T-Zero

Ressurreição

domingo, agosto 31, 2003

Ao Apolo

Que Deus exista só para te conceder a eternidade.

The Eighties

Há tanto tempo que a televisão não passava um filme dessa época em que a cocaína tornava a decadência elitista, com as suas vítimas adolescentes filhas de yuppies, penteadas à rebelde-queque, que calcorreavam, em lamborghinis vermelhos, todas as discotecas com letreiros de néon rosa e azul. Que diferença para os filmes lúgubres da década seguinte, dos junkies de rua, das miúdas que se prostituem e dos traficantes que as chulam, dos narcs caídos em desgraça, da sida. E o que é mais fascinante é que a mudança foi real, sociológica e não artística.

sábado, agosto 30, 2003

Tomem lá

Ainda há semanas se queixavam alguns que a TSF era incrivelmente esquerdista, e aqui está a excelente rádio a acudir aos pruridos dos seus ouvintes. Primeiro, despachando, de uma penada, um jornalista de barba insuspeita e dois programas irritantes - um deles porque cometia o escandaloso facciosismo de colocar frente a um moderado e solitário PP, um ex-comunista (oh, Magiollo Gouveia, não sobreviveste para os eliminar!) e um PSD heterodoxo! E agora, convidando para comentar o discurso do primeiro-ministro dois militantes do PSD de seguida: o inefável Guilherme Silva e o profissionalíssimo editor de política nacional do Expresso. Aliás, proponho à administração da TSF, para poupar na imaginação e no trabalho, que se deixem simplesmente infectar por esse jornal. E caso achem a fonte escassa, já que um semanário dificilmente poderá dar de beber a uma rádio de informação horária, então que acrescentem o Correio da Manhã às leituras, e, em caso de extrema necessidade, repitam discretamente os noticiáros da TVI.

Odeiem-se por favor

A actuação do juiz Rui Teixeira no processo Casa Pia tem sido considerada polémica por dar a impressão de que decide em quase tudo a favor da acusação (quando lhe nega qualquer coisa é apenas para lha dar mais tarde, como agora na história das videoconferências). Bem ou mal, não parece suficientemente imparcial. Por isso, para quem está de fora, o processo faz lembrar algumas vezes uma luta de dois contra um, acusação e juiz contra defesa. Se tal for, de facto, verdade, fica a incógnita de saber se é normal esse tipo de parcialidade por parte dos juízes. Uma das muitas coisas instrutivas que aprendi com o debate público sobre o caso é que, em Portugal, os juízes e o Ministério Público odeiam os advogados com um ódio verdadeiramente selvagem; e que os advogados lhes retribuem o sentimento com igual intensidade. Aquela gente comia-se toda viva, se pudesse. Serão antagonismos profissionais inevitáveis, talvez. Mas eu ficaria mais descansado sabendo que o Ministério Público e os juízes se detestam com a mesma violência. Neste debate da Casa Pia, têm estado, previsivelmente, do mesmo lado, não sei se por aliança de conveniência, se por solidariedades mais profundas. Sei que, se os juízes têm apenas aversão por advogados e se entendem melhor com quem acusa, é mau sinal, pois tal dará de certeza vantagens ao Ministério Público nos processos em geral. Se tem de haver ódios profissionais, então só o ódio universal, de todos por todos, poderá garantir o equilíbrio do sistema. É exactamente equilíbrio que dá a impressão de faltar no processo concreto da Casa Pia, gerando a desconfiança das pessoas. Dois contra um não vale. Ou, pelo menos, não devia valer.

sexta-feira, agosto 29, 2003

Nota de imprensa

Há jornais que fazem o que o papá manda.

T-Zero Notícias

Em entrevista que se seguiu à da Sic Notícias, o Ministro de Estado e da Defesa falou amavelmente para este blogue. O que aqui se publica, porém, é o resultado de um profundo exercício de censura editorial depois de se verificar que a maioria das piadas não resistiam à tentação homofóbica e injuriosa. Se, por um lado, o corte me aflige, porque a minha criatividade é um bem escasso que dói desperdiçar, por outro não posso admitir, muito menos a mim próprio, a manipulação de verdades ou suposições íntimas para meros fins de gratificação própria e alheia e exibição de uma antipatia que nem sequer é original e assenta em razões totalmente distintas daquelas com que a parte da entrevista omitida brincaria. Fica assim justificada a grosseira falta de graça do pouquíssimo que restou, embora se salve o valor informativo, já que são questões que o jornalista da Sic se esqueceu escandalosamente de colocar ou em que devia ter insisto:

T-Z: Há quem considere hipócrita a susceptibilidade do seu partido aos ataques que lhe têm sido dirigidos, tendo em conta a linguagem que vc. próprio usava na sua actividade jornalística.

P.P: Que actividade jornalística?

T-Z: Quando era director do Indepentente, antes de ingressar na política.

P.P: Ouça, eu só me lembro de acordar com a cara no volante de um jaguar.

T-Z: O chamado processo da Casa Pia merece-lhe algum comentário?

P.P: Ouça, eu já disse que confio absolutamente na Justiça, incluindo nos responsáveis por esse processo, a quem, de resto, já manifestei essa confiança numa reunião da Opus Dei.

quinta-feira, agosto 28, 2003

O imigrante

"BENFICA FORA DA 'CHAMPIONS'".

E que tal agora:

"'CHAMPIONS' FORA DO VOCABULÁRIO FUTEBOLÍSTICO".

Pronunciada por alguém com canudo é mais um estrangeirismo, e nem sequer dos pretensiosos, context forbids. Mas da boca de um treinador ou jogador sai à francesa - e em vez de remeter para a francofonia culta, lembra as vacanças, as fenetras e as pantalonas. Ora, com a bigodaça, o garrafão de tinto, as sandes de coiratos, as camisolas da Fnac e do Queijo Castelões, os sócios velhos a escarrar para o lenço ou as adeptas com voz de bagaço, o futebol português não precisa de ficar mais boçal, pois não?

quarta-feira, agosto 27, 2003

Finalmente

"A História não passa da história de uma espécie de seres vivos a procurar crescer e multiplicar-se. O único progresso genuíno que esta história registou desde sempre é o progresso das formas de adiar a morte, nada mais. As pessoas não são hoje mais felizes, mais cultas, mais interessantes do que eram há 10.000 anos. Vivem mais e têm menos doenças, é tudo". (Aqui).

1º - Têm mais doenças. O ritmo a que a modernidade - poluição, excesso demográfico, sedentarismo, etc - engendra ou liberta novas doenças é superior ao ritmo a que vai conseguindo erradicar algumas das antigas. Apesar do ar asséptico desta sociedade urbana do século XXI, contam-se pelos dedos os sucessos estrondosos da medicina, que não se devem confundir com os paliativos e com o prolongamento deprimente da vida para lá de todos os prazos naturais.

