cirurgicamente um trimestre, até à anorética esposa, passando pelo ar semi-marginal e a voz à Fernando Couto, é tudo merchandising. O que repugna é a opção comercial do clube, que lhe paga um escândalo e hostiliza o resto do plantel só para vender camisolas na Ásia. Ora isto mereceria, sem dúvida nenhuma, todo o ódio fanático que se possa espremer de todos os adeptos de futebol. Mas ainda assim só consigo convocar uma aversão superficial, racional - falta algo. Foi então, a seguir ao jogo, ao ouvir um treinador português a justificar um empate dizendo que os tratadores da relva tinham estado de férias na semana passada, "ou então foi de propóstio", que percebi o quê. Falta o Mourinho.
Estão a ouvir? Eu também não. Há anos que não se vê uma manifestação de estudantes de jeito, daquelas de encher avenidas e de rabos ao léu. Ainda me lembro da última, que foi desaguar à 5 de Outubro e aí se dissolveu, com a boçalidade com que se tinha formado, quando o ministro Marçal Grilo disse, magnificamente, qualquer coisa do género: "Só os recebo quando pararem de fazer barulho". Na altura e por muito tempo imputei a modorra da estudantina a essa táctica simples, cujo brilhantismo só é diminuido pelo baixo intelecto colectivo do adversário. Mas agora pressinto outra razão, algo sinistro, que cheira a infiltração e tresanda quando as associações de estudantes desse país fora se reunem para decidir a acção de luta e uma ou outra boicota sempre, estrategicamente. Deve ser indecoroso o dinheiro que escorre dos dois grandes partidos para certas listas nas eleições só para comprar o silêncio. E eu não sou capaz de dizer se isso é bom ou mau.
Ainda mais depressa do que esperava, lá regressámos à obscuridade e a uma média de visitas diárias que rivaliza com a dos americanos tombados no Iraque. Por alguns dias, este blogue parecia o aniversário da morte do Salazar, tanta foi a extrema-direita que se juntou. Agora é de novo mais um da gentalha, de quem não aparece na televisão ou assina reportagens num jornal e não é, por isso, anunciado com pompa na blogoesfera como se esta fosse uma festa da high society. Aqui não há porteiro a impedir a entrada, mas há a assoberbante discriminação da visibilidade. Tirando uns blogues realmente bons, que vamos agremiando avaramente nos nossos favorites, isto é puro voyeurismo.
Outro ávido sexual que o Google conduziu a este blogue. Este procurava "maminhas grande (sic)", e, como o outro, também foi enganado: nunca usei soutien acima do 32.
Devido a um arrufo entre o Blogger e o w.bloggar, é (n.e: era) possível ver dois estádios da fermentação de um post. Agora é um embaraço, depois de eu morrer será um leilão no Sotheby's.
Se bejo mais uma entrebista a um jobem frique do nuorte a gracejar com a tenda armada, com o salsichon ou com o berbo bombar, juro que telefono ao Pentágono a dizer que os festivais do verão são acampamentos da Al-Quaeda. Nem é preciso mandar napalm, basta um fósforo a arder para deflagrar a sagres morna, a seborreia e o metano das tendas. Com alguma sorte e muita erva, o people faz como as vacas e não se mexe, até perceber, tarde demais, que aquele som na cabeça não é a reminiscência do concerto da véspera, mas os próprios piolhos a crepitar.
Para não deixar o Ralo completamente sózinho em combate, vou dizer o que penso sobre as polémicas que têm agitado este blogue, normalmente tão pacato. Eu não conheço tão bem como ele o conflicto israelo-palestiniano e não tenho por isso opiniões tão formadas. Mas sei o suficiente para achar que, como problema histórico, não tem, infelizmente, nada de original. Não é novidade ver povos que o acaso da história colocou a viver lado a lado guerrearem-se pela terra que ambos querem. Como não é novidade ver depois a desconfiança e os ódios mútuos gerados pela guerra deitarem abaixo as tentativas de negociar a paz. Nada disto faz de nenhum dos povos em confronto vilões. Estão apenas a seguir um padrão velho como a própria história.
