T-Zero

Ressurreição

sexta-feira, junho 27, 2003

À atenção de já vão ver quem, e sob o risco ingente, mas injusto, de, depois do último post, ser eu considerado definitivamente racista:

Nos blogues uma coisa leva verdadeiramente a outra, e uma passagem pelo Abrupto levou à descoberta do Aviz e da polémica com Outro, Eu. Tendo vindo a ser um observador distante do fenómeno em causa, não resisti a tentar meter o bedelho, agora que talvez consiga.

Começo por pedir que, se me quiserem reputar à partida de anti-semita, que tenham atenção ao meu post anterior, o qual esclarece que, a sê-lo, sou daqueles que dão razão aos palestinianos e não a Hitler. Embora não veja como um "pró-palestiniano" possa ser anti-semita, a tara concede-vos a oportunidade de me subsumirem a um tipo e dá-me a autorização para vos fazer o mesmo e chamar-vos, à falta de melhor, de anti-anti-semitas. Ora se um anti-semita, como a generalidade do mundo o entende, é um conceito absurdo, porque abusa do "semita", o de anti-anti-semita, por maioria de razão, não o é menos, porque, se nada mais, já abusa da paciência de muito boa e não anti-semita gente, incluindo, como saberão, muitos judeus.

De que me queixo? Dessa susceptibilidade extrema que leva, no limite, à proibição intelectual de qualquer crítica a Israel, como se qualquer dessas críticas escondesse um colaboracionista atávico do nazismo. A propósito disto lembro-me sempre de duas anedotas (uma delas produzida involuntariamente por judeus): a dos judeus anti-semitas, ou jew-hating jews, e a do tipo que era anti-semita, porque não gostava de pita shoarma. Mas também conheço a réplica a estas anedotas: o burlesco ofende a memória do Holocausto. E aí é que está o problema.

Desde logo, em tese, o humor é amoral, é a suspensão do pudor e do melindre. Depois, o Holocausto não pode ser um manancial de vitimização perene, onde todo e qualquer judeu, vítima real ou não, se define como perseguido por todos os não judeus, menos aqueles que, circunstancialmente, apoiam sem reservas a política israelita. E eu não posso aceitar essa política, porque é a excrescência agressiva dessa vitimização, e, em geral, a pior manifestação da consciência excessiva do eu, que implica quase sempre uma relação péssima com o outro, como implicou o próprio nacional socialismo.

O sionismo conquistou uma pertinência pungente com o Holocausto, mas a sua aplicação foi e é uma aberração, aliás co-responsabilidade da famigerada Civilização Ocidental, que ainda hoje vê o mundo para além das suas fronteiras como bárbaro e, logo, disponível. Por que não na Alemanha, que merecia ser amputada de uma porção de território para a pátria judaica? Ou então obrigar os alemães a ressarcir os palestinianos? Em vez disso, preferiu-se a força e o argumento religioso ou sentimental, o da pátria ancestral, para muitos oferecida por Deus, como se para lá se instalarem, os israelitas originais não tivessem expulso e morto outras populações, ou, pior ainda, como se essas populações tivessem sindo imoladas por Deus, para provar, com o seu sacrifício, o direito sanguinário dos judeus à terra. Infelizmente, é nisto que se encerra a visão judaica dominante do problema israelo-palestinano, entre o eixo da vitimização e o da eleição. O que não vos pertence por decreto divino, pertence-vos por sentença da História, que condenou a humanidade, sobretudo a que cometeu a infelicidade de habitar o vosso espaço, a indemnizar-vos eternamente.

Eu não pago, mas lamento. Lamento os seis milhões de judeus, que se juntaram aos dezassete milhões de civis soviéticos ou dez milhões de chineses, lamento que a vossa pátria livre e democrática seja o campo de refugiados de outros, lamento que a mesma irracionalidade que vos levou a reclamar um território com base numa escritura com milhares de anos tenha antes levado à conversão forçada e à expulsão, lamento que Portugal se tenha a esse tempo despojado imbecilmente de tanta gente inestimável, cujos descendentes têm vindo a avultar desproporcionalmente entre os seres humanos mais brilhantes, aqueles que vão recusando qualquer irracionalidade. E lamento que a muitos ainda falte recusar alguma.