2º - Não, não é tudo. Essa consciência que esvazia a humanidade de sentidos filosóficos, religiosos, morais é precisamente a diferença essencial, o ápice da evolução do Homem, cuja macrocefalia - biologicamente inútil - guarda afinal, após milénios de erosão crítica, parte da solução para o sentido da vida: a vida assim não faz sentido. Agora escolham - ou nos suicidamos colectivamente, ou persistimos na ilusão antrópica até que a natureza nos extinga com o seu desprezo inanimado a golpes de asteróides ou raios gama.

terça-feira, agosto 26, 2003

Descolonização

Com o atraso que me é habitual, venho aqui falar da descolonização, muito discutida nos últimos tempos. Devo dizer que a acho o tema mais delicado e difícil da história do chamado PREC. Dentre os produtos consensualmente nefastos da revolução, ela constitui aquele que é de certeza o mais trágico. Mas também é verdade que parece o mais difícil de julgar. A direita ataca-a dizendo que foi uma debandada em que, por anti-colonialismo ou por simples desinteresse e cobardia, se abdicou de tentar garantir uma transmissão ordeira do poder, deixando as ex-colónias entregues ao caos. A esquerda defende-a afirmando que o 25 de Abril e a agitação subsequente quebraram de tal modo a disciplina militar que as tropas ficaram inoperacionais, tornando a debandada inevitável. Segundo ela, a responsabilidade do desastre caberia, sim, ao regime anterior, que não teria querido dar a independência às colónias quando era possível fazê-lo em muito melhores condições. Em que ficamos, afinal?

Ao contrário do que sucede em relação a muitas das desculpas tradicionais da esquerda sobre o PREC, a sua defesa da descolonização é, pelo menos em parte, convincente. Parece que, de facto, a disciplina militar em África se degradou bastante. E é evidente que a instabilidade do período revolucionário nunca seria propícia a uma condução eficiente de um processo tão difícil. É comum os descolonizadores invocarem em seu favor o exemplo de outras descolonizações, mais ou menos parecidas e mais ou menos mal sucedidas. A França e a Bélgica, por exemplo, não teriam feito muito melhor que nós na Argélia e no Congo, apesar de serem países muito mais capazes e de não terem tido de lidar com o problema enquanto tinham uma revolução em casa. Com precedentes assim, como poderia o sempre incompetente Portugal ter-se superado a si próprio, quando estava quase em guerra civil? É um argumento de monta, como o é a ideia, também defendida, de que as desgraças da África pós-colonial se deveriam mais aos descolonizados que aos descolonizadores. A prová-lo estaria, por exemplo, a péssima situação actual de ex-colónias britânicas como a Serra Leoa, apesar de ser relativamente consensual que as descolonizações britânicas até foram as melhores. O inferno vivido em Moçambique e Angola depois de 74 não teria sido um fenómeno isolado, mas parte de um colapso mais geral vivido em muitas partes de África depois da retirada dos europeus.

Tudo isto é verdade, tudo isto faz sentido, mas suspeito que todas estas desculpas, por coerentes que sejam, nem sempre serão sinceras. E uma das coisas que me faz duvidar é a ideia que tenho de que a esquerda em 74 respeitava os chamados “movimentos de libertação” africanos duma maneira que eles, pelo seu comportamento posterior, mostraram claramente não merecer. Mesmo a esquerda moderada de Soares e Melo Antunes, dois dos pais da descolonização. Isto aponta para que tivesse, toda ela, uma visão fortemente idealizada da situação das colónias. Julgo que as suas ideias sobre África seriam determinadas sobretudo pelo anti-colonialismo, que era, afinal de contas, o fundamento ético inevitável da oposição à guerra. Parece ter acreditado, em conformidade, que o problema essencial do “Ultramar” era a existência de um poder colonial indigno, com cuja remoção as coisas não poderiam deixar de melhorar. E tudo leva a crer que as possibilidades destrutivas abertas pelo fim desse poder colonial não a terão preocupado tanto como deviam. Em Portugal e lá fora, a esquerda dos anos 70, mesmo a mais moderada, estava muito radicalizada e não primava pela prudência e pelo realismo.

Não sei até que ponto este tipo de preconceitos ideológicos contribuiu para o desenrolar desastroso de um processo que, como já disse, teve desde o princípio muito de incontrolável. Acredito que o pouco ideológico cansaço das tropas e do país com a guerra tenha contribuído mais. Mas não acho absurdo pensar que as ilusões da esquerda da época sobre os “movimentos de libertação” e sobre a realidade colonial em geral possam ter piorado as coisas. Não sei se tenho razão, mas gostaria, pelo menos, de não ver a esquerda discutir sempre o problema tão defensivamente. Até porque sei que ele, pela sua complexidade, está muito para além do calibre intelectual de Paulo Portas, que nasceu apenas para ter certezas simples (não esqueço que na campanha para as últimas eleições europeias atacou Pacheco Pereira por escrever uma biografia de Cunhal, o que diz tudo sobre o que podemos esperar da qualidade das suas análises históricas). Mas isso não é consolação.

Terror

Fiquei, de olhos esgazeados na escuridão, à espera que isto me suscitasse um pesadelo. Mas foi bem pior. Sonhei que estava em cuecas na faculdade a perguntar a um colega porque é que tinha vindo toda a gente à aula. "Hoje há frequência, não me digas que não sabias".

segunda-feira, agosto 25, 2003

Ordem do dia

Há minutos, caíu no endereço ofical deste blogue um mail da Assembleia da República com o subject "Parabéns". De repente pensei que tínhamos sido eleitos deputados. Estava já a preparar-me para pôr o sono em dia e reformar-me aos 36 anos, quando vejo, sem ponta de desilusão, que se tratava afinal de um elogio de quem anda a aterrorizar os consagrados da blogoesfera.

20:00

Boa noite, este é o Telejornal. O governo anunciou hoje um programa de apoio às vítimas dos fogos no valor de muitos euros, para além da prisão de mais vinte pastores surdo-mudos e dez septuagenárias com cataratas e osteoporose avançada responsáveis, juntamente com o clima, pelos mesmos. Na actualidade internacional há a confirmação de que o governo francês é pior, porque deixou morrer mais pessoas com o calor.


Boa noite, este é o Jornal das 8. A área ardida este ano em Portugal equivale praticamente à superfície total do país e podia ter sido muito pior se este Verão, excepcionalmente, não durasse apenas três meses. A SIC vai-lhe contar a história chocante de um sem-abrigo que perdeu a casa para o fogo e vai ainda mostrar-lhe imagens impressionantes do momento em que uma das suas equipas de reportagem, que acompanhava a tragédia no terreno, foi obrigada a passar por cima de uma beata de cigarro lançada pela viatura que seguia à sua frente.


Boa noite, este é o Jornal da TVI, eu era a Manuela Moura Guedes, agora, finalmente, completei a mutação. A TVI sabe que foi Ferro Rodrigues quem ateou a maioria dos incêndios destas últimas semanas. Para comentar esta notícia teremos aqui em representação de todo o espectro político o Prof. José Hermano Saraiva e o Prof. Oliveira Salazar.