Em resposta ao último comentário ao último post sobre a questão israelo-palestiniano, aqui acaba a discussão da minha parte, o mais eloquentemente possível, transcrevendo o texto da resolução 242, de 1967, do Conselho de Segurança das Nações Unidas, reiterada pela 338, e indicando a lista de todas as resoluções aprovadas contra Israel de 1955 a 1992 e as que foram vetadas pelos Estados Unidos de 1972 a 1990.
Num post anterior a dizer mal da paisagem portuguesa, afirmei que era absurdo chamar ao país um jardim à beira-mar plantado. Mas, pensando bem, talvez a imagem ainda retenha alguma validade. Terá é de se fazer a ressalva de que se trata de um jardim público lisboeta. Isto é, de um espaço degradado e cheio de lixo, que não vê um jardineiro há décadas. E que à noite, claro, é um antro de pedofilia.
Tanto se engana, que recentemente, para ter um exemplo, o Hamas e a Jihad observaram uma trégua unilateral mais ou menos desde o fim da guerra do Iraque durante a qual Israel não deixou de assassinar-lhes dirigentes, erguer postos de controlo e colonatos, destruir casas árabes dentro e fora dos territórios ocupados e, claro, matar um ou outro david (aqueles miúdos que atiram pedras contra tanques). Mais: cedendo aos caprichos de Sharon e, por osmose, de Bush, Yasser Arafat, o líder legitimamente eleito da Autoridade Palestiniana, aceitou outorgar boa parte do seu poder a um primeiro-ministro não eleito, acolhido alegremente pelo eixo israelo-americano não por ser moderado, mas por ser inerentemente fraco. Eu ofereci-lhe uma visão equilibrada, omitindo, generosamente, a questão de fundo, que atribui 99% da razão aos palestinianos - a ocupação, que nem sequer devia ser objecto de uma negociação, mas sim - como determinam as resoluções da ONU - de uma retirada imediata e incondicional. Vc. prefere insistir numa tese que só teria validade se eliminássemos estruturalmente, "à estaline", a maior parte dos factos, e que, aplicada a outras realidades, levaria a silogismos que não lhe serão queridos, como: "O Iraque não invadiu nenhum país desde 1991, nem ocupou ilegitimamente qualquer território desde então, limitando-se, alegadamente, a violar, como Israel, resoluções das Nações Unidas, logo não podia ser atacado, nem sequer condenado"; ou: "Taiwan é parte reconhecida internacionalmente da China, ao contrário dos territórios ocupados da Palestina, logo, a China pode invadir e ocupar Taiwan". E, por favor, não me venha com o facto de Israel ser uma democracia, porque o Hitler também foi eleito, sendo só o que faltava que o mérito do sistema político autorizasse - qual prémio - um país a expulsar, massacrar, constranger e humilhar um povo e ainda por cima ocupar-lhe o que lhe resta do território.
Não é de agora, a História sempre foi uma prostituta, um manancial de sustentações distorcidas ou simplesmente apócrifas para as piores ideologias e os argumentos mais tresvariados. O último caso é o do apaziguamento, que algum Karl Rove ou Richard Perle receitou ao sr. Bush para polir a estratégia do medo e demonizar a França, Alemanha, Rússia, etc antes da guerra do Iraque. Seguiu-se o sr. Sharon e a sugestão pouco original de confundir nazismo com resistência árabe. Agora são os acólitos, uma massa falante, mas pouco pensante, sem censura, sem crítica, apenas com adesão, a quem se deve perguntar, a propósito, o que pensam então da atitude norte-americana face às bravatas nucleares da Coreia do Norte. Mas adiante. O trágico nem é a qualidade desse seguidismo é a quantidade, leia-se, a quase totalidade da direita portuguesa, com solenes excepções. Muitos, miseravelmente, por disciplina militante, mas outros tantos por estranha convicção, porque estão sempre na praça, entusiasticamente, a olhar para o palanque neo-conservador e a apontar o que de lá se ouve, para mais tarde repetirem como se fossem ideias próprias, nascidas do seu âmago analítico. E depois, claro, indignam-se e chocam-se quando alguém, razoavelmente, lhes diz o contrário.
