T-Zero

Ressurreição

sexta-feira, junho 27, 2003

O artigo da última Visão sobre os juízes e uma conversa paternal alertaram-me para um fenómeno sociológico ao qual Portugal em muito deve a sua idiossincrasia - o ascendente beirão e transmontano em certos grupos profissionais. A Visão revelou a estirpe humilde da maioria dos magistrados, o meu pai, pelos vistos um transmontano arrenegado, contribuiu com o resto. Parece que o Estado Novo se esforçava por recrutar padres, juízes e gê-ene-erres nas fragas primordiais do interior-norte português, consciente de que entregava a uma raça obediente, animosa e ideologicamente solidária a sustentação do regime.

Antes que venham (por favor venham) bradar racismo, admito já que o fenómeno é universal. É o chavão da dicotomia litoral-interior; planície-montanha; cidade-província. Foi o que, no seu paroxismo, fez com que os sérvios, croatas e muçulmanos de Sarajevo morressem indistintamente às mãos das milícias agremiadas e colocadas nas serranias cercãs. E é o que todos os dias opõe os liberais do litoral norte-americano aos red-necks do interior. Por outro lado, não é axiomático. Há gente para tudo, inclusive, felizmente, para fugir às tendências.

O problema de Portugal nem é que poucos tenham conseguido fugir a esta tendência, mas que os que conseguiram, ou aqueles que nunca precisaram de fugir ainda a não tenham tornado inócua, como a modernindade exige. Mérito da programação do Estado Novo, que deixou intirpadas estas e outras estruturas culturais e sociais; vergonha dos que lhe sucederam, que por enquanto se limitaram a uma revolução institucional e a ocupar as cadeiras vazias. Resultado? Em três slogans: os bispos continuam a inaugurar pontes, a um juiz-conselheiro do STJ é permitido pensar que as mulheres são todas M. Bovary, sem lugar na magistratura e boa parte da GNR continua a cumprir o acordo tácito que tinha com o outro regime de cobrar o que lá entenderem em troca de darem porrada em que lhes mandarem. A realidade, aparentemente, é menos aflitiva. Que um bispo se sente a dormir ao lado de um ministro numa parada militar é relativamente anódino; se parte do Supremo Tribunal de Justiça é misógina, parte dos juízes que aí vêm vestem calças-de-ganga; e os hábitos da Guarda são bem mais o reflexo da má-formação e dos salários indigentes do que a retribuição pela repressão. Mas é tudo uma questão de cadência. A este ritmo, sem ímpetos exógenos, quando por essa Europa se ensinar que Deus não existe como a Bíblia entende, em Portugal ainda existe se os pais quiserem, ou quando os juízes-de-levis forem jubilados, já andam os outros em calções.

Que culpa têm os transmontanos e os beirões? Nenhuma (a não ser o Guterres). Desde que não sejam Viriatos com a modernização, o país só lhes agradece a fibra. Agora e sempre. Não houve inimigo que se internasse por ali. Ou entraram a passear pelo Alentejo ou desceram pelo litoral ameno.