T-Zero

Ressurreição

quinta-feira, julho 31, 2003

Silly government

Depois da profícua conferência de impressa de sua excelência o Primeiro-Ministro no Porto, posso adiantar as iniciativas/medidas/reformas da responsabilidade deste governo a anunciar na próxima conversa com a Nação:

- A Restauração, depois do PS ter perdido a nossa independência para Espanha.

- A descoberta do caminho marítimo para a Índia, dividindo o mérito com o ministro da defesa e a sua querida Marinha.

- A descoberta do Brasil, que o Dr. Durão Barroso acordou, sob os auspícios do Dr. Santana Lopes e do Sr. Machado de Assis, com o seu amigo Lula da Silva, aquando da visita deste a Portugal.

- A mui prestigiante eleição pontifical de Pedro Hispano, prémio pela fidelidade católica de Portugal demonstrada pela persistência da proibição do aborto e pelo currículo anti-contracepcional do Presidente da Assembleia da República (Apropriadamente, o Presidente da Câmara de Lisboa anunciou que a avenida João XXI mudará o seu o nome para o do primeiro papa português).

Mais modestamente:

- A instituição da Casa Pia, com a edificação de colégios onde antes havia bordéis infantis.

- A compra de dois submarinos emprestados, que vai para além da necessidade de três.

Finalmente, numa nota partidária:

- A alteração do lema do PPD/PSD/CDS/PP para "O Pedroso está queimado e o Ferrinho também não se safa".

quarta-feira, julho 30, 2003

Muito honrado

Vejam quem veio acudir à minha ansiedade de feedback. Não é só a vida que tem destas ironias, os blogues também. A propósito:

A sociologist is walking along the street and comes
across a man beaten up and left for dead in the gutter. The sociologist
rushes up to the man, cradles his head in his arm and says: "Can you tell me
who did this to you? I think I could really help them".

Calor

Durante a noite derreti. Pelo amanhecer, uma brisa avulsa entrou pelo quarto e devolveu-me ao estado sólido. Agora não tenho a certeza se fiquei na mesma, se o processo me desfigurou imperceptivelmente ou, com sorte, corrigiu algum defeito. Ou até se algum mosquito se diluiu comigo e me outorgou super-poderes ou a vontade de andar à volta de candeeiros.

terça-feira, julho 29, 2003

Testing

Decidi - à experiência, porque tenho preconceito - lançar a rede dos comentários a ver o que lá cai, sabendo já que provavelmente não vai cair nada.

Igualdade entre os sexos

Se a Sic Mulher faz parte do pacote básico, porque é que o Sexy Hot e a Sport Tv são a pagar?

Comedy Left

A ver o compacto do incrivelmente esquerdista Daily Show, apesar da Sic Radical ter rebobinado a cassete.

Urgente

Pede-se o regresso do Posto de Escuta. Aventurei-me a demandar blogs à mão, naquelas listas torrenciais de actualização, folheei umas dezenas e nem um, nem um único que valesse a pena guardar. Não me queria resignar à meia-dúzia que espremi da plêiade.

A insustentável leveza do Presidente da República

Mais uma declaração, tudo na mesma. Que me lembre, desde há dois anos, o Dr. Jorge Sampaio só não foi inconsequente numa ocasião e com o pior resultado possível - sobre Barrancos. De resto, vai produzindo discursos vãos, umas vezes com frete, outras com irritação, mas sempre com a eventual mensagem esmagada sob o complexo da estabilidade e a obsessão do apaziguamento. O problema é que nem sempre foi assim. Ninguém deixou de notar ou terá a lata de negar o gozo pintado no rosto quando respondeu ao pedido de demissão do anterior primeiro-ministro. Pior ainda, a mesquinhez quando escovou um ou dois agentes da GNR por, pasme-se, se terem enganado no caminho. Tanto num caso como no outro, descontada a diferença partidária, talvez tenha querido emular o Dr. Mário Soares. Se assim foi, talvez também aguarde a sua manifestação na ponte, o seu ensejo para desabar no governo. Mas e se o Dr. Mário Soares tivesse apanhado esta guerra do Iraque? Vou arriscar uma profecia. No fim do mandato e mais ainda na reforma, o Dr. Sampaio vai sofrer um ataque de contrição e vai passar deste extremo-centro para a extrema-esquerda, de envergonhar até o próprio Dr. Soares. É que nesta cadência, passará de apelo à serenidade a apelo à serenidade, à espera do grande escândalo ou do grande desmando do PSD/PP, até não ter mais tempo e até à compreensão - dolorosa - de que todas as oportunidades, algumas delas irrecusáveis, ficaram para trás.

N. B. - Não se trata do Paulo Pedroso, nem sequer do PS. Haja culpa ou conspiração ou simplesmente erro, caberá sempre à justiça apurar. Trata-se da ideia de que esta é trôpega, no mínimo, corporativa, de certeza, decadente, provavelmente, incapaz, esperamos que não, que se prostitui aos partidos, deus nos livre! Mas deus não existe ou não tem tutela sobre Portugal, pelo que sobra, entre uma justiça sem auto-crítica e um governo que está regalado com o que se passa, o Presidente da República.

segunda-feira, julho 28, 2003

TSF

A TSF nunca será incrivelmente esquerdista enquanto a sua versão online anuir a publicar fotografias do primeiro-ministro sempre sorridente. Até lá continuará a ser apenas o único órgão de informação sério em Portugal.