A beleza do Alentejo é de cemitério, o que se vê são ainda os danos dos desbravamentos neolíticos. Por isso concordo com vergonha.
"Por Israel, sempre teria havido paz" (Viriato)
A grande comoção nacional das últimas semanas passou-me em boa parte ao lado. Lamento, como é evidente, os dramas humanos, ou seja as perdas de vidas e de bens, mas a destruição do campo português em si não me comove. Acho que nas últimas décadas foi desfigurado sem remissão pelas casas grotescas que foram alastrando pela paisagem, sobretudo nas áreas mais povoadas (de certeza que o Minho é hoje a província mais feia da Península Ibérica). A abundância, a desordem e a fealdade da construção destruíram em quase todo o lado a hipótese de sobrevivências bucólicas. A própria “floresta” existente deixa, com os seus extensos eucaliptais, bastante a desejar. Em suma, o campo português não merece que vertam lágrimas por ele.
Mais um filme de terror adolescente que nos amarra à expectativa de ver umas maminhas. Este blogue também sabe ser umbiguista.
Ontem a extrema-direita descobriu-me, agora passámos a ser dois. Seria caso para dizer que a coisa está negra para o Ralo, e o A também não se safa, mas monolítico sou só eu. O A, que finalmente acedeu ao convite, é a influência madura e ponderada por que os indignados e as chocadas suspiraram para mitigar o meu alegado extremismo. No entanto, manda ele dizer que é também um colaborador bissexto, uma espécie, digo eu, de Presidente da República deste blogue. O tempo dirá se será um Jorge Sampaio de 2º mandato ou se se transformará num Mário Soares dos últimos dias.
Um exemplo: desde o início da última intifada, morreram três vezes mais palestinianos que israelitas. O Abrupto não pode exigir nada mais concreto que isto. Mas também se engana ao acusar a esquerda de abstracção. A questão israelo-palestiniana tem muito pouco de ideológico no seu código genético. Acontece que a esquerda subscreve as conclusões das Nações Unidas e de todas as Organizações de Direitos Humano; a direita prefere a versão israelita, porque é isso que lhe prescreve a política externa americana. É por isto, porque a sua visão do Médio-Oriente é míope, que a direita hoje se enche de sentimento e exige sentimento à esquerda. Pois a esquerda tem sentimento, o problema é que também tem razão.
"Por Israel, sempre teria havido paz" (Viriato)
Eu: que sempre achei que as Andorras, as Maltas e os Liechensteins deviam ser substancialmente proscritos das fases de qualificação e obrigados a ter de passar antes por uma pré-eliminatória qualquer. Poupava-nos àquelas interrupções detestáveis do campeonato para ver dois mil patriotas no Estádio do Bessa a assobiar porque só marcámos três golos, deixava o Pedro Barbosa concentrado no Sporting e sempre eram menos uns jogos a ouvir os inefáveis comentadores da RTP1. Qual é a necessidade agora de recriar esta parvoíce?
Franz Kafka, Car Sagan, J. D. Salinger, Leonard Cohen, Paul Simon, Art Garfunkel, Bob Dylan, Joahnn Strauss, Stan Lee, Harrison Ford, Paul Newman, Dustin Hoffman, Petter Sellers, Jerry Seinfeld, Jon Stewart, Steven Spielberg, Stanley Kubrick, Joel & Ethan Coen, Roman Polanski, Oliver Stone, Brian Epstein, Albert Einsten, Niels Bohr, Baruch Spinoza, Sigmund Freud.
O Mata-Mouros chamou-me anti-semita. Acontece que eu tenho ascendência criptojudaica. Agora faça o favor de dizer que tem ascendência árabe.