Real Porto

Intermitentemente, entre as 21 e as 23, andei a ver se desejava a derrota do Real Madrid. Não é pelo Queirós, por quem tenho a simpatia e a antipatia que um homossexual tem por uma mulher; é pela arrogância inerente a uma equipa que açambarca os jogadores com classe e ganha ligas dos campeões ao pé coxinho (o Figo, pelo menos), ao ponto de bocejar nos jogos da liga espanhola. E é sobretudo, a partir de agora, por causa do Beckham. O rapaz não tem culpa: desde a variedade dos penteados, que duram, cirurgicamente um trimestre, até à anorética esposa, passando pelo ar semi-marginal e a voz à Fernando Couto, é tudo merchandising. O que repugna é a opção comercial do clube, que lhe paga um escândalo e hostiliza o resto do plantel só para vender camisolas na Ásia. Ora isto mereceria, sem dúvida nenhuma, todo o ódio fanático que se possa espremer de todos os adeptos de futebol. Mas ainda assim só consigo convocar uma aversão superficial, racional - falta algo. Foi então, a seguir ao jogo, ao ouvir um treinador português a justificar um empate dizendo que os tratadores da relva tinham estado de férias na semana passada, "ou então foi de propóstio", que percebi o quê. Falta o Mourinho.

domingo, agosto 24, 2003

Shhhh

Estão a ouvir? Eu também não. Há anos que não se vê uma manifestação de estudantes de jeito, daquelas de encher avenidas e de rabos ao léu. Ainda me lembro da última, que foi desaguar à 5 de Outubro e aí se dissolveu, com a boçalidade com que se tinha formado, quando o ministro Marçal Grilo disse, magnificamente, qualquer coisa do género: "Só os recebo quando pararem de fazer barulho". Na altura e por muito tempo imputei a modorra da estudantina a essa táctica simples, cujo brilhantismo só é diminuido pelo baixo intelecto colectivo do adversário. Mas agora pressinto outra razão, algo sinistro, que cheira a infiltração e tresanda quando as associações de estudantes desse país fora se reunem para decidir a acção de luta e uma ou outra boicota sempre, estrategicamente. Deve ser indecoroso o dinheiro que escorre dos dois grandes partidos para certas listas nas eleições só para comprar o silêncio. E eu não sou capaz de dizer se isso é bom ou mau.

Normalidade

Ainda mais depressa do que esperava, lá regressámos à obscuridade e a uma média de visitas diárias que rivaliza com a dos americanos tombados no Iraque. Por alguns dias, este blogue parecia o aniversário da morte do Salazar, tanta foi a extrema-direita que se juntou. Agora é de novo mais um da gentalha, de quem não aparece na televisão ou assina reportagens num jornal e não é, por isso, anunciado com pompa na blogoesfera como se esta fosse uma festa da high society. Aqui não há porteiro a impedir a entrada, mas há a assoberbante discriminação da visibilidade. Tirando uns blogues realmente bons, que vamos agremiando avaramente nos nossos favorites, isto é puro voyeurismo.

sexta-feira, agosto 22, 2003

Outro

Outro ávido sexual que o Google conduziu a este blogue. Este procurava "maminhas grande (sic)", e, como o outro, também foi enganado: nunca usei soutien acima do 32.

Problemas técnicos

Devido a um arrufo entre o Blogger e o w.bloggar, é (n.e: era) possível ver dois estádios da fermentação de um post. Agora é um embaraço, depois de eu morrer será um leilão no Sotheby's.

Geração Radical

Se bejo mais uma entrebista a um jobem frique do nuorte a gracejar com a tenda armada, com o salsichon ou com o berbo bombar, juro que telefono ao Pentágono a dizer que os festivais do verão são acampamentos da Al-Quaeda. Nem é preciso mandar napalm, basta um fósforo a arder para deflagrar a sagres morna, a seborreia e o metano das tendas. Com alguma sorte e muita erva, o people faz como as vacas e não se mexe, até perceber, tarde demais, que aquele som na cabeça não é a reminiscência do concerto da véspera, mas os próprios piolhos a crepitar.

A minha vez

Para não deixar o Ralo completamente sózinho em combate, vou dizer o que penso sobre as polémicas que têm agitado este blogue, normalmente tão pacato. Eu não conheço tão bem como ele o conflicto israelo-palestiniano e não tenho por isso opiniões tão formadas. Mas sei o suficiente para achar que, como problema histórico, não tem, infelizmente, nada de original. Não é novidade ver povos que o acaso da história colocou a viver lado a lado guerrearem-se pela terra que ambos querem. Como não é novidade ver depois a desconfiança e os ódios mútuos gerados pela guerra deitarem abaixo as tentativas de negociar a paz. Nada disto faz de nenhum dos povos em confronto vilões. Estão apenas a seguir um padrão velho como a própria história.
Entre aqueles que escreveram ao Ralo, há gente incapaz de perceber a história assim. Por razões de estrutura mental, de pura beatice de espírito, só conseguem ver as coisas a preto e branco. Através da demonização do lado palestiniano, constroem uma versão edificante da realidade, único modo que têm de a entender. Esta é a pior maneira de olhar para o problema israelo-palestiniano, onde é evidente que as responsabilidades partilhadas abundam e cuja moral é por isso muito mais cinzenta que a preto e branco. Os palestinianos têm culpas (e sangue nas mãos), mas não são Bin Laden, como parece que muita gente pensa. E os israelitas, como devia ser fácil de ver, são tudo menos santos. A omnipotência militar nunca fez de ninguém santo.

Chega

Em resposta ao último comentário ao último post sobre a questão israelo-palestiniano, aqui acaba a discussão da minha parte, o mais eloquentemente possível, transcrevendo o texto da resolução 242, de 1967, do Conselho de Segurança das Nações Unidas, reiterada pela 338, e indicando a lista de todas as resoluções aprovadas contra Israel de 1955 a 1992 e as que foram vetadas pelos Estados Unidos de 1972 a 1990.

"The Security Council,

Expressing its continuing concern with the grave situation in the Middle East,

Emphasizing the inadmissibility of the acquisition of territory by war and the need to work for a just and lasting peace in which every State in the area can live in security,

Emphasizing further that all Member States in their acceptance of the Charter of the United Nations have undertaken a commitment to act in accordance with Article 2 of the Charter,

1. Affirms that the fulfilment of Charter principles requires the establishment of a just and lasting peace in the Middle East which should include the application of both the following principles:

(i) Withdrawal of Israel armed forces from territories occupied in the recent conflict;

(ii) Termination of all claims or states of belligerency and respect for and acknowledgment of the sovereignty, territorial integrity and political independence of every State in the area and their right to live in peace within secure and recognized boundaries free from threats or acts of force;

2. Affirms further the necessity

(a) For guaranteeing freedom of navigation through international waterways in the area;

(b) For achieving a just settlement of the refugee problem;

(c) For guaranteeing the territorial inviolability and political independence of every State in the area, through measures including the establishment of demilitarized zones;

3. Requests the Secretary-General to designate a Special Representative to proceed to the Middle East to establish and maintain contacts with the States concerned in order to promote agreement and assist efforts to achieve a peaceful and accepted settlement in accordance with the provisions and principles in this resolution;

4. Requests the Secretary-General to report to the Security Council on the progress of the efforts of the Special Representative as soon as possible.

Adopted unanimously at the 1382nd meeting
".

