Andam por aí a comentar o estudo de uma universidade norte-americana que favorece a eficácia das multas de trânsito. Mas, como nas nossas estradas o Estado arrecada menos que os ciganos lava-vidros ou, já agora, que a GNR, há que procurar noutro lado o elixir para os males rodiviários que afligem Portugal. Acontece que eu sei de um, precisamente pelo preço de uma multa portuguesa, e ainda se poupa dinheiro a todos nós e dignidade aos tetraplégicos. É simples:
Acabe-se com a publicidade à condução desportiva. Qual? Nunca viram políticos, artistas ou futebolistas a exortarem em público ao uso do preservativo ou ao desuso das drogas? A favor do andar-na-ganga fazem exactamente mesmo. Há tempos foi o ministro da defesa e o seu séquito; mais recentemente uma alta comitiva do PS, onde se encontrava o respectivo secretário-geral que, meses antes, ao fazer o merecido elogio fúnebre de João Amaral e instado pela entrevistadora a contar um episódio comum que o marcara, lembrou-se de uma viagem "à rally" Algarve-Lisboa. Jogador da bola não haverá nenhum que acelere menos a conduzir do que a festejar um golo ou a ir atrás do João Pinto. E quanto a artistas, ilustra-se com o Toy, que, embora desencorajando muita gente de bom gosto, com horror a assemelhar-se-lhe, lá se gabou de ter o pé pesado, e ainda com o Herman José (pedófilo light?), que conseguiu melhor, ao gozar com o Toy por ainda lhe faltar muito peso no pé. Mas se há quem atraiçoe as duas primeiras causas, desde o artista que faz umas linhas ao futebolista que não quer nada entre si e a sua puta, o amor ao acelaranço não podia ser mais genuíno. Não querem tempo de antena, dispensam dinheiro; arranjem-lhes uns quilómetros de alcatrão que eles fazem-no pro bono. E. como eles. outros tantos anónimos que contribuem para tornarem a causa mais visível com o que tiverem de apelativo, seja um carrão, seja um palminho-de-cara, seja puro voluntarismo.
Mais simples ainda?
O problema é que a realidade por detrás desta ironia presta-se ao mais comum e eficiente mecanismo de marketing e publicidade: a associação de um produto ou de um comportamento ao sucesso. Quer fazer parte do casal perfeito, que acorda fresco e sem ramelas na casa ideal, ao lado dos filhos de sonho e sai todos os dias jovialmente à rua sob um sol radiante? Coma corn-flakes. Quer ser uma dona-de-casa com um corpo de 25 anos, um marido de 20 e uma cozinha de 40 metros quadrados? Esfregue o chão com Sonasol. Ora, quer ser famoso, rico e comer gajas boas? Conduza na esgalha.
No dia em que os próceres desta nação fizerem ver, por mero exemplo próprio, que não foi preciso dar 200 no falómetro para chegaram onde estão, seguir-se-ão talvez os outros: advogados de BMW, que inspirarão os construtores-civis de mercedes, que reeducarão os cromos de subaru impreza, que ensinarão os azeiteiros de citroen branco, que pararão de picar os jovens de smart, que farão, finalmente, ver aos invejosos de todos os anteriores que é melhor deixarem de ser parvos e passar a conduzir como eu, ou seja - segundo o meu sincero instrutor - como os velhos.

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