Quando o Aviz, com extrema elegância, publicou o meu mail, tive consciência, não só, que isso adiaria a necessidade de dar uma parte dolorosa do corpo por uma page view, mas também que atrairia a este blogue muitos críticos de direita, sôfregos por me pintar de vermelho vivo. Fiquem então já a saber que declarei-me, aqui, de esquerda menos por afinidade ideológica do que por comiseração pelo estado diminuido da esquerda na blogosfera portuguesa. Por militância, então, nem pensar. Não venham com "o Guterres fez isto" ou, pior ainda, "o Estaline esfolou aquilo", porque é inútil, o que se comprova, de resto, por posts anteriores. Sou, hoje, de esquerda, sobretudo porque a direita portuguesa inclinou-se ou foi empurrada tanto para a extrema-direita, que acabou por lá cair. Foi empurrada pelos resultados eleitorais, não o nego, assim como o guterrismo sofreu até ao fim a angústia e os custos de lhe faltar um deputado para a maioria absoluta. Inclinou-se, desnecessariamente, ao aderir ao chamado partido da guerra. E é aqui que se situa a presente polémica.
E Bush não esconde o regozijo. Agora, como no ensaio da declaração de guerra ou em qualquer photo opportunity, aquele sorriso, meio estulto, meio sinistro, vem sempre à superfície do semblante pseudo-pesaroso. Habituou-se ao 11 de Setembro e à lógica de que cada vítima do terrorismo vale 100 votos e cada cagaço 10. Go Dean!
Can't live with them, can't live without them. Assim explicam a ambiguidade com que a ONU tem gerido o gigantismo americano, num momento impensavelmente arrojada, desafiando a avidez anglo-saxónica pela guerra, logo a seguir frustrante, oferecendo-lhes, com contrapartidas indigentes, um argumento para a ocupação. Os anti-americanos, entre os quais me conto por mera definição, não compreendem, queriam murros na mesa, boicotes, expulsões, mas as Nações Unidas existem para além da diplomacia grandiloquente e do ludo internacional; são - a menos que a interditem à força - quem lava as feridas humanitárias que não fazem notícia, quem varre o chão depois das festas dos exércitos, quem admnistra os infernos que já não atiçam a chama das redacções, quem tantas vezes mantém países e regiões, se não o mundo, colados com cuspo. Enfim, estão, ainda que inevitavelmente inquinadas pela real politik de cada um deles, acima não só dos EUA, mas também da França, da Alemanha ou da Rússia. É por isso que não mereciam nem o desprezo chauvinista dos neo-convervadores americanos nem tão-pouco a estranha noção estratégica de um qualquer extremista cuja ideia de integridade é bater nas mulheres e nos cães.
Sem desculpa para quem não sabe distinguir o verdadeiro inimigo, aí têm a estabilidade e segurança no Médio Oriente espalhadas, em sangue, nos jardins de um hotel de Bagdade. Sabia-se que as Nações Unidas tentavam, antes da guerra, salvar vidas, só não se previa que fossem também as próprias.
Este blogue está em 5º lugar no ranking de páginas desencantadas pelo Google quando se lhe pede que procure ""zero" homossexual", como foi o caso do meu último roto leitor. Mas o que me chateia mais não é que o melhor motor de busca do mundo ache que eu não valho nada e gosto de homens; o que me lixa acima de tudo é já não dispor do efeito surpresa quando o desespero me obrigar a dar o cu por uma page view.
Não, não é o do exumado anti-comunista - esse só nos lembra que devíamos enterrar de vez a imagem do engenheiro Guterres e lá deixar o Cavaco ganhar as presidenciais. É que já passou ano e meio e o que ele fez no poder continua, como diz o chavão delambido, a ecoar na eternidade. Não se trata do déficit, mas das traições amiudadas à esquerda, neste caso o acolhimento dos desertores do CDS na bancada parlamentar e no governo. Na altura achou-se uma jogada genial, a conquista do centro, um esvaziamento da direita, etc. Mas não era uma estratégia, era pura afinidade ideológica, era a beatice que o repelia do PC e do Bloco de Esquerda para as alianças com o PP e ex PP, foi o núcleo católico mais denso que a camada socialista que, no paroxismo, levou à triste figura do referendo sobre o aborto. E agora os custos continuam a contabilizar-se. Já nem pode este PS tentar meter o Portas no seu lugar, que lá surde um fantasma de antanho, directamente da bicha para ser anjinho, para lembrar que o outro PS, o manchado de azul e amarelo, fez o mesmo com a mesma pasta. E não vale a pena vir dizer que o tipo é obviamente reaccionário, seria mesquinho e a solidariedade intra-governamental sufoca qualquer argumento do género. Tudo culpa do Guterres. Aliás, quase tudo é culpa do Guterres, incluindo o Paulo Portas e o Durão Barroso.