Maestro

Eu não ria assim, como uma criança, desde os 10 anos.

quinta-feira, agosto 21, 2003

Sei que é verdade porque a TVI diz

Num post anterior a dizer mal da paisagem portuguesa, afirmei que era absurdo chamar ao país um jardim à beira-mar plantado. Mas, pensando bem, talvez a imagem ainda retenha alguma validade. Terá é de se fazer a ressalva de que se trata de um jardim público lisboeta. Isto é, de um espaço degradado e cheio de lixo, que não vê um jardineiro há décadas. E que à noite, claro, é um antro de pedofilia.

Caro Jaquinzinhos II

Tanto se engana, que recentemente, para ter um exemplo, o Hamas e a Jihad observaram uma trégua unilateral mais ou menos desde o fim da guerra do Iraque durante a qual Israel não deixou de assassinar-lhes dirigentes, erguer postos de controlo e colonatos, destruir casas árabes dentro e fora dos territórios ocupados e, claro, matar um ou outro david (aqueles miúdos que atiram pedras contra tanques). Mais: cedendo aos caprichos de Sharon e, por osmose, de Bush, Yasser Arafat, o líder legitimamente eleito da Autoridade Palestiniana, aceitou outorgar boa parte do seu poder a um primeiro-ministro não eleito, acolhido alegremente pelo eixo israelo-americano não por ser moderado, mas por ser inerentemente fraco. Eu ofereci-lhe uma visão equilibrada, omitindo, generosamente, a questão de fundo, que atribui 99% da razão aos palestinianos - a ocupação, que nem sequer devia ser objecto de uma negociação, mas sim - como determinam as resoluções da ONU - de uma retirada imediata e incondicional. Vc. prefere insistir numa tese que só teria validade se eliminássemos estruturalmente, "à estaline", a maior parte dos factos, e que, aplicada a outras realidades, levaria a silogismos que não lhe serão queridos, como: "O Iraque não invadiu nenhum país desde 1991, nem ocupou ilegitimamente qualquer território desde então, limitando-se, alegadamente, a violar, como Israel, resoluções das Nações Unidas, logo não podia ser atacado, nem sequer condenado"; ou: "Taiwan é parte reconhecida internacionalmente da China, ao contrário dos territórios ocupados da Palestina, logo, a China pode invadir e ocupar Taiwan". E, por favor, não me venha com o facto de Israel ser uma democracia, porque o Hitler também foi eleito, sendo só o que faltava que o mérito do sistema político autorizasse - qual prémio - um país a expulsar, massacrar, constranger e humilhar um povo e ainda por cima ocupar-lhe o que lhe resta do território.

St. Bush

Não é de agora, a História sempre foi uma prostituta, um manancial de sustentações distorcidas ou simplesmente apócrifas para as piores ideologias e os argumentos mais tresvariados. O último caso é o do apaziguamento, que algum Karl Rove ou Richard Perle receitou ao sr. Bush para polir a estratégia do medo e demonizar a França, Alemanha, Rússia, etc antes da guerra do Iraque. Seguiu-se o sr. Sharon e a sugestão pouco original de confundir nazismo com resistência árabe. Agora são os acólitos, uma massa falante, mas pouco pensante, sem censura, sem crítica, apenas com adesão, a quem se deve perguntar, a propósito, o que pensam então da atitude norte-americana face às bravatas nucleares da Coreia do Norte. Mas adiante. O trágico nem é a qualidade desse seguidismo é a quantidade, leia-se, a quase totalidade da direita portuguesa, com solenes excepções. Muitos, miseravelmente, por disciplina militante, mas outros tantos por estranha convicção, porque estão sempre na praça, entusiasticamente, a olhar para o palanque neo-conservador e a apontar o que de lá se ouve, para mais tarde repetirem como se fossem ideias próprias, nascidas do seu âmago analítico. E depois, claro, indignam-se e chocam-se quando alguém, razoavelmente, lhes diz o contrário.

Caro Jaquinzinhos (a quem devia cobrar renda por morar há tanto tempo nos meus favorites): eu não imputei a alegria pelas vítimas dos terroristas aos soldados americanos. Primeiro, porque os acho, como aos portugueses, aos franceses ou aos argentinos, incapazes, em regra, de estabelecer nexos de causalidade tão complexos; segundo, porque entre os soldados americanos há muitos relutantes, fartos, desanimados, confusos, enfim, em certa medida, também vítimas. A minha acusação recaíu exclusivamente sobre o sr. Bush, o qual, não tendo igualmente agilidade sináptica suficiente para associar A a B, tem o ouvido encostado aos sinistros conselheiros, aqueles que estão por detrás da parte sinistra do sorriso. Mas já agora que fala do sr. Sharon, aproveito para lhe estender a mesma acusação, a ele e - prepare-se - ao Hamas, à Jihad Islâmica, e até, embora sob reserva, à Fatah dos últimos tempos. Porque se há aliança mais perversa e - tenho cá uma esperança - mais duradoura que a de Israel e os Estados Unidos, é o acordo tácito, assinado com sangue, entre a direita israelita e os radicais palestinianos e islâmicos que interferem no conflito. Basta reparar no que sucede sempre que se está à beira da paz, como após a morte de Rabin, quando Shimon Peres apressou as concessões à Autoridade Palestiniana e foi arrasado politicamente por atentados do Hamas, ou no final do governo de Ehud Barak, quando Sharon decidiu visitar os seus amigos árabes no pátio das mesquitas. Hoje é o mesmo. Aceita-se, com toneladas de hesitações e reservas, aquela espécie de rascunho de um esboço de um ante-plano de um plano provisório de paz, vão-se adiando reuniões e promessas e depois, como quem não quer a coisa, assassina-se um líder deste ou daquele grupo, faz-se uma emboscada a uns colonos, responde-se rebentando com um autocarro, replica-se reocupando os territórios autónomos. E lá se vão matando alegremente, porque o conflito aberto é a condição essencial ou mesmo única para existência de uns e outros. Lembre-se que o Likud começou por ser uma força menor em Israel e continua a ser um partido assinalavelmente medíocre, com um programa de governo de ponto único: a segurança, que, frequentemente, é apenas um disfarce para ideais expansionistas. Por outro lado, os exércitos radicais palestinianos precisam de um objectivo inatingível, de uma utopia que lhes garanta a sobrevivência perpétua e de um factor de vitimização constante que lhes assegure a base de apoio, ou seja, o fim de Israel. Resumindo, sem os atentados suicidas, o Likud é dispensável; com a paz, o Hamas, a Jihad, etc, são dissolúveis. É por isso que estes preferem matar inocentes, para banir qualquer possibilidade de compreensão da população israelita; é por isso também que os governos de Sharon e Bibi preferem atacar a Autoridade Palestiniana, para garantir a preponderância dos radicais.

Campo português

A beleza do Alentejo é de cemitério, o que se vê são ainda os danos dos desbravamentos neolíticos. Por isso concordo com vergonha.

