Guerra
Diz alguma historiografia bélica que a modernidade desumanizou a guerra ao exonerar o combatente de ver quem acomete ou mata. Não contente com isso, o exército dos EUA levou a sério um estudo de um sociólogo amador que concluiu, com base em entrevistas, que a grande maioria dos soldados americanos na 2ª Guerra Mundial nunca chegou a disparar a arma, ora com medo insconsciente da represália, como se o inimigo registasse o favor, ou por pura misericórdia. A oficialização deste facto levou à aplicação ao treino militar das teorias comportamentais elaboradas a partir de experiências com animais, e que assentam, simplisticamente, na fórmula estímulo-resultado. Hoje em dia não há exército organizado que abjure esta filosofia e que não condicione os seus elementos a obedecer às ordens como se fossem sinapses. O que se quer é um funcionamento mecânico e já não orgânico. A tecnologia, os voos a alta altitude, a aquisição de alvos por computador, a decuplicação do alcance das armas sublimaram, como as guerras recentes têm apregoado, esse fenómeno. O resultado foi tanto a téctrica superioridade militar dos países mais desenvolvidos como a dispensa de valores que o imaginário, livresco e não só, sempre anexou à arte da guerra - a coragem, a lealdade, a honra, etc. Mas ainda que o imaginário estivesse quase sempre enganado, ainda que não haja corajosos, apenas sobreviventes, ainda que não haja leais, apenas vencedores, ainda que não haja honra, apenas derrota, cercar, bombardear e finalmente matar quatro homens com uma brigada de infantaria, artilharia e meios aéreos não lembrava, arrisco dizer, ao pai de dois deles. Ao menos ressuscitem por momentos o tal imaginário e dêem-lhes o nome de heróis. Um não desmereceria a morte, um outro talvez também não, mas nem a sentença cabia de maneira nenhuma aos Estados Unidos, nem a execução é digna senão do ser mais cobarde, desleal e desonroso.

0 Comments:
Enviar um comentário
<< Home