Marte mais perto

É o sinal para aqueles que relêem Joyce na casa-de-banho para desfastiar de Jorge Luis Borge virem armar-se em astrónomos amadores, poetas que presumem trepar a ascarpa da ciência para ir beber directamente à nascente primordial. Eu também já tive a mania, de ler o Ulisses e as Ficções e de escrutar o céu. Vi, de um telescópio barato, as luas, a nossa e as de Júpiter, o anel de Saturno, Andrómeda, a nebulosa de Orionte, as Plêiades, e a olho nu as melhores Leónidas da última década. Perdi a mania. Hoje o assombro vive em mim.

domingo, julho 27, 2003

Descubra as diferenças



AntesDepois

















E ainda:


CisjordâniaGaza




















Outra vez, caro Aviz

Não sou o Jorge Marmelo, nem tão pouco Freud, mas permita-me glosá-lo. É que as suas reacções militantes a qualquer observação que contemple a mais ténue crítica a Israel despertam em mim o entusiasmo pelo exótico, pelo que existe longe ou outrora, neste caso a consciência acerada de que se pertence a um povo e a defesa pressurosa de tudo o que ele comete, sejam as glórias, sejam os delitos:


"Por outro lado, o Jorge aceita o meu «sionismo» e as minhas ideias favoráveis ao estado de Israel. Bom. Essas ideias foram as que, na ONU, permitiram que em 1947 se chegasse à resolução que autorizava a criação de um estado de Israel — e de um estado palestiniano."

Por outro lado ainda, a mesma ONU que invoca para sancionar o sionismo destinava ao ainda inexistente estado árabe quatro vezes mais território do que aquele a que actualmente se chama autónomo, tendo ainda produzido, logo em 67, uma resolução que ainda hoje obriga Israel a acabar com a segunda ocupação, iniciada no mesmo ano.

"Dessa invasão resultou uma derrota militar a que a boa consciência europeia chama ainda hoje «a primeira humilhação»"

Trata-se de uma generalização, não diferente de afirmar que os judeus são todos usureiros. Aliás, a "consciência europeia" começou por aconselhar a Inglaterra e a França a apoiar Israel e a coligarem-se militarmente contra o Egipto em 56.

"e foram mortos 6 milhões de pessoas que não podiam viver livremente em nenhum estado europeu"

Morreram dez vezes mais pessoas, incluindo os 800 prisioneiros soviéticos que inauguraram as câmaras de gás nos campos de concentração. Quanto aos estados europeus, parece que se perdeu a memória da Itália, a pátria do fascismo, que resistiu praticamente à perseguição anti-semita até ser ocupada por tropas alemãs.

"Nessa altura, não sei a quem o Jorge atribuiria a sua parte de razão no sentido da história"

Por favor desista. Não vai fazer de cada crítico de Israel um nazi, mas vai contribuir para que mais anti-racistas critiquem Israel.

"Infelizmente, o dr. Freud nunca escutou os sermões da mesquita de Ansbury Park ou de Gaza, nem as explicações que os sustentam, nem os textos fundamentais do anti-semitismo moderno ou os discursos em árabe de Yasser Arafat."

O dr. Freud dispensaria concerteza a psicanálise para perceber a razão desses sermões, textos e discursos. Como o próprio uma vez disse, "um avião é um objecto fálico, mas também é um avião". Ora a anexação israelita de 77% do legítimo território palestiniano e a expulsão da grande maioria da população árabe são um avião.

"Já agora, uma pergunta: o que pensariam de Israel aqueles que fugiram para Israel, escapando às perseguições nos seus países — da Rússia à Etiópia e à Argentina ou ao Uruguai? Ou outra, impossível: o que pensariam de Israel os que foram esmagados no gueto de Varsóvia, se Israel existisse na altura? Ou teriam sido esmagados?"

Escusa de apelar à conjectura. Alguns desses refugiados pensam de Israel o mesmo que os "europeus de boa consciência".

A mentira e o mentiroso

Ver "O milagre das licenças" in Expresso, Única, p. 8.

sábado, julho 26, 2003

A escola

Lembrei-me quase a adormecer, ainda a tempo de não me contaminar o sonho, do cheiro a serradura, do soalho por envernizar, do pó de obra, do ar macilento da escola que fui inaugurar na minha 3ª classe. Nos primeiros dias, numa das salas, uma profusão de moscas encurraladas cansava-se contra as janelas fechadas. Nós, por desfastio, enquanto não nos entregavam uma professora definitiva, e por perversão, entretínhamo-nos a apanhá-lhas facilmente, a arrancar-lhes as asas e a guardá-las nos estojos. Um dia trouxe uma para casa. Abri o estojo e pousei-a delicadamente no chão à espera que se comportasse como um cão em miniatura. Em vez disso, morreu e com ela todo o entretenimento.

Hoje, se fosse juiz e um advogado de um pedófilo alegasse que o seu cliente era a reencarnação de uma mosca, quem sabe.

sexta-feira, julho 25, 2003

Osterreich

Alguém que leu o último post decidiu fazer queixinhas a um austríaco, que, por sua vez, achou que era caso para me insultar em Inglês. Como estou seguro que a ironia se perdeu algures na comunicação, decidi colocar ao dispor do queixoso o texto original, tendo recorrido, escrupulosamente, aos serviços de terceiros (Google) para o traduzir. Primeiro do Português para o Inglês; depois, para lhe imprimir alguma semântica germânica, do Inglês para o Alemão; finalmente, como foi essa a língua em que me contactou, de novo para o Inglês. Ora veja com os seus próprios olhos (however it sees with its proper eyes):

It has each possible thing of the half-breed on the Austrians, a small natural mixture of German and Italian, which arrive, to remember in order to form, in order grifo. It was this, in a journey of the convoy of Vienna for Venice, was enervantependelbewegung a Austrian inadvertent pair between the indifference and the confidenceness the this distraíu I contents of the subject for the landscape, which this silence represent today in my enlevos: hordas the courageous Kiefern, with a Bavarian air, aligned as in one March, but admiravelmente at the same time in the wasteland and in tenebrous. Lucky it does not have nothing from Italian in this connection - how much to geography, connection, to reasonably in an educated manner.

quinta-feira, julho 24, 2003

a marca ocidental

Há qualquer coisa de híbrido nos austríacos, uma mistura pouco natural de alemão e italiano que chega a fazer lembrar um grifo. Foi isso, numa viagem de comboio de Viena para Veneza, foi a oscilação enervante de um casal acidental austríaco entre a indiferença e a familiaridade que me distraíu do conteúdo do compartimento para a paisagem que ainda hoje figura nos meus enlevos: hordas de pinheiros bravos, com um ar bávaro, alinhados como numa marcha, mas simultaneamente agrestes e admiravelmente tenebrosos. Felizmente, não há nada de italiano nisso - quanto à geografia, o anschluss até fazia sentido.