Israel: estado pacifista incompreendido

"Por Israel, sempre teria havido paz" (Viriato)

Fica então esclarecido o intrigante nome próprio do primeiro-ministro Sharon. Sempre achei que Ariel era nome de hippie, não de pára-quedista.

os fogos

A grande comoção nacional das últimas semanas passou-me em boa parte ao lado. Lamento, como é evidente, os dramas humanos, ou seja as perdas de vidas e de bens, mas a destruição do campo português em si não me comove. Acho que nas últimas décadas foi desfigurado sem remissão pelas casas grotescas que foram alastrando pela paisagem, sobretudo nas áreas mais povoadas (de certeza que o Minho é hoje a província mais feia da Península Ibérica). A abundância, a desordem e a fealdade da construção destruíram em quase todo o lado a hipótese de sobrevivências bucólicas. A própria “floresta” existente deixa, com os seus extensos eucaliptais, bastante a desejar. Em suma, o campo português não merece que vertam lágrimas por ele.
Quando afirmo isto, costumam desmentir-me com listas dos sítios lindíssimos que ainda há em Portugal. Eu também conheço alguns sítios desses, mas eles são apenas isso: sítios. O campo português tem alguns sítios bonitos, mas não é bonito. Com a importante excepção do Alentejo, não há em Portugal regiões por onde alguém possa vaguear confiante na beleza continuada da paisagem. Acresce que as razões da excepção alentejana são as piores, pois foram apenas a baixíssima densidade populacional e a pobreza quase geral que impediram que a construção recente atingisse lá os níveis de outros lugares. È triste, mas a preservação da beleza natural de Portugal afigura-se incompatível com a existência de números significativos de portugueses e com o desenvolvimento económico. Entre a desertificação e a suburbanização da paisagem, parece que não temos mais por onde escolher.
Por tudo isto, este verão, como todos os verões, os incêndios deixaram-me indiferente. Na sua grande parte, não ardeu nada que valesse a pena ter ficado. Na paisagem, como noutras coisas, é preciso ser muito selectivo para gostar de Portugal. O jardim à beira-mar plantado é uma ficção.

Entretanto

Mais um filme de terror adolescente que nos amarra à expectativa de ver umas maminhas. Este blogue também sabe ser umbiguista.

P.S. - Escusado será exprimir o desejo de que crocodilo coma o rapazinho de olho azul a começar pelas pernas.

quarta-feira, agosto 20, 2003

A união faz o blogue

Ontem a extrema-direita descobriu-me, agora passámos a ser dois. Seria caso para dizer que a coisa está negra para o Ralo, e o A também não se safa, mas monolítico sou só eu. O A, que finalmente acedeu ao convite, é a influência madura e ponderada por que os indignados e as chocadas suspiraram para mitigar o meu alegado extremismo. No entanto, manda ele dizer que é também um colaborador bissexto, uma espécie, digo eu, de Presidente da República deste blogue. O tempo dirá se será um Jorge Sampaio de 2º mandato ou se se transformará num Mário Soares dos últimos dias.

Concreto

Um exemplo: desde o início da última intifada, morreram três vezes mais palestinianos que israelitas. O Abrupto não pode exigir nada mais concreto que isto. Mas também se engana ao acusar a esquerda de abstracção. A questão israelo-palestiniana tem muito pouco de ideológico no seu código genético. Acontece que a esquerda subscreve as conclusões das Nações Unidas e de todas as Organizações de Direitos Humano; a direita prefere a versão israelita, porque é isso que lhe prescreve a política externa americana. É por isto, porque a sua visão do Médio-Oriente é míope, que a direita hoje se enche de sentimento e exige sentimento à esquerda. Pois a esquerda tem sentimento, o problema é que também tem razão.

Permita-me

"Por Israel, sempre teria havido paz" (Viriato)

A paz das ocupações, das anexações, dos exílios forçados, dos campos de refugiados, dos colonatos, dos bloqueios, dos postos de controlo, da política de assassinatos, das balas contra crianças e jornalistas, das retro-escavadores por cima de activistas, do abate de casas de árabes, do Líbano, de Sabra e Shatila, do arsenal nuclear, dos primeiros-ministros generais, do estado de emergência permanente, do Sharon no pátio das mesquitas, do Ehud Baraq que diz que os árabes são mentirosos por natureza, da Mossad na Noruega, dos ultra-ortodoxos subsidiados, do racismo legal? A paz vetero-testamentária, a paz da terra prometida reclamada duas vezes com sangue, ou a paz dos primeiros-ministros assassinados pela extrema-direita e dos pacifistas israelitas? A paz dos amigos de Israel, do Bush, do Berlusconi, da África do Sul do apartheid, ou a paz destes, destes ou destes? Não precisa de responder, diga só se teria votado, por exemplo, no Amran Mitzna.

Portugal - E estes quem são?

Eu: que sempre achei que as Andorras, as Maltas e os Liechensteins deviam ser substancialmente proscritos das fases de qualificação e obrigados a ter de passar antes por uma pré-eliminatória qualquer. Poupava-nos àquelas interrupções detestáveis do campeonato para ver dois mil patriotas no Estádio do Bessa a assobiar porque só marcámos três golos, deixava o Pedro Barbosa concentrado no Sporting e sempre eram menos uns jogos a ouvir os inefáveis comentadores da RTP1. Qual é a necessidade agora de recriar esta parvoíce?

Scolari: É para acintar ainda mais o FCP.

Eu: PORTUGAL! PORTUGAL!

Para o caso da ascendência não se provar

Franz Kafka, Car Sagan, J. D. Salinger, Leonard Cohen, Paul Simon, Art Garfunkel, Bob Dylan, Joahnn Strauss, Stan Lee, Harrison Ford, Paul Newman, Dustin Hoffman, Petter Sellers, Jerry Seinfeld, Jon Stewart, Steven Spielberg, Stanley Kubrick, Joel & Ethan Coen, Roman Polanski, Oliver Stone, Brian Epstein, Albert Einsten, Niels Bohr, Baruch Spinoza, Sigmund Freud.

O que há em comum entre esta gente toda? São judeus e moram na penthouse do meu imaginário. Mas elidam-lhes a primeira propriedade e terão, à luz de certos critérios idiotas, muitos anti-semitas comunistas.

Por falar em comunistas, note-se que da lista não constam Karl Marx ou Leon Trotsky.

Pronto

O Mata-Mouros chamou-me anti-semita. Acontece que eu tenho ascendência criptojudaica. Agora faça o favor de dizer que tem ascendência árabe.

Esclarecimento

Quando o Aviz, com extrema elegância, publicou o meu mail, tive consciência, não só, que isso adiaria a necessidade de dar uma parte dolorosa do corpo por uma page view, mas também que atrairia a este blogue muitos críticos de direita, sôfregos por me pintar de vermelho vivo. Fiquem então já a saber que declarei-me, aqui, de esquerda menos por afinidade ideológica do que por comiseração pelo estado diminuido da esquerda na blogosfera portuguesa. Por militância, então, nem pensar. Não venham com "o Guterres fez isto" ou, pior ainda, "o Estaline esfolou aquilo", porque é inútil, o que se comprova, de resto, por posts anteriores. Sou, hoje, de esquerda, sobretudo porque a direita portuguesa inclinou-se ou foi empurrada tanto para a extrema-direita, que acabou por lá cair. Foi empurrada pelos resultados eleitorais, não o nego, assim como o guterrismo sofreu até ao fim a angústia e os custos de lhe faltar um deputado para a maioria absoluta. Inclinou-se, desnecessariamente, ao aderir ao chamado partido da guerra. E é aqui que se situa a presente polémica.

