Outra vez, caro Aviz
Não sou o Jorge Marmelo, nem tão pouco Freud, mas permita-me glosá-lo. É que as suas reacções militantes a qualquer observação que contemple a mais ténue crítica a Israel despertam em mim o entusiasmo pelo exótico, pelo que existe longe ou outrora, neste caso a consciência acerada de que se pertence a um povo e a defesa pressurosa de tudo o que ele comete, sejam as glórias, sejam os delitos:
"Por outro lado, o Jorge aceita o meu «sionismo» e as minhas ideias favoráveis ao estado de Israel. Bom. Essas ideias foram as que, na ONU, permitiram que em 1947 se chegasse à resolução que autorizava a criação de um estado de Israel — e de um estado palestiniano."
Por outro lado ainda, a mesma ONU que invoca para sancionar o sionismo destinava ao ainda inexistente estado árabe quatro vezes mais território do que aquele a que actualmente se chama autónomo, tendo ainda produzido, logo em 67, uma resolução que ainda hoje obriga Israel a acabar com a segunda ocupação, iniciada no mesmo ano.
"Dessa invasão resultou uma derrota militar a que a boa consciência europeia chama ainda hoje «a primeira humilhação»"
Trata-se de uma generalização, não diferente de afirmar que os judeus são todos usureiros. Aliás, a "consciência europeia" começou por aconselhar a Inglaterra e a França a apoiar Israel e a coligarem-se militarmente contra o Egipto em 56.
"e foram mortos 6 milhões de pessoas que não podiam viver livremente em nenhum estado europeu"
Morreram dez vezes mais pessoas, incluindo os 800 prisioneiros soviéticos que inauguraram as câmaras de gás nos campos de concentração. Quanto aos estados europeus, parece que se perdeu a memória da Itália, a pátria do fascismo, que resistiu praticamente à perseguição anti-semita até ser ocupada por tropas alemãs.
"Nessa altura, não sei a quem o Jorge atribuiria a sua parte de razão no sentido da história"
Por favor desista. Não vai fazer de cada crítico de Israel um nazi, mas vai contribuir para que mais anti-racistas critiquem Israel.
"Infelizmente, o dr. Freud nunca escutou os sermões da mesquita de Ansbury Park ou de Gaza, nem as explicações que os sustentam, nem os textos fundamentais do anti-semitismo moderno ou os discursos em árabe de Yasser Arafat."
O dr. Freud dispensaria concerteza a psicanálise para perceber a razão desses sermões, textos e discursos. Como o próprio uma vez disse, "um avião é um objecto fálico, mas também é um avião". Ora a anexação israelita de 77% do legítimo território palestiniano e a expulsão da grande maioria da população árabe são um avião.
"Já agora, uma pergunta: o que pensariam de Israel aqueles que fugiram para Israel, escapando às perseguições nos seus países — da Rússia à Etiópia e à Argentina ou ao Uruguai? Ou outra, impossível: o que pensariam de Israel os que foram esmagados no gueto de Varsóvia, se Israel existisse na altura? Ou teriam sido esmagados?"
Escusa de apelar à conjectura. Alguns desses refugiados pensam de Israel o mesmo que os "europeus de boa consciência".

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