Domingo à tarde. Despenha-se um sol perfeito sobre a bulevarda do Parque das Nações, mas o vento dispersa-o e lixa tudo. Eu sorvo um iced-tea de pêssego a fingir que é wiskey na esplanada que tiver as gajas boas, virado para o exterior à espera que passem ainda melhores. Passa uma amiúde, passam outras de contemplar a homossexualidade, passam uns ingleses rosados, mas passam sobretudo casais jovens.
Uns recentes. São namorados mais institucionais, de mão largada, ainda aquecidos pelos últimos borralhos de felicidade que o casamento tem para dar.
Outros grávidos. Nestes casos ELA há-de estar radiante, como num orgasmo, a alardear a barriga como se fosse a taça dos campeões. ELE está indiferente, um pouco chateado com a falta de sexo, mas consolado pelo tempo que ela passa ao telefone com a mãe e não o chateia com outras coisas.
Finalmente os pais. Se o miúdo brotou há pouco tempo, ELA guarda ainda um rebrilho do pré-parto e continua a exibir a descendência, agora já cá fora, com orgulho, embora moderado pelas sevícias que lhe causou ao sair. Se já lá vão alguns meses, o desencanto é perceptível. O sorriso esmaecido, o corpo descomposto, quase tudo cede à erosão da terrível rotina da puericultura amadora. Em qualquer dos casos ELE está mudado para sempre. Caminha ostensivamente um passo á frente ou atrás dela e do carrinho, e a única coisa que exibe são as trombas, cerradas pela consciência de que não se pode queixar, muito menos - logo agora! - desistir, fugir, divorciar-se, dizer que não é dele.
É um testemunho eloquente das violências que a civilização inflige à natureza. Neste caso, incumbir - cada vez mais igualitariamente - o homem dos cuidados com a prole que só o instinto maternal tornam suportáveis. Olha os cavalos-marinhos, olha os passarinhos, dir-me-ão. Eu pergunto - estamos mais próximos dessas espécies amaricadas ou dos felinos, irmãos mamíferos, cujos varões abjuram as próprias crias e eliminam as dos outros como quem baixa as persianas para dar uma queca? Destes, concerteza, mas algures mais para o meio. Não tenho curiosidade em saber com quantos bebés se pinta uma parede de vermelho. Mas, acreditem, mulheres, tenho - eu e qualquer Homem - ainda menos vontade de sacrificar o pouco tempo que a vida moderna se esquece de nos usurpar a mudar as fraldas, aquecer o leite ou esperar que puto durma. Levá-lo, mais tarde, à escola, talvez. Ensinar-lhe sobre a vida - incluindo o conteúdo deste artigo - há-de ser engrandecedor. Agora as outras mundanices, os trabalhos braçais que preenchem os primeiros anos, não! Só com licença de parto permanente, do emprego e do cônjuge, para que ao menos sobre tempo. De resto invoco, para mim e para todos aqueles que preservam a sua essência taxicológica, o direito de ser assim!

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