Antes de ser de esquerda ou de dispender sequer qualquer comentário sobre política nacional, para além do inevitável "a culpa é do Cavaco", já possuía um interesse assinalável pelas relações internacionais e razoáveis conhecimentos a acompanhar (afinal tive a melhor nota que um homem podia ter a História Institucional e Política Contemporânea). Daqui surgiram dois axiomas: as italianas são as mais giras e os americanos os maiores hipócritas. Os americanos, entenda-se, a sua relação institucional com o outro além-fronteiras. Não falo do culto da bandeira e do hino nem da tradição cultural ensimesmada. O primeiro é-nos sobretudo alíegena e pouco mais que pitoresco, a segunda é mais profunda, mas compreensível e não faz contas com uma elite que frequentemente envergonha a europeia nem com esses pais fundadores, cuja memória é hoje um indiscutível atavio de reaccionários, mas que eram, na altura, uns extravagantes progressistas, que descobriam a eletctricidade ao mesmo tempo que a democracia e debatiam se a língua da União devia ser o Alemão, o Francês ou até o Grego clássico. Falo da política externa, sobretudo a partir de 1945. Falo de um poder ingente que serviu e foi servido por establishments tétricos, onde avultaram Truman e as bombas atómicas, McArthy e as listas negras, Kissinger e a Operação Condor, Reagan e o Irangate. Períodos insuficientemente intercalados por presidências insuficientemente liberais, como a de Kennedy ou, melhor ainda, de Lyndon Johnson e o Vietname ou a de Jimmy Carter e a agitação do Afeganistão. Mas falo acima de tudo desse dia lúgubre em que o Supremo Tribunal investiu esta administração, falo do seu proselitismo armado e declarado, da ideologia que renasceu, como um vampiro rançoso, do imaginário de 1930 e dos pântanos do Mississipi, da ausência da mais ínfima circunspecção ecológica. E pergunto à direita portuguesa, na grande maioria social-democrata, se é neste partido que se revêem e se vale por isso a pena virem dar traulitada num relativo moderado para os defenderem.

terça-feira, agosto 19, 2003

:)

E Bush não esconde o regozijo. Agora, como no ensaio da declaração de guerra ou em qualquer photo opportunity, aquele sorriso, meio estulto, meio sinistro, vem sempre à superfície do semblante pseudo-pesaroso. Habituou-se ao 11 de Setembro e à lógica de que cada vítima do terrorismo vale 100 votos e cada cagaço 10. Go Dean!

Efeitos da Guerra II

Can't live with them, can't live without them. Assim explicam a ambiguidade com que a ONU tem gerido o gigantismo americano, num momento impensavelmente arrojada, desafiando a avidez anglo-saxónica pela guerra, logo a seguir frustrante, oferecendo-lhes, com contrapartidas indigentes, um argumento para a ocupação. Os anti-americanos, entre os quais me conto por mera definição, não compreendem, queriam murros na mesa, boicotes, expulsões, mas as Nações Unidas existem para além da diplomacia grandiloquente e do ludo internacional; são - a menos que a interditem à força - quem lava as feridas humanitárias que não fazem notícia, quem varre o chão depois das festas dos exércitos, quem admnistra os infernos que já não atiçam a chama das redacções, quem tantas vezes mantém países e regiões, se não o mundo, colados com cuspo. Enfim, estão, ainda que inevitavelmente inquinadas pela real politik de cada um deles, acima não só dos EUA, mas também da França, da Alemanha ou da Rússia. É por isso que não mereciam nem o desprezo chauvinista dos neo-convervadores americanos nem tão-pouco a estranha noção estratégica de um qualquer extremista cuja ideia de integridade é bater nas mulheres e nos cães.

Efeitos da guerra

Sem desculpa para quem não sabe distinguir o verdadeiro inimigo, aí têm a estabilidade e segurança no Médio Oriente espalhadas, em sangue, nos jardins de um hotel de Bagdade. Sabia-se que as Nações Unidas tentavam, antes da guerra, salvar vidas, só não se previa que fossem também as próprias.

segunda-feira, agosto 18, 2003

Epítome de um insulto

Este blogue está em 5º lugar no ranking de páginas desencantadas pelo Google quando se lhe pede que procure ""zero" homossexual", como foi o caso do meu último roto leitor. Mas o que me chateia mais não é que o melhor motor de busca do mundo ache que eu não valho nada e gosto de homens; o que me lixa acima de tudo é já não dispor do efeito surpresa quando o desespero me obrigar a dar o cu por uma page view.

O funeral

Não, não é o do exumado anti-comunista - esse só nos lembra que devíamos enterrar de vez a imagem do engenheiro Guterres e lá deixar o Cavaco ganhar as presidenciais. É que já passou ano e meio e o que ele fez no poder continua, como diz o chavão delambido, a ecoar na eternidade. Não se trata do déficit, mas das traições amiudadas à esquerda, neste caso o acolhimento dos desertores do CDS na bancada parlamentar e no governo. Na altura achou-se uma jogada genial, a conquista do centro, um esvaziamento da direita, etc. Mas não era uma estratégia, era pura afinidade ideológica, era a beatice que o repelia do PC e do Bloco de Esquerda para as alianças com o PP e ex PP, foi o núcleo católico mais denso que a camada socialista que, no paroxismo, levou à triste figura do referendo sobre o aborto. E agora os custos continuam a contabilizar-se. Já nem pode este PS tentar meter o Portas no seu lugar, que lá surde um fantasma de antanho, directamente da bicha para ser anjinho, para lembrar que o outro PS, o manchado de azul e amarelo, fez o mesmo com a mesma pasta. E não vale a pena vir dizer que o tipo é obviamente reaccionário, seria mesquinho e a solidariedade intra-governamental sufoca qualquer argumento do género. Tudo culpa do Guterres. Aliás, quase tudo é culpa do Guterres, incluindo o Paulo Portas e o Durão Barroso.