Outra guerra

Será possível evitar lições históricas sem atribuir equivalência moral às duas facções de um conflito? O novo revisionismo cultural sobre a Guerra Civil Americana ou pensa que não, ou é incapaz de fazer melhor. Está bem que veio acudir à inquietação daqueles que consideravam caduca a visão distorcida a favor da União. Mas o que se vê é simplesmente a redução do casus beli de cada parte aos discursos de personagens grandiloquentes, que, ainda por cima, exprimem apenas - e apocrifamente - razões irrefutáveis à luz dos valores trans-americanos, como o love of one's home (intraduzível), essa espécie de patriotismo contra a pátria, por um lado, ou a liberdade e o patriotismo a favor da pátria pelo outro. Tiveram, enfim, de fazer batota: a escravatura, que havia até aqui demonizado o Sul, foi grosseiramente omitida, não de toda a história, mas apenas, indecentemente, da linguagem confederada, como se a preservação do modelo económico não perfizesse boa parte das causas para a secessão.

O resultado, no fim, vai para além da reconciliação. É, mais uma vez, a sublimação da nação americana, que é pura até nos seus erros mais iníquos, ao ponto de ser inimputável. Se há guerra civil, é entre irmãos igualmente nobres, de causas igualmente justas. Uns até podem ser esclavagistas, mas tratam gentilmente os seus pretos. Outros querem estuprar as sagradas independências estaduais, mas é em nome da abençoada pátria. É este o quadro improvável da mais recente produção artística sobre a Guerra Civil. Quanto àquela que pinta as outras guerras, aí não há mudança. Veja-se a da Independência, por exemplo: é pegar num filme ou livro sobre a Guerra Civil e substituir uma das partes pelo Diabo com sotaque inglês.

quarta-feira, julho 23, 2003

Blogues de destruição massiva

Apesar da minha exortação, a autora de criticar os blogs parou. Das duas uma: ou foi de férias, ou ainda a vão encontrar num bosque com um pulso cortado e uma caixa de analgésicos ao lado. Num dos casos, será de perguntar ao Abrupto se tem sangue nas mãos e vai demitir-se.

Prazer

Gosta de carambolar, mas é solitário, não suporta salas de jogos ou não quer cometer o novo-riquismo de comprar uma mesa para a sala? Vá aqui. O ambiente não se recomenda muito e encontra-se desde portugueses de bigode até americanas proselitistas de 14 anos, mas é gratuito, a simulação é perfeita e pode sempre abrir um jogo reservado e combinar com um amigo.

Guerra II

A leitura nocturna dos jornais ultramarinos (ingleses e americanos) veio acrescentar um dado à notícia: tinha 14 anos, era neto de Saddam e também foi morto. Mas desde que tenha sido às mãos de um texano, foi tudo conforme à lei.

Seja como for, ainda que não estejam dispostos a depositar o título de heróis-por-um-momento na campa destes desgraçados, por não conseguirem subtrair o que seja às contas que tinham que prestar à Justiça, concordarão, estou seguro, que esta então não é heroína de certeza, apesar de toda a propaganda e efeitos especiais em contrário, e ainda que tenha o karma nos píncaros.

Guerra

Diz alguma historiografia bélica que a modernidade desumanizou a guerra ao exonerar o combatente de ver quem acomete ou mata. Não contente com isso, o exército dos EUA levou a sério um estudo de um sociólogo amador que concluiu, com base em entrevistas, que a grande maioria dos soldados americanos na 2ª Guerra Mundial nunca chegou a disparar a arma, ora com medo insconsciente da represália, como se o inimigo registasse o favor, ou por pura misericórdia. A oficialização deste facto levou à aplicação ao treino militar das teorias comportamentais elaboradas a partir de experiências com animais, e que assentam, simplisticamente, na fórmula estímulo-resultado. Hoje em dia não há exército organizado que abjure esta filosofia e que não condicione os seus elementos a obedecer às ordens como se fossem sinapses. O que se quer é um funcionamento mecânico e já não orgânico. A tecnologia, os voos a alta altitude, a aquisição de alvos por computador, a decuplicação do alcance das armas sublimaram, como as guerras recentes têm apregoado, esse fenómeno. O resultado foi tanto a téctrica superioridade militar dos países mais desenvolvidos como a dispensa de valores que o imaginário, livresco e não só, sempre anexou à arte da guerra - a coragem, a lealdade, a honra, etc. Mas ainda que o imaginário estivesse quase sempre enganado, ainda que não haja corajosos, apenas sobreviventes, ainda que não haja leais, apenas vencedores, ainda que não haja honra, apenas derrota, cercar, bombardear e finalmente matar quatro homens com uma brigada de infantaria, artilharia e meios aéreos não lembrava, arrisco dizer, ao pai de dois deles. Ao menos ressuscitem por momentos o tal imaginário e dêem-lhes o nome de heróis. Um não desmereceria a morte, um outro talvez também não, mas nem a sentença cabia de maneira nenhuma aos Estados Unidos, nem a execução é digna senão do ser mais cobarde, desleal e desonroso.

terça-feira, julho 22, 2003

Despromoção

Finalmente os bloguistas do costume (alguns) foram remetidos para onde onde ninguém os vê, ainda que apenas por uma hora.

"reasonable season"

Pela primeira vez, em vez de escrever aqui, apeteceu-me trabalhar na tese. E nota-se, pela total falta de interesse deste post. Agora espero que se note também na tese.

domingo, julho 20, 2003

Presunção

A criticar os blogs que tenha calma. Já pode descerrar os punhos, limpar a bílis do canto da boca e extinguir a raiva. Tem piada, tem jeito e ainda que pontualmente não tenha razão, consola sempre ler acintes contra quem, em parte, engendra o fenómeno elitista que faz, muito infelizmente, da blogosfera aquilo que anda à volta de uma dúzia de blogues de amigos famigerados que gastam os teclados a glosar-se uns aos outros. Não é ilegítimo - os blogues são livres, tanto de escrever como de ler -, nem sequer merece grande mobilização - até porque só lhes dá mais publicidade -, mas degenerou num incalculável desperdício de talento, que definha na obscuridade, e, sobretudo, na promoção estúpida de muita mediocridade. Por isso, cara criticar os blogs, tenha calma, mas não pare.