É sintomático das diferenças filosóficas entre os dois países o que os responsáveis de cada um proferiram sobre o apagão. Enquanto Bush sugeriu o reforço da rede energética, o P.M. de Ontário recriminou os respectivos clientes por consumos frívolos. O que o primeiro diga já não pasma, até porque, ao que consta, é a divina inspiração que lho dita, e depois da primeira obra, que ainda vende milhares, não voltou a ditar nada de jeito. O problema é que a dimensão imperial dos Estados Unidos, se é discutível culturalmente, politicamente e até economicamente, é categórica no frágil domínio do ambiente. Os americanos consomem 35% dos recursos mundiais e são responsáveis por outro tanto ou mais da poluição global. Quanto pensamos nisto, a preferência do sr. Bush por dogmas religiosos em prejuízo das certezas científicas que agoiram a ruína do planeta passa do burlesco, do infeliz ao dramático. Somos todos fumadores passivos desse país anafado e arrogante e não podemos sair do restaurante, nem sequer mudar de mesa. Resta-nos recusar imitá-lo e enfiar humildemente a carapuça do P.M. de Ontário, ainda que entre nós os apagões sejam culpa das cegonhas. Resta-nos, para além de não calar a indignação e financiar a guerrilha do Iraque, inflectir alguns hábitos e acabar com outros. É o que tenho feito nas últimas semanas, pelo que está ao alcance de qualquer imbecil sem imaginação. Exemplos:
Não conheço melhor refutação do princípio antrópico que o facto de a evolução ter levado a que fosse eu a limpar a merda do gato.
O Beto estragou metade da parangona que já tinha preparada:
Aí estão eles finalmente, suscitados, como avisado, pelo regresso do Posto de Escuta, a cuja actividade cauciono a precariedade desta lista.
Não interessam lá os efeitos especiais, que nem transcendem o antecedente, nem a intensidade da acção, que é banal, nem sequer o humor muito razoável. Interessa o que resulta narrativamente, talvez até ao acaso, do que ficou para além da promoção do candidato à Califórnia - a glorificante submissão do género humano a esse destino arquétipo, que nunca deveria ter abandonado, - a luta pela sobrevivência. Sem intenção, este filme repõe o limite do que é humano, reservando o sobre-humano para as máquinas: a abnegação, a determinação, o sacrifício e todas as proezas absurdas que o futurismo torna verosímeis. E tudo culmina num dos melhores endings que Hollywood já produziu. Now I hope he'll be back.
Não conseguem apagar os fogos? É fácil! Mandamos para lá o George Michael vendado e dizemos-lhe que está numa casa de banho! Tau! Ah, pois é!
No meio da polémica dos incêndios, ainda ninguém se lembrou de criticar os bombeiros por não limparem o mato facial. Se uma fagulha se apodera de um daqueles bigodes, não há canadair cheio de aftershave que acuda.
"Epá O Miguel Bombarda tem serviço round' clock...
Virão quando voltar o Posto de Escuta. Até lá não estou para repetir as listas do costume, nem conheço blogues alternativos em quantidade e qualidade suficientes.
"E como quer que o elRei muito amasse, mais que se deve aqui de dizer...".
Salva-se parte do José Cutileiro, aquela parte ainda genuinamente moderada e não infectada pela americanite; salva-se uma ou outra anedota social da "Gente", geralmente aquelas que mereciam o frontespício da secção principal; salva-se o "Emprego", na edição online; salva-se a caricatura; salva-se o "Quiosque" e mais nada. Tudo junto, perfaz, no máximo, duas páginas. O resto é lixo; as parangonas que são meros chamarizes, desmentidas no desenvolvimento pelo mais descarado servilismo, as opiniões internas, que fazem do Povo Livro um destacável do Avante, os artigos encomendados, o perfunctório absoluto nas reportagens, o recurso desavergonhado às traduções, a concorrência à Caras, o golf, os vinhos, os caminhos queques de Portugal. O resto são eucaliptos que morreram em vão.