EUA e Canadá

É sintomático das diferenças filosóficas entre os dois países o que os responsáveis de cada um proferiram sobre o apagão. Enquanto Bush sugeriu o reforço da rede energética, o P.M. de Ontário recriminou os respectivos clientes por consumos frívolos. O que o primeiro diga já não pasma, até porque, ao que consta, é a divina inspiração que lho dita, e depois da primeira obra, que ainda vende milhares, não voltou a ditar nada de jeito. O problema é que a dimensão imperial dos Estados Unidos, se é discutível culturalmente, politicamente e até economicamente, é categórica no frágil domínio do ambiente. Os americanos consomem 35% dos recursos mundiais e são responsáveis por outro tanto ou mais da poluição global. Quanto pensamos nisto, a preferência do sr. Bush por dogmas religiosos em prejuízo das certezas científicas que agoiram a ruína do planeta passa do burlesco, do infeliz ao dramático. Somos todos fumadores passivos desse país anafado e arrogante e não podemos sair do restaurante, nem sequer mudar de mesa. Resta-nos recusar imitá-lo e enfiar humildemente a carapuça do P.M. de Ontário, ainda que entre nós os apagões sejam culpa das cegonhas. Resta-nos, para além de não calar a indignação e financiar a guerrilha do Iraque, inflectir alguns hábitos e acabar com outros. É o que tenho feito nas últimas semanas, pelo que está ao alcance de qualquer imbecil sem imaginação. Exemplos:

Reciclar, comprar lâmpadas económicas, usar chuveiros de baixo caudal, instalar filtros de ar nas torneiras, estancar a água equanto nos ensaboamos, lavamos os dentes ou fazemos a barba (sugestão cordial da Fernanda Ribeiro), isolar a casa em vez de gastar em sistemas de aquecimento e refrigeração, usar pilhas recarregáveis, evitar tudo o que seja descartável, ou, finalmente, não comprar produtos de marcas que testam em animais, cuja lista se encontra aqui.

Sobram muitas sugestões, sendo a maioria para mulheres, já que tratam de coisas como detergentes e produtos para o fogão. Outras mais omiti por manifesta falta de lata, pois ainda não me obriguei a segui-las.

Ass: Captain Planet, igualmente subscritor da carta aberta para a revolta nos quartéis enquanto lá estiver este ministro da defesa.

domingo, agosto 17, 2003

A última

Não conheço melhor refutação do princípio antrópico que o facto de a evolução ter levado a que fosse eu a limpar a merda do gato.

sábado, agosto 16, 2003

Académica - Sporting

O Beto estragou metade da parangona que já tinha preparada:

Boloni e bigode de Artur Jorge vingados.

Links

Aí estão eles finalmente, suscitados, como avisado, pelo regresso do Posto de Escuta, a cuja actividade cauciono a precariedade desta lista.

Alguns - talvez, a seu tempo, todos - não merecerão objectivamente a qualificação de "ermos". Se for essa a indignada convicção dos respectivos autores, é favor subornar-me, que eu retirarei a referência sem quaisquer outros custos. Quanto à omissão dos "famigerados", é pura mesquinhez e serve para me compensar de ter resistido a cometer a monstruosa arrogância de apor outra pequena lista sob a epígrafe "a não visitar", onde caberiam todos aqueles blogues cuja relação inversa entre as afluências e a qualidade atinge o escândalo.

Espero, de qualquer modo, ter aplacado aqueles que não gostam de blogues sem links. Agora um desses podia aplacar-me a mim e ocupar menos tempo a falar da terrinha.

sexta-feira, agosto 15, 2003

Sexo de Verão

Oh yes baby, blow me.

Exterminador III

Não interessam lá os efeitos especiais, que nem transcendem o antecedente, nem a intensidade da acção, que é banal, nem sequer o humor muito razoável. Interessa o que resulta narrativamente, talvez até ao acaso, do que ficou para além da promoção do candidato à Califórnia - a glorificante submissão do género humano a esse destino arquétipo, que nunca deveria ter abandonado, - a luta pela sobrevivência. Sem intenção, este filme repõe o limite do que é humano, reservando o sobre-humano para as máquinas: a abnegação, a determinação, o sacrifício e todas as proezas absurdas que o futurismo torna verosímeis. E tudo culmina num dos melhores endings que Hollywood já produziu. Now I hope he'll be back.

quinta-feira, agosto 14, 2003

Desmotivação

Estou à beira de convidar o Mourinho para orientar a minha tese.

terça-feira, agosto 12, 2003

Proposta de candidatura ao Herman Sic

Tenho 12 anos.

Proposta de candidatura ao Cabaré da Coxa

Não conseguem apagar os fogos? É fácil! Mandamos para lá o George Michael vendado e dizemos-lhe que está numa casa de banho! Tau! Ah, pois é!

Proposta de candidatura ao Levanta-te e Ri

No meio da polémica dos incêndios, ainda ninguém se lembrou de criticar os bombeiros por não limparem o mato facial. Se uma fagulha se apodera de um daqueles bigodes, não há canadair cheio de aftershave que acuda.

segunda-feira, agosto 11, 2003

Que fazer com isto?

"Epá O Miguel Bombarda tem serviço round' clock...
Este gajo has a serious problem or what?
" (sobre mim do gajo que não lava o cabelo e limpa o ranho ao verso da t-shirt).

Se ao menos soubesse a que post alude (talvez o da ameça de infanticídio, mas foi a alternativa que a natureza me deixou, depois de me recusar a surdez, a pedofilia ou a feminidade). E enquanto não souber, não riposto, até porque pode ser um elogio - em cujo caso tu é que tens um serious problem, man.

domingo, agosto 10, 2003

Links

Virão quando voltar o Posto de Escuta. Até lá não estou para repetir as listas do costume, nem conheço blogues alternativos em quantidade e qualidade suficientes.

sábado, agosto 09, 2003

O rei vai roto

"E como quer que o elRei muito amasse, mais que se deve aqui de dizer...".

Foi assim, numa frase, que um cronista lançou para a eternidade a fama de homossexual de um rei que viveu um século antes dele. Ora, ainda só vamos na posteridade e o boato já vai aqui:

"O mesmo que casou com D. Constança e se apaixonou por D. Inês de Castro e por um escudeiro que, num acesso de ciúmes, apenas, D. Pedro mandou castrar".

Se fazemos fé e nos regalamos sem reserva na insinuação de Fernão Lopes, então façamos o favor de levar à letra também o que o mesmo diz sobre as razões que animaram D. Pedro para mandar "cortar aqauelles menbros, que os homeens em moor preço tem" ao seu querido escudeiro, as quais se fundam, no lugar de ciúmes, no ímpeto justiceiro do rei, que assim quis castigar o moço por andar a provar a mulher de um corregedor, por quem o rei tinha igual estima, embora puramente institucional.

Assim como Alexandre não deixou de ser grande por gostar de rapazinhos, D. Pedro não precisava de sentimentos efeminados para dormir com vassalos, nem tão-pouco para os estropiar. Pelo menos é o que afirma o dr. Pedro Strecht, que, sabe-se agora, tratou-os aos dois.

Não sei porque é que compro

Salva-se parte do José Cutileiro, aquela parte ainda genuinamente moderada e não infectada pela americanite; salva-se uma ou outra anedota social da "Gente", geralmente aquelas que mereciam o frontespício da secção principal; salva-se o "Emprego", na edição online; salva-se a caricatura; salva-se o "Quiosque" e mais nada. Tudo junto, perfaz, no máximo, duas páginas. O resto é lixo; as parangonas que são meros chamarizes, desmentidas no desenvolvimento pelo mais descarado servilismo, as opiniões internas, que fazem do Povo Livro um destacável do Avante, os artigos encomendados, o perfunctório absoluto nas reportagens, o recurso desavergonhado às traduções, a concorrência à Caras, o golf, os vinhos, os caminhos queques de Portugal. O resto são eucaliptos que morreram em vão.