Noutra nota

Pensava que tinha descoberto a diferença entre António Guterres e Tony Blair, mas depois lembrei-me que o Reino-Unido é uma monarquia.

Caras política

"Governo precisa de 1,5 mil M€ de receita extraordinária para défice inferior a 3% do PIB"

"Banca estrangeira ajuda no défice de 3%"

Mediocridade, sofreguidão para disfarçar o que toda a gente percebe e apoio da TVI . Este governo é a Lili Caneças.

sexta-feira, julho 18, 2003

Agora a sério

Atenção, cara "do lado de cá" (estamos quites, mas não abuse), que a provocação não consistiu na acusação de pouco conteúdo, mas apenas na piada machista. A avaliação dos dois blogues não a derrogo, mas perceba: se não fosse positiva, se a qualidade da forma não redimisse a relativa frivolidade, nunca me teriam interessado, nem tão-pouco os teria mencionado e recomendado. Aquilo que cada um diz no seu blogue é uma escolha, o aspecto em que o embrulha é uma faculdade. Tenho, entre os meus favoritos, blogues que têm pouco a dizer e blogues que deviam estar calados, mas que avultam pela qualidade da escrita. Considero, aliás, como um dos dois melhores escritores portugueses da segunda metade, pelo menos, do século XX, alguém que tinha sinceramente pouco para dizer, mas que foi dono do maior talento estilístico desde Eça de Queirós. Por outras palavras, a descrição de uma paisagem é geralmente vazia de mensagem, mas pode, sem objecções, constituir um monumento literário.

Se quiser um exemplo daquilo que pensava que eu pensava que vocês são, mas que não penso que sejam, veja ou tome conhecimento de um fenómeno bombástico que enferma a blogoesfera nacional e que consiste em toda a manteiga que vai e vem de um certo blogue, só - já que nem o conteúdo nem a forma se aproveitam - por ser propriedade - ao que consta - de uma senhora boa e muita simpática. Não digo que o blogue seja mau, como há blogues maus, mas é absolutamente insípido e esgota-se, em boa parte, na recepção e agradecimento de piropos. Ora - voltando agora ao machismo - isto não remete para qualquer defeito ou inferioridade do género feminino, para além de alguma susceptibilidade à adulação, mas, pelo contrário, para a idiotice do masculino. Aqui, e tendo em atenção que a minha "necessidade de atenção feminina" foi para ver se a enternecia, dou graças por sair à minha mãe.

I used to be insecure, but now I'm not sure

O do lado de cá mordeu o isco. Eu queria elogiá-la e à autora do outro blogue, mas tinha de apensar uma provocação para a levar a falar de mim. Talvez tenha necessidade de atenção feminina. Queiram-se ou não, assim são os homens.

Quanto ao t-zero de que sou proprietário, é nada mais que este blogue, ou melhor, o espaço que o aloja, que é o mais modesto que se pode arrendar na internet. O que eu queria era deitar abaixo metade das paredes, despir as que sobrassem do papel às flores ou do amarelo burguês, reformar o sofá amaciado, deitar fora as rendas, partir os candelabros, escancarar as janelas, para finalmente poder convidar miúdas para o meu estúdio. Como nada disso foi feito, tive de recorrer ao piropo.

quinta-feira, julho 17, 2003

Merriam-Webster

Main Entry: stick ler
Pronunciation: 'sti-k(&-)l&r
Function: noun
Date: 1644
1 : one who insists on exactness or completeness in the observance of something

Estereótipos

No último episódio da primeira série d'Os Sopranos, a mulher do Artie Bucco, ao congratular-se pela forma como estão a correr as coisas com o novo restaurante, lembra-se de falar ao marido dos exterminadores de pestes que tinham contratado: "The new exterminators... I got faith. The owner is portuguese, they're sticklers". Mas será que alguma vez vão parar com as calúnias?!

De nada II

Consta que o bloco-notas, egrégio avô destas coisas de agrupar os blogues portugueses, vai oferecer, numa almofada de veludo, a jóia infra-citada aos blogómanos. Seja como for, fá-lo-á melhor do que eu, um pobre porco a atirar uma pérola.

Pub

do lado de cá e atacadores. Bela forma, pouco conteúdo. Não é assim que se querem as mulheres?

De nada

A seguir ao w.bloggar descobri esta pérola ao espreitar o que estava por detrás do Frescos. Subscrevam, procurem e agremiem os vossos blogues favoritos e escusam de visitar cada um às cegas à espera de actualizações.

quarta-feira, julho 16, 2003

Porra.

O último?

Vamos ver se deixando o espaço vazio ele se distrai e deixa ficar a banda cinzenta.

O primeiro

Decidi aderir aos títulos. Não porque ache que os artigos merecem epígrafes, mas porque os leitores merecem que algo separe claramente os artigos publicados no mesmo dia.

terça-feira, julho 15, 2003

Parece que se descobriu que quem inventou a lasagna foram os ingleses e não os italianos. Claro que estes reagiram mediterranicamente negando aos berros. Não quero saber como será quando descobrirem também que nós inventámos o Alberto João Jardim ou o Luís Filipe Menezes antes deles.

Soube de fontes seguras que o autor do Valete Fratres, sob disfarce de uma "Organização", foi internar-se numa clínica especializada em Bruxelas para tratar a ingenuidade aguda que o ataca desde que começou a ter ideias. Aos acólitos e crédulos que não têm disponibilidade para seguir a terapêutica aqui vão uns comprimidos para, pelo menos, debelar os sintomas:

- A média diária de baixas civis na guerra do Iraque (aqui) aproxima-se dos 300, 1/3 da média da guerra do Vietname (aqui).

