T-Zero

Ressurreição

quinta-feira, julho 24, 2003

Outra guerra

Será possível evitar lições históricas sem atribuir equivalência moral às duas facções de um conflito? O novo revisionismo cultural sobre a Guerra Civil Americana ou pensa que não, ou é incapaz de fazer melhor. Está bem que veio acudir à inquietação daqueles que consideravam caduca a visão distorcida a favor da União. Mas o que se vê é simplesmente a redução do casus beli de cada parte aos discursos de personagens grandiloquentes, que, ainda por cima, exprimem apenas - e apocrifamente - razões irrefutáveis à luz dos valores trans-americanos, como o love of one's home (intraduzível), essa espécie de patriotismo contra a pátria, por um lado, ou a liberdade e o patriotismo a favor da pátria pelo outro. Tiveram, enfim, de fazer batota: a escravatura, que havia até aqui demonizado o Sul, foi grosseiramente omitida, não de toda a história, mas apenas, indecentemente, da linguagem confederada, como se a preservação do modelo económico não perfizesse boa parte das causas para a secessão.

O resultado, no fim, vai para além da reconciliação. É, mais uma vez, a sublimação da nação americana, que é pura até nos seus erros mais iníquos, ao ponto de ser inimputável. Se há guerra civil, é entre irmãos igualmente nobres, de causas igualmente justas. Uns até podem ser esclavagistas, mas tratam gentilmente os seus pretos. Outros querem estuprar as sagradas independências estaduais, mas é em nome da abençoada pátria. É este o quadro improvável da mais recente produção artística sobre a Guerra Civil. Quanto àquela que pinta as outras guerras, aí não há mudança. Veja-se a da Independência, por exemplo: é pegar num filme ou livro sobre a Guerra Civil e substituir uma das partes pelo Diabo com sotaque inglês.