Enfim, sabe-se definitivamente que um jornal não presta quando nem serve para ler na casa-de-banho. A partir de hoje é oficial, o Expresso não vale uma merda.

Ensaio de epitáfio

Se este blogue fosse um incêndio, nem sequer era um daqueles circunscritos, mas um fogo apagado sem chegar a notícia a golpes de ramo de oliveira. Qualquer dia pára de se reacender.


P.S. - O site que me proporciona os comentários está em manutenção. Pede desculpa pelo transtorno e assevera que está trabalhando para melhorar seus serviços para mim. Enquanto isto dura, podem sempre usar o email indicado à direita. O primeiro a fazê-lo ganhará o prazer de o desvirginar.

sexta-feira, agosto 08, 2003

Chega!

Parem com isto ou esta ervilha passa a vermelha!





























Penitência

Dizem que eu sou muito duro com o governo. Eu respondo que é uma vocação recente, com apenas ano e meio.
Na verdade, antipatizava, como toda a gente, com o guterrismo, achei justo o descalabro das autárquicas, excepto o que calhou a Lisboa, e até me passou pela cabeça, durante uma febre alta, votar PSD nas legislativas, antes do dr. Durão Barroso o desaconselhar, nos debates com o dr. Ferro Rodrigues. Hoje, depois do PSD B e do PP terem já mostrado ao que vinham e o que valem, a minha aversão é, mais uma vez, racional e deve muito pouco a qualquer inclinação natural ou hereditária. Por isso mesmo, por compreender a crítica e para não parecer monolítico, decidi indicar com sinceridade este site, onde se elenca as qualidades deste executivo.

Restauração

Ainda ensaiei a simulação de um golpe de estado do Bloco de Esquerda, que me obrigaria a revogar a revogação, sob pena de ir para os calabouços da FCSH, onde nos torturam privando-nos de papel higiénico, mas optei antes por um comunicado lacónico:

Estava a brincar!

Quanto à sexualidade, garanto-vos que é a autorizada pela Igreja.

Revogação

O meu amigo A., entre elogios à minha eloquência, criatividade e humor, disse que eu não era nenhum Pedro Mexia, numa óbvia alusão aos meus dotes físicos. Tal significa que o meu amigo tem bom gosto, mas também uma grave carência de testosterona. Ora, eu sou de esquerda, mas não sou paneleiro, por isso o convite formulado atrás fica sem efeito. Remeto o meu amigo A. para os seguinte blogues, onde certamente o acolherão sem os mesmos pudores.

O Grande Sertã

In TSF Online:

O Pentágono admitiu, quinta-feira, ter usado bombas de napalm em Portugal. Foi a solução encontrada para permitir o avanço dos militares da coligação, argumentou um responsável sobre anonimato.

«Havia um inimigo difícil de desalojar e a utilização destas bombas salvou vidas aos nossos. Não houve qualquer violação internacional», declarou um responsável do Pentágono sob anonimato, reconhecendo o uso de bombas de napalm durante a guerra em Portugal.

Aviões norte-americanos lançaram bombas do tipo MK-77 em Março na região Centro, contra guardas republicanos que defendiam uma ponte sobre o Canal Cavaco e junto a uma ponte sobre o rio Lis, a Norte da cidade de Leiria.

«Deitámos napalm naquelas duas pontes. Infelizmente, havia lá pessoas que pudemos ver no vídeo. Eram guardas republicanos. Não foi um modo agradável de morrer», afirmou o coronel Randolph Alles, comandante de uma unidade de fuzileiros norte-americanos, ao «San Diego Tribune».

Bem-vindo

Acabei de abrir a porta a um amigo. Nem tive tempo de limpar a casa, o que equivaleria a apagar todos os posts. Resta-me tentar torná-lo cúmplice deste crime de mediocridade convidando-o a colaborar.

Já agora: caros três ou quatro leitores habituais do T-Zero, este é o A.. A., esta é a triste medida do meu talento.

quinta-feira, agosto 07, 2003

Contra os bretões...

Estes tipos vêm para aqui jogar como se estivessem a partir bares no Algarve: "nice weather, inferior people, let's be rude". Se eu queria saber o que vale este Sporting, tive de me contentar com a opnião dos senhores ingleses, para quem não vale sequer o esforço de contrair os adutores. É nestas alturas que lembro com saudade o Regicídio.

quarta-feira, agosto 06, 2003

!

Afinal bastou um novo post.

Teste à paciência

Não, não foi um ensaio de pós-pós-modernismo. Tentei tudo para apagar os dois últimos posts, mas parece que vão ficar por aqui até desaparecerem nos arquivos. Que a animação do mundo ou da minha imaginação façam com que isso aconteça depressa.

terça-feira, agosto 05, 2003

A culpa II

Há quatro meses, era nomeado um engenheiro naval para o recém-criado serviço de bombeiros e protecção civil, com a seguinte alusão às suas habilitações específicas: "O que me bastou sentir foi um mínimo de conhecimentos para ter capacidade de aprendizagem em tempo útil". Temos que agradecer ao governo o facto de não se estarem a verificar incêndios no mar.

A culpa

A temperatura média subiu dois ou três graus, o investimento na prevenção de incêndios desceu 44%, na criação de equipas de sapadores florestais 80% e na protecção de florestas 38%. Em Espanha, cinco vezes maior em superfície e de clima ainda mais quente e seco, ardeu dez vezes menos área florestal do que em Portugal.

segunda-feira, agosto 04, 2003

Ainda sou do tempo

Em que a culpa era do governo quando uma velhinha torcia um pé no passeio. Mania também do governo, que expedia logo o ministro mais respectivo para fazer um ar condoído ao lado da senhora, ou do polícia baleado pelo preto, ou do preto baleado pelo polícia, ou das vítimas da cheia, ou da ponte caída. Agora o país é um fósforo e parece que nem há governo.

domingo, agosto 03, 2003

Adeus

Cá fiquei, numa Lisboa vazia, a espatifar ferraris, a comer conservas nos hipermercados e a ver pornografia em clubes de vídeo. E nem preciso de me preocupar com hordas de zombies, que neste momento marcham lentamente para o Algarve.

sábado, agosto 02, 2003

Viagem

De volta do Alentejo ansiolítico, infernizado, também ele, pelos ventos de Espanha. Fui ver um incêndio que ardia, aliás, amorroava pelo restolho, enquanto dois tractores com uma pressa prescindível lavravam os campos à frente para o atalhar. Mas antes fosse só o fogo, provavelmente ateado por um relâmpago. Também por obra do vento, a aldeia enchia-se de um miasma de azeite, cujas borras aquela gente muito pouco ecológica - já desde o neolítico - despeja há anos para o barranco, já de si um pouco de água baça de detergente que rasteja pelo meio do povo até desaguar numa ETAR que nunca chegou a funcionar e que, por sua vez, verte para uma barragem que finalmente abastece outras aldeias.

Não é só em Castelo Branco que há incêndios, não é só em Leiria que há porcos.

sexta-feira, agosto 01, 2003

Notícias de um Estado racista

Aqui.

Blogs selvagens

Ainda há na blogosfera recônditos deslumbrantes por desbravar. Aqui, para quem não reparou antes.