- Foi o próprio Paul Wolfowitz, arquitecto da política externa neo-conservadora, que se gabou de ter sido o petróleo a verdadeira razão para atacar o Iraque (aqui).

- Por outro lado, são os próprios americanos a questionar a transparência e candura do critério de atribuição de contratos para a reconstrução (aqui; aqui).

- O "imperialismo" americano traduz-se - tal como no Líbano, nas Honduras, na Nicarágua, no Panamá, no Chile, no Haiti, no Irão, no Afeganistão, na Somália, no Cambodja, na Guatemala, em Granada, etc - na afirmação, protecção ou presúria dos próprios interesses, seja a dádiva ou devolução do poder a forças com afinidade política, a penhora de fontes de riqueza ou a constituição de bases militares. As consequências, para além do sucesso maior ou menor desses objectivos, são, geralmente, a guerra-civil, a crise económica e social, a desestabilização da região, a gestação de extremismos, enfim a perpetuação dos conflitos e do atraso do respectivo país.

Seja como for, à luz resplandecente da verdade, quaisquer erros - que não estes - do tal partido anti-americano foram bem-intencionados ou, no mínimo, inócuos.

segunda-feira, julho 14, 2003

Para quem pensava que não havia justiça no mundo:

"One American, One Spaniard Gored at Final Bull Run of San Fermin Festival (...) The American, identified as Robert Fluhr, 27, of Arkansas, was gored in the buttock".

Agora só falta acontecer o mesmo a cerca de metade da população portuguesa.

Jaz ali, em silêncio, à espera que me meta na cama com ela. Está cada vez mais gorda e a culpa é minha. Sou eu que a alimento a ver se rebenta, se acabo de vez com ela. Mas estou cansado, farto de cozinhar, a minha imaginação está exangue; já só lhe consigo meter migalhas na boca. Tenho de pensar que o horror de a ver ali sobrepuja o terrível enfado de a cevar. Tenho de a encher com que tiver, farinha crua, fruta verde, palha. Tenho que meter na cabeça que desta semana não passa! Puta de tese.

Isto que acabei de ver faz-me pensar. Será que o inferno dos tolinhos é recuperarem a sanidade mental e olharem para a figura que os obrigaram a fazer cá em cima? Se for, o inferno dos pedófilos será pior.

domingo, julho 13, 2003

Este blogue comunicou-me que sente como uma gorda a actuar num peep-show.

sexta-feira, julho 11, 2003

Cá está ela. Já velha de dias, mas ainda a tempo de ser comentada. É a sondagem sobre crimes e respectivas penas, que tradicionalmente ocupa as semanas calmas de meses animados com crimes ou vagas de crimes. Primeiro os media concitam a populaça com as revelações, os testemunhos velados, as generalizações, tudo repetido até se tornar subliminar, depois rematam com uma consulta destas, como que triunfalmente, a mostrar o resultado. Morte! Morte! Pena perpétua! Seja como for mais anos na prisão. E, claro, no caso, castigos piores para os pedófilos do que para os outros malfeitores, que a falta de atenção amaciou, incluindo os homicidas e os violadores convencionais.

O triunfo dos media não é - julgo eu - filosófico. Embora pareça abundar em algumas redacções o moralismo mais primitivo, é tudo charme e marketing. E resulta. Mais requintado é o móbil político. Nenhuma outra propaganda chega mais depressa e facilmente ao arquipálio do cidadão do que o pânico securitário. O medo torna-se irresistível, vemos hordas de marginais sanguinários, toxicodependentes mortos-vivos ou pedófilos sem alma ao virar de cada esquina. E a polícia e o governo não fazem nada. Ao candidato menos escrupuloso basta fazer ressoar a histeria na sua campanha. E os outros nada podem dizer, porque nenhum argumento vai a tempo de lutar contra percepções deste género.

Ora foram-se as eleições autárquicas, foram logo a seguir as legislativas e, graças a deus, a criminalidade passou, pelo menos até à pedofilia: os gangs desistiram, os homicidas cansaram-se, os arrumadores alinharam todos no programa do Rui Rio e até aquele tipo com ar de taxista a ameaçar uma senhora com uma navalha no Terreiro do Paço fugiu ou foi preso. Já se pode andar de novo à vontade na rua, até de noite, até no Bairro-Alto! Contra esta nova percepção, construída, agora, pela ausência de crime e sangue nos telejornais, também não vale nenhum argumento, nem sequer aquele aparentemente eloquente das estatísticas que afirma que a criminalidade afinal aumentou nos último ano.

Esta exploração dos nosso id timorato com este fim já de si é abjecta, embora o facto de se perpetrada por todas as oposições nas vésperas de todas as eleições a banalize um pouco. Pior mesmo são as sequelas na consciência, apesar de tudo duradoira, dos eleitores. Certo que a reivindicação de penas mais severas auge sempre que a criminalidade está na moda. Mas para lá dessas sondagens e desses momentos de irracionalidade excessiva, a ideia de que os delinquentes não têm o que merecem cristaliza-se e começa a persistir na opinião pública a defesa maioritária da prisão perpétua e da pena de morte, ainda que, felizmente, à margem - como poucas outras tendências populares - da vontade, pelo menos declarada, dos eleitos.

A primeira objecção a esta tendência é o facto de ignorar que a aplicação das penas é muito mais importante do que a sua medida. E embora a noção de que a Justiça é trôpega conviva, no pensamento da maioria, com a de que as penas são insuficientes, o próprio facto de a primeira revelar uma realidade extremamente intrincada faz com que as pessoas se lhe resignem e prefiram exigir aquilo que lhes parece fácil e até mais natural.