Se este blogue fosse um incêndio, nem sequer era um daqueles circunscritos, mas um fogo apagado sem chegar a notícia a golpes de ramo de oliveira. Qualquer dia pára de se reacender.
Dizem que eu sou muito duro com o governo. Eu respondo que é uma vocação recente, com apenas ano e meio.
Ainda ensaiei a simulação de um golpe de estado do Bloco de Esquerda, que me obrigaria a revogar a revogação, sob pena de ir para os calabouços da FCSH, onde nos torturam privando-nos de papel higiénico, mas optei antes por um comunicado lacónico:
O meu amigo A., entre elogios à minha eloquência, criatividade e humor, disse que eu não era nenhum Pedro Mexia, numa óbvia alusão aos meus dotes físicos. Tal significa que o meu amigo tem bom gosto, mas também uma grave carência de testosterona. Ora, eu sou de esquerda, mas não sou paneleiro, por isso o convite formulado atrás fica sem efeito. Remeto o meu amigo A. para os seguinte blogues, onde certamente o acolherão sem os mesmos pudores.
In TSF Online:
Acabei de abrir a porta a um amigo. Nem tive tempo de limpar a casa, o que equivaleria a apagar todos os posts. Resta-me tentar torná-lo cúmplice deste crime de mediocridade convidando-o a colaborar.
Estes tipos vêm para aqui jogar como se estivessem a partir bares no Algarve: "nice weather, inferior people, let's be rude". Se eu queria saber o que vale este Sporting, tive de me contentar com a opnião dos senhores ingleses, para quem não vale sequer o esforço de contrair os adutores. É nestas alturas que lembro com saudade o Regicídio.
Não, não foi um ensaio de pós-pós-modernismo. Tentei tudo para apagar os dois últimos posts, mas parece que vão ficar por aqui até desaparecerem nos arquivos. Que a animação do mundo ou da minha imaginação façam com que isso aconteça depressa.
Há quatro meses, era nomeado um engenheiro naval para o recém-criado serviço de bombeiros e protecção civil, com a seguinte alusão às suas habilitações específicas: "O que me bastou sentir foi um mínimo de conhecimentos para ter capacidade de aprendizagem em tempo útil". Temos que agradecer ao governo o facto de não se estarem a verificar incêndios no mar.
A temperatura média subiu dois ou três graus, o investimento na prevenção de incêndios desceu 44%, na criação de equipas de sapadores florestais 80% e na protecção de florestas 38%. Em Espanha, cinco vezes maior em superfície e de clima ainda mais quente e seco, ardeu dez vezes menos área florestal do que em Portugal.
Em que a culpa era do governo quando uma velhinha torcia um pé no passeio. Mania também do governo, que expedia logo o ministro mais respectivo para fazer um ar condoído ao lado da senhora, ou do polícia baleado pelo preto, ou do preto baleado pelo polícia, ou das vítimas da cheia, ou da ponte caída. Agora o país é um fósforo e parece que nem há governo.
Cá fiquei, numa Lisboa vazia, a espatifar ferraris, a comer conservas nos hipermercados e a ver pornografia em clubes de vídeo. E nem preciso de me preocupar com hordas de zombies, que neste momento marcham lentamente para o Algarve.
De volta do Alentejo ansiolítico, infernizado, também ele, pelos ventos de Espanha. Fui ver um incêndio que ardia, aliás, amorroava pelo restolho, enquanto dois tractores com uma pressa prescindível lavravam os campos à frente para o atalhar. Mas antes fosse só o fogo, provavelmente ateado por um relâmpago. Também por obra do vento, a aldeia enchia-se de um miasma de azeite, cujas borras aquela gente muito pouco ecológica - já desde o neolítico - despeja há anos para o barranco, já de si um pouco de água baça de detergente que rasteja pelo meio do povo até desaguar numa ETAR que nunca chegou a funcionar e que, por sua vez, verte para uma barragem que finalmente abastece outras aldeias.
Ainda há na blogosfera recônditos deslumbrantes por desbravar. Aqui, para quem não reparou antes.