T-Zero

Ressurreição

segunda-feira, junho 30, 2003

Vou aproveitar a morte da Katharine Hepburn para falar do Stephen King. Não tenho nada que aderir aos lutos só porque me prestigiam culturalmente e suster o lamento quando desaparece alguma figura mais telúrica, só para que ninguém saiba que consumia às escondidas o seu produto. O rei não morreu, mas pelo que sei está quase cego, o que em princípio significa a morte da sua produção. Para quem lhe reconhece o magistério do terror (e geralmente é quem gosta do género), concordará que a eminente perda é funesta. Mas quem tem o conhecimento acrescentado das suas excursões ao convencional, arquivadas sobretudo em contos, está obrigado a atribuir-lhe um posto entre os melhores escritores da segunda metade do século passado.

Como curiosidade: são tão más as incansáveis adaptações ao cinema das obras do primeiro género como notáveis as duas, que eu conheço, do segundo.

O sono que resta de uma noite mal dormida não permite maiores empresas intelectuais que uns tiros online.
Depois do belicismo do G Walker B, agora isto a confirmar que a violência é cerebralmente económica.

Do inane ao presunçoso. Do lacónico ao prolixo. Há uma coerência inflexível neste jovem blogue - continua invisível. Senão reparem:

Um total de 41 pageviews, uma média de 6 por dia e de 2:43 minutos por visita. O período mais concorrido é o das 24 às 23:59. O dia mais agitado foi o primeiro, efeito do meu entusiasmo. O T-Zero é lido sobretudo na Portela.

domingo, junho 29, 2003

Hoje acordei com vontade de me suicidiar. Saí à rua e matei um tipo parecido comigo. Fiquei relativamente satisfeito.

sexta-feira, junho 27, 2003

À atenção de já vão ver quem, e sob o risco ingente, mas injusto, de, depois do último post, ser eu considerado definitivamente racista:

Nos blogues uma coisa leva verdadeiramente a outra, e uma passagem pelo Abrupto levou à descoberta do Aviz e da polémica com Outro, Eu. Tendo vindo a ser um observador distante do fenómeno em causa, não resisti a tentar meter o bedelho, agora que talvez consiga.

Começo por pedir que, se me quiserem reputar à partida de anti-semita, que tenham atenção ao meu post anterior, o qual esclarece que, a sê-lo, sou daqueles que dão razão aos palestinianos e não a Hitler. Embora não veja como um "pró-palestiniano" possa ser anti-semita, a tara concede-vos a oportunidade de me subsumirem a um tipo e dá-me a autorização para vos fazer o mesmo e chamar-vos, à falta de melhor, de anti-anti-semitas. Ora se um anti-semita, como a generalidade do mundo o entende, é um conceito absurdo, porque abusa do "semita", o de anti-anti-semita, por maioria de razão, não o é menos, porque, se nada mais, já abusa da paciência de muito boa e não anti-semita gente, incluindo, como saberão, muitos judeus.

De que me queixo? Dessa susceptibilidade extrema que leva, no limite, à proibição intelectual de qualquer crítica a Israel, como se qualquer dessas críticas escondesse um colaboracionista atávico do nazismo. A propósito disto lembro-me sempre de duas anedotas (uma delas produzida involuntariamente por judeus): a dos judeus anti-semitas, ou jew-hating jews, e a do tipo que era anti-semita, porque não gostava de pita shoarma. Mas também conheço a réplica a estas anedotas: o burlesco ofende a memória do Holocausto. E aí é que está o problema.

Desde logo, em tese, o humor é amoral, é a suspensão do pudor e do melindre. Depois, o Holocausto não pode ser um manancial de vitimização perene, onde todo e qualquer judeu, vítima real ou não, se define como perseguido por todos os não judeus, menos aqueles que, circunstancialmente, apoiam sem reservas a política israelita. E eu não posso aceitar essa política, porque é a excrescência agressiva dessa vitimização, e, em geral, a pior manifestação da consciência excessiva do eu, que implica quase sempre uma relação péssima com o outro, como implicou o próprio nacional socialismo.

O sionismo conquistou uma pertinência pungente com o Holocausto, mas a sua aplicação foi e é uma aberração, aliás co-responsabilidade da famigerada Civilização Ocidental, que ainda hoje vê o mundo para além das suas fronteiras como bárbaro e, logo, disponível. Por que não na Alemanha, que merecia ser amputada de uma porção de território para a pátria judaica? Ou então obrigar os alemães a ressarcir os palestinianos? Em vez disso, preferiu-se a força e o argumento religioso ou sentimental, o da pátria ancestral, para muitos oferecida por Deus, como se para lá se instalarem, os israelitas originais não tivessem expulso e morto outras populações, ou, pior ainda, como se essas populações tivessem sindo imoladas por Deus, para provar, com o seu sacrifício, o direito sanguinário dos judeus à terra. Infelizmente, é nisto que se encerra a visão judaica dominante do problema israelo-palestinano, entre o eixo da vitimização e o da eleição. O que não vos pertence por decreto divino, pertence-vos por sentença da História, que condenou a humanidade, sobretudo a que cometeu a infelicidade de habitar o vosso espaço, a indemnizar-vos eternamente.