E é ainda essa mesma deficiência da Justiça - que ninguém nega - que constitui a objecção fundamental à ideia da prisão perpétua e, sobretudo, da pena de morte. O próprio Direito assume a falibilidade da Justiça, por isso é garantístico, por isso onera a acusação com a produção de prova, por isso consagra in dubio pro reo, por isso admite recursos, por isso, finalmente, leva muitas vezes à absolvição consciente de culpados. Tudo para reduzir à mais infíma probabilidade o erro e a insuportável consequência de condenar um inocente. A pena de morte arrasa com esta lógica, desperdiça toda esta circunspecção e não admite qualquer margem de erro. Não me aflige, ou não me aflige tanto, por que ao Estado não caiba matar, porque a vida é um bem indisponível, muito menos por qualquer juízo religioso; admito que haja incorrigíveis, a quem não valha qualquer esforço de reabilitação e que, inclusive, continuam a matar na própria prisão. Rejeito a pena de morte por ser irreversível, por não contemplar em absoluto a qualidade humana da Justiça e por inverte uma fórmula elementar: mais valem, apesar de tudo, dez criminosos á solta do que um inocente na cadeia. Quanto mais morto.

quinta-feira, julho 10, 2003

Estou inaugurando um programinha chamado de w.bloggar que dispensa o recurso ao site do Blogger. Escolhi, hesitando, o Português do Brasil como língua temendo que o Inglês me impedisse de pontuar. Espero apenas que esse fato não abrasileire meu blogue.

quarta-feira, julho 09, 2003

"Portugal será país incontornável na agenda dos oceanos", Durão Barroso.

Será que vão começar a inaugurar praias?


Noutra nota: confesso que até há pouco tempo não sabia que António Lobo Antunes podia ser tão bom quanto as tiragens sugeriam. Agora já sei que não é.

Por falar em ansiedade de feedback, reparei que a afluência a este blogue remitiu nos últimos dias, correndo o risco de ser rebaptizado de Estádio da Luz. Antes de meter na cabeça que isto não tem qualidade suficiente - em cujo momento me há-de consolar não ter dado ao X a alegria de me publicitar - vou atribuir a tendência às denúncias que fiz em primeiríssima mão nos últimos artigos (tirando aquele em que prometia enlevar e o outro em que não cumpri) e concluir que em cada visitante perdido está um caloteiro e/ou um traficante de influências. Sendo assim, o facto de ter perdido muitos só depõe a favor do que disse nos respectivos artigos.

Deixei eu que um sociólogo me deprimisse levando-me a crer que eu e o meu blogue padecíamos de ansiedade de feedback - pura hipocondria! Enquanto eu me circunscrevi a dois emails para outras tantas directorias de blogues portugueses, outros, a maioria, quem sabe todos vão cultivando patrioticamente essa tradição mais vernácula que ser do benfica ou não pagar impostos - a cunha. Para quem, sendo natural de outro país, não saiba em que consiste, pode-se ilustrar do seguinte modo:

"Caro X. Sou leitor assíduo do seu blogue, concordo com tudo o que lá diz, ainda que não diga nada, e considero-o entre os melhores que por cá se escrevem - em todo caso melhor que aqueles que lhe provocam particular inveja -, para cujo juízo, assevero-lhe, nada concorre o facto de ser famoso, influente e provavelmente susceptível de ser sabujado".

Fosse o X escrupuloso e a cunha seria inócua; fosse ele criterioso e a cunha seria até profícua, embora sempre injusta para quem a ela não recorre. Mas sendo o X, em regra, uma besta diletante que aproveita o renome para se deixar sorrabar, o que se afere pelos resultados, seja a qualidade de muitos blogues que por aí se publicitam, seja, no geral, o atraso do país, a cunha é uma tragédia.

segunda-feira, julho 07, 2003

A todos aqueles que não nasceram sob o signo de Saturno, mas circunstancialmente o desejariam, eu digo: a astrologogia é um logro. O homem não nasce sorumbático, faz-se. Pode nascer tímido, nasce concerteza feio, mas é o isolamento a que o condenam esses e outros defeitos que o adestram à solidão e lhe calejam a alma. Eu sei que não há desejo absoluto de solidão, assim como na Natureza não existe o vácuo absoluto, apenas rarefacção extrema. Eu sei que ao cabo de qualquer fantasia solitária está sempre alguém. Mas a essa sociabilidade residual corresponde a ração mínima de companhia que cabe até aos que não a procuram. E se, ainda assim, dessa convivência excrescer algum desengano, tornamos à solidão e escavamos um lago num dia para ocupar o corpo até calar a alma, arrostamos com qualquer medo profundo para envergonhar o desgosto. E no fim o que fica é uma cicatriz que alardeamos, porque foi uma ferida que não nos tombou.

domingo, julho 06, 2003

Ainda a tinta do último artigo não secou e já venho aflito desculpar-me. É que olhei para o blogue todo e reparei, com horror, que está cheio do mundando e que se arrisca, a continuar neste caminho, a estupidificar num blogue político. Ainda por cima sofrível, como demonstra precisamente o artigo anterior, que podia ter sido pensado por muitas pessoas e melhor redigido por qualquer uma. Por isso acabei de dar ordens a quem o escreve - porque eu sou figura pública e não tenho tempo - para se ir inspirar, despertar o estro e só voltar a incomodar os seus três leitores quando achar que os consegue enlevar.

Não sei porque se há-de recorrer à Crítica da Razão Prática para nos consolarmos pelo pagamento de impostos. As finalidades da contribuição - a manutenção do Estado e a redistribuição da riqueza - deviam ser suficientemente claros para dispensar a mera resignação ao dever. A sociedade humana, na qual, em parte, se inscreve a portuguesa, continua, apesar de alguns progressos, essencialmente desigual. Pessoas com capacidades iguais, nascidas em meios ou circunstâncias desiguais nunca beneficiarâo das mesmas oportunidades. O português médio não é cumpridor, não porque seja desalmado, mas porque não compreende esse propósito, nem se assusta com as consequências. Quando o mandam pagar impostos é como se ouvisse a mãe a mandá-lo tomar banho ou a lavar os dentes quando era criança - não percebe por que raios o há-de fazer, por isso esquiva-se como pode, mente ou simula, até porque o risco de ser castigado é pequeno e nem merece o esforço de tentar saber as benefícios da higiene.

Mas a quem se há-de imputar esta ignorância, este hedonismo social? Pode dizer-se que a Constituição, a cada dez direitos, apõe, envergonhada, uma obrigação, que é demasiado progressista, que nasceu de uma espécie de dionisíacas. Mas longe da Constituição a pretensão de proteger os empresários, os trabalhadores independentes ou os profissionais liberais e agrilhoar ao cumprimento os queridos trabalhadores por conta de outrém. Nem tão-pouco a leitura de diplomas legais, por muito solenes, tem qualquer valor pedagógico.

A Educação, tanto quanto sei, é cúmplice da mesma omissão. Nunca me apascentaram na escola sobre essa ideia de contrapartida ou sacrifício sem o qual o Estado não funciona, porque deixa de haver dinheiro para estradas, hospitais, tribunais, pensões, etc. E é suficientemente axiomática para caber nos programas do ensino básico. Mas a Escola é tão tíbia nesta como noutras funções moralizantes, que mesmo que algo fosse ensinado, as atitudes cumpridoras ou não continuariam a filiar-se quase exclusivamente no meio, imitando as atitudes dos ascendentes, dos amigos ou dos colegas.

A Educação é culpada, mas só na exacta medida da parte que lhe cabe na capacidade formativa ou disciplinadora do Estado, o que exclui a responsabilidade directa pelos adultos. Sobra a Justiça. Não aquela que se esgota nos tribunais, mas, neste caso e sobretudo, a administração fiscal. Essa que, em Portugal, aconselha os contribuintes em falta a estarem caladinhos, porque só mais um ano e a dívida prescreve; que consegue transformar uma repartição inteira numa associação criminosa; que, no mínimo, está pejada de funcionários incompetentes, negligentes ou, provavelmente na maioria dos casos, impotentes. Porquê? Porque os governos não levam a sério a cobrança do que devem ao Estado. Recusa, desde logo, atribuir meios suficientes a essa administração, engendra regimes fiscais sucessivamente inexequíveis, promove a excepção ao cumprimento para remunerar favores eleitorais e nem sequer disfarça, incita ao não pagamento subindo a taxa ou perdoando juros quando está enrascado e insultando quem paga sempre e a tempo, e deixa saber que ele próprio, na pessoa dos que o conduzem, não gosta de pagar, tem contas na Suíça, recebe malas de dinheiro, declara rendimentos e valores prediais falsos. E quando a Justiça apanha um deles, reaparece dois ou três anos depois, a bradar inocência, perseguição, cabala e o diabo, como se não tivesse sido absolvido apenas por ter saldado a dívida e alguns juros. Tivessem cominado a sério este e os outros, andasse a administração fiscal por aí armada em Internal Revenue Service, pagassem os jogadores de futebol portugueses o que pagam os espanhóis ou alemães ou sofressem o que estes sofrem quando não pagam, descessem certos clubes de divisão independentemente dos comícios em que aparecem ou dos adeptos que têm, e logo viam como as receitas fiscais aumentavam. E se a estas condenações urgentes acrescesse alguma ignomínia, uma espécie de pregão público, que declarasse o incumpridor indigno de confiança, se ficasse proscrito do serviço público, se deixasse de beneficiar do sigilo bancário, se deixasse de poder receber doações, se fosse, sob penas maiores, obrigado a declarar imediatamente qualquer aquisição patrimonial à administração fiscal, talvez os portugueses ganhassem respeito. E se, finalmente, a Justiça e o Estado em geral fizessem o favor de filosofar um pouco sobre todo este necessário empenho punitivo e explicassem, em voz alta, que o senhor arguido é esfolado por não pagar o que deve a todos nós, então talvez os portugueses, com esse respeito, tivessem atentos e percebessem a razão.

sexta-feira, julho 04, 2003

Só agora, passados 5 dias, é que reparei na alusão ao meu blogue no Guerra e Pás, a primeira - que eu saiba - na blogoesfera. Espero agradecer-lhe dizendo-lhe que me fez sentir desvirginada (sou homem, mas o sentimento é feminino), ou seja, radiante, mas culpado. Até porque - ouça cá, caro P - que talento?

Este blogue tem leitores reincidentes ou apenas um fluxo de visitantes que vêm ver se isto vale alguma coisa e só encontram razões para não voltar?

O governante para esta estação quer-se não muito inteligente, de fato escuro impecável e com um sorriso equânime. Seria de pensar que estes dois últimos servissem para disfarçar a modéstia mental, mas é ela o elemento essencial. O governante sofrível delega a compreensão da realidade nos conselheiros inteligentes. Se estes lhe dizem que as coisas vão mal, mas a culpa é dos outros, e que vão melhorar e o mérito será dele, o governante lento acredita piamente, enche-se de confiança e transmite-a ao povo, ainda que seja tudo mentira. Se lhe asseveram, por exemplo, que certo país é uma ameaça, o governante lerdo enche-se de patriotismo genuíno e inspira o povo, ainda que seja tudo mentira. O governante estulto é o veículo perfeito da propaganda, o actor inconsciente das tramas dos que o rodeiam, a voz ignorante dos discursos que lhe redigem ou das notas que lhe passam por baixo da mesa. Ainda que tenha, aqui e ali, alguns assomos do que realmente se passa no país que governa, nunca é o suficiente para lhe ameaçar o sorriso prescrito pelo gestor de imagem. O governante burro não possui auto-crítica, não tem angústias, não hesita e não se demite, a não ser quando os conselheiros finalmente dizem que chegou a altura, que as coisas realmente estão más. E aqui é que reside o problema. Porque, em certos países, é a altura do ministro inteligente lhe tomar o lugar.

quinta-feira, julho 03, 2003

O tempo para amanhã.

quarta-feira, julho 02, 2003

Domingo à tarde. Despenha-se um sol perfeito sobre a bulevarda do Parque das Nações, mas o vento dispersa-o e lixa tudo. Eu sorvo um iced-tea de pêssego a fingir que é wiskey na esplanada que tiver as gajas boas, virado para o exterior à espera que passem ainda melhores. Passa uma amiúde, passam outras de contemplar a homossexualidade, passam uns ingleses rosados, mas passam sobretudo casais jovens.

Uns recentes. São namorados mais institucionais, de mão largada, ainda aquecidos pelos últimos borralhos de felicidade que o casamento tem para dar.

Outros grávidos. Nestes casos ELA há-de estar radiante, como num orgasmo, a alardear a barriga como se fosse a taça dos campeões. ELE está indiferente, um pouco chateado com a falta de sexo, mas consolado pelo tempo que ela passa ao telefone com a mãe e não o chateia com outras coisas.

Finalmente os pais. Se o miúdo brotou há pouco tempo, ELA guarda ainda um rebrilho do pré-parto e continua a exibir a descendência, agora já cá fora, com orgulho, embora moderado pelas sevícias que lhe causou ao sair. Se já lá vão alguns meses, o desencanto é perceptível. O sorriso esmaecido, o corpo descomposto, quase tudo cede à erosão da terrível rotina da puericultura amadora. Em qualquer dos casos ELE está mudado para sempre. Caminha ostensivamente um passo á frente ou atrás dela e do carrinho, e a única coisa que exibe são as trombas, cerradas pela consciência de que não se pode queixar, muito menos - logo agora! - desistir, fugir, divorciar-se, dizer que não é dele.

É um testemunho eloquente das violências que a civilização inflige à natureza. Neste caso, incumbir - cada vez mais igualitariamente - o homem dos cuidados com a prole que só o instinto maternal tornam suportáveis. Olha os cavalos-marinhos, olha os passarinhos, dir-me-ão. Eu pergunto - estamos mais próximos dessas espécies amaricadas ou dos felinos, irmãos mamíferos, cujos varões abjuram as próprias crias e eliminam as dos outros como quem baixa as persianas para dar uma queca? Destes, concerteza, mas algures mais para o meio. Não tenho curiosidade em saber com quantos bebés se pinta uma parede de vermelho. Mas, acreditem, mulheres, tenho - eu e qualquer Homem - ainda menos vontade de sacrificar o pouco tempo que a vida moderna se esquece de nos usurpar a mudar as fraldas, aquecer o leite ou esperar que puto durma. Levá-lo, mais tarde, à escola, talvez. Ensinar-lhe sobre a vida - incluindo o conteúdo deste artigo - há-de ser engrandecedor. Agora as outras mundanices, os trabalhos braçais que preenchem os primeiros anos, não! Só com licença de parto permanente, do emprego e do cônjuge, para que ao menos sobre tempo. De resto invoco, para mim e para todos aqueles que preservam a sua essência taxicológica, o direito de ser assim!

terça-feira, julho 01, 2003

Andam por aí a comentar o estudo de uma universidade norte-americana que favorece a eficácia das multas de trânsito. Mas, como nas nossas estradas o Estado arrecada menos que os ciganos lava-vidros ou, já agora, que a GNR, há que procurar noutro lado o elixir para os males rodiviários que afligem Portugal. Acontece que eu sei de um, precisamente pelo preço de uma multa portuguesa, e ainda se poupa dinheiro a todos nós e dignidade aos tetraplégicos. É simples:

Acabe-se com a publicidade à condução desportiva. Qual? Nunca viram políticos, artistas ou futebolistas a exortarem em público ao uso do preservativo ou ao desuso das drogas? A favor do andar-na-ganga fazem exactamente mesmo. Há tempos foi o ministro da defesa e o seu séquito; mais recentemente uma alta comitiva do PS, onde se encontrava o respectivo secretário-geral que, meses antes, ao fazer o merecido elogio fúnebre de João Amaral e instado pela entrevistadora a contar um episódio comum que o marcara, lembrou-se de uma viagem "à rally" Algarve-Lisboa. Jogador da bola não haverá nenhum que acelere menos a conduzir do que a festejar um golo ou a ir atrás do João Pinto. E quanto a artistas, ilustra-se com o Toy, que, embora desencorajando muita gente de bom gosto, com horror a assemelhar-se-lhe, lá se gabou de ter o pé pesado, e ainda com o Herman José (pedófilo light?), que conseguiu melhor, ao gozar com o Toy por ainda lhe faltar muito peso no pé. Mas se há quem atraiçoe as duas primeiras causas, desde o artista que faz umas linhas ao futebolista que não quer nada entre si e a sua puta, o amor ao acelaranço não podia ser mais genuíno. Não querem tempo de antena, dispensam dinheiro; arranjem-lhes uns quilómetros de alcatrão que eles fazem-no pro bono. E. como eles. outros tantos anónimos que contribuem para tornarem a causa mais visível com o que tiverem de apelativo, seja um carrão, seja um palminho-de-cara, seja puro voluntarismo.

Mais simples ainda?

O problema é que a realidade por detrás desta ironia presta-se ao mais comum e eficiente mecanismo de marketing e publicidade: a associação de um produto ou de um comportamento ao sucesso. Quer fazer parte do casal perfeito, que acorda fresco e sem ramelas na casa ideal, ao lado dos filhos de sonho e sai todos os dias jovialmente à rua sob um sol radiante? Coma corn-flakes. Quer ser uma dona-de-casa com um corpo de 25 anos, um marido de 20 e uma cozinha de 40 metros quadrados? Esfregue o chão com Sonasol. Ora, quer ser famoso, rico e comer gajas boas? Conduza na esgalha.

No dia em que os próceres desta nação fizerem ver, por mero exemplo próprio, que não foi preciso dar 200 no falómetro para chegaram onde estão, seguir-se-ão talvez os outros: advogados de BMW, que inspirarão os construtores-civis de mercedes, que reeducarão os cromos de subaru impreza, que ensinarão os azeiteiros de citroen branco, que pararão de picar os jovens de smart, que farão, finalmente, ver aos invejosos de todos os anteriores que é melhor deixarem de ser parvos e passar a conduzir como eu, ou seja - segundo o meu sincero instrutor - como os velhos.