Eu não pago, mas lamento. Lamento os seis milhões de judeus, que se juntaram aos dezassete milhões de civis soviéticos ou dez milhões de chineses, lamento que a vossa pátria livre e democrática seja o campo de refugiados de outros, lamento que a mesma irracionalidade que vos levou a reclamar um território com base numa escritura com milhares de anos tenha antes levado à conversão forçada e à expulsão, lamento que Portugal se tenha a esse tempo despojado imbecilmente de tanta gente inestimável, cujos descendentes têm vindo a avultar desproporcionalmente entre os seres humanos mais brilhantes, aqueles que vão recusando qualquer irracionalidade. E lamento que a muitos ainda falte recusar alguma.




O artigo da última Visão sobre os juízes e uma conversa paternal alertaram-me para um fenómeno sociológico ao qual Portugal em muito deve a sua idiossincrasia - o ascendente beirão e transmontano em certos grupos profissionais. A Visão revelou a estirpe humilde da maioria dos magistrados, o meu pai, pelos vistos um transmontano arrenegado, contribuiu com o resto. Parece que o Estado Novo se esforçava por recrutar padres, juízes e gê-ene-erres nas fragas primordiais do interior-norte português, consciente de que entregava a uma raça obediente, animosa e ideologicamente solidária a sustentação do regime.

Antes que venham (por favor venham) bradar racismo, admito já que o fenómeno é universal. É o chavão da dicotomia litoral-interior; planície-montanha; cidade-província. Foi o que, no seu paroxismo, fez com que os sérvios, croatas e muçulmanos de Sarajevo morressem indistintamente às mãos das milícias agremiadas e colocadas nas serranias cercãs. E é o que todos os dias opõe os liberais do litoral norte-americano aos red-necks do interior. Por outro lado, não é axiomático. Há gente para tudo, inclusive, felizmente, para fugir às tendências.

O problema de Portugal nem é que poucos tenham conseguido fugir a esta tendência, mas que os que conseguiram, ou aqueles que nunca precisaram de fugir ainda a não tenham tornado inócua, como a modernindade exige. Mérito da programação do Estado Novo, que deixou intirpadas estas e outras estruturas culturais e sociais; vergonha dos que lhe sucederam, que por enquanto se limitaram a uma revolução institucional e a ocupar as cadeiras vazias. Resultado? Em três slogans: os bispos continuam a inaugurar pontes, a um juiz-conselheiro do STJ é permitido pensar que as mulheres são todas M. Bovary, sem lugar na magistratura e boa parte da GNR continua a cumprir o acordo tácito que tinha com o outro regime de cobrar o que lá entenderem em troca de darem porrada em que lhes mandarem. A realidade, aparentemente, é menos aflitiva. Que um bispo se sente a dormir ao lado de um ministro numa parada militar é relativamente anódino; se parte do Supremo Tribunal de Justiça é misógina, parte dos juízes que aí vêm vestem calças-de-ganga; e os hábitos da Guarda são bem mais o reflexo da má-formação e dos salários indigentes do que a retribuição pela repressão. Mas é tudo uma questão de cadência. A este ritmo, sem ímpetos exógenos, quando por essa Europa se ensinar que Deus não existe como a Bíblia entende, em Portugal ainda existe se os pais quiserem, ou quando os juízes-de-levis forem jubilados, já andam os outros em calções.

Que culpa têm os transmontanos e os beirões? Nenhuma (a não ser o Guterres). Desde que não sejam Viriatos com a modernização, o país só lhes agradece a fibra. Agora e sempre. Não houve inimigo que se internasse por ali. Ou entraram a passear pelo Alentejo ou desceram pelo litoral ameno.

Enquanto ninguém olha para mim, vou olhando para os outros.

A última observação - porque foi a primeira que me exortou a escrever isto: há 412 blogues portugueses detectados. Cheguei tarde demais. Por muitas originalidades que exare, estarão sempre embrulhadas na banalidade que se tornou um blogue. E agora? Recorro aos lençóis? Converto isto no blog da vagina, por exemplo (se é que não existe já)? Continuo como exercício narcisístico? E se sim, insisto na solidão ou promiscuo-me com outros e deixo-me enredar nessas teias mesquinhas de engate intelectual que acabam por se esgotar em remissões insinceras de blogue para blogue? Talvez me meta na porrada ideológica e dê por mim a contar os blogues de cada cor. Ou devo preserverar no caminho do plano original, de ver o-que-isto-dá? Acho que vou pela vagina e logo se vê o que isto dá.

quinta-feira, junho 26, 2003

Por enquanto sinto-me um daqueles tipos que se juntam a uma multidão que está a olhar para algo. Ninguém sabe dizer para quê, cada um pensa secretamente que é para ele, mas parece que todos olham uns para os outros. E por enquanto ninguém olha para mim.

Se isto acabar como começou - ignorado - alego misantropia e atá arranjo forma de espalhar uma fotografia de olhos caídos como certificado de timidez. Algo que sirva de desculpa e preserve, ao mesmo tempo, uma suspeita de mistério, para o caso de até lá, até esse insucesso previsível, só saí­